Questão de Medicina — Cardiologia e Alterações Vasculares — VUNESP 2025
Medicina›Cardiologia e Alterações Vasculares
Código
vu112883
Banca
VUNESP
Órgão
UNIFESP
Ano
2025
Nível
Superior
Cargo
Médico - Área: Cardiologia Geral
Homem, 31 anos, é atendido com cefaleia, dispneia e precordialgia há 4 dias. Faz uso de anti-hipertensivos orais, sendo um diurético tiazídico e um bloqueador dos canais de cálcio. História familiar positiva para hipertensão arterial. Exame físico: PA = 180 x 105 mmHg; FC = 72 bpm; não há alterações ortostáticas; auscultas cardíaca e pulmonar normais. Exames laboratoriais: sódio = 147 mEq/L; potássio = 2,8 mEq/L; cloreto = 90 mEq/L; bicarbonato = 32 mEq/L; ureia = 52 mg/dL; creatinina = 1,79 mg/dL; glicemia = 89 mg/dL; pH venoso = 7,47; atividade da renina plasmática = < 0,05 ng/mL/h (normal: 0,6 a 4,3); aldosterona plasmática = 132 ng/dL (normal: 4 a 21).Considerando o quadro clínico, o diagnóstico mais provável é de
Asíndrome de Tietze.
Bfeocromocitoma.
Caldosteronismo primário.
Dangiodisplasia de artéria renal.
Ehipopituitarismo.
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GabaritoC — aldosteronismo primário.
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Gabarito: letra C. O quadro é de hipertensão grave associada a hipocalemia (K+ = 2,8 mEq/L), alcalose metabólica (HCO3- = 32 mEq/L, pH = 7,47), hipernatremia leve (Na+ = 147 mEq/L) e, decisivamente, renina suprimida (< 0,05 ng/mL/h) com aldosterona elevada (132 ng/dL) — o padrão bioquímico clássico do aldosteronismo primário, em que a produção autônoma de aldosterona pela suprarrenal inibe a renina por feedback negativo. A relação aldosterona/renina desproporcionalmente elevada é o rastreamento de escolha, conforme as diretrizes de hipertensão arterial.
O aldosteronismo primário (hiperaldosteronismo primário) é uma causa secundária e potencialmente curável de hipertensão arterial, caracterizada pela secreção autônoma e excessiva de aldosterona pela glândula suprarrenal, independentemente do estímulo da renina e da angiotensina II. A aldosterona é um mineralocorticoide que age nos túbulos renais promovendo reabsorção de sódio e excreção de potássio e hidrogênio. O excesso desse hormônio, portanto, gera um padrão laboratorial típico: hipertensão, hipocalemia, alcalose metabólica e hipernatremia (por retenção de sódio e água).
A fisiopatologia explica cada alteração: a retenção de sódio expande o volume extracelular, elevando a pressão arterial; a excreção aumentada de potássio na urina leva à hipocalemia; a excreção de hidrogênio gera alcalose metabólica. O ponto-chave do diagnóstico é a relação aldosterona/renina: no aldosteronismo primário, a aldosterona está alta e a renina está suprimida (porque o volume expandido inibe o aparelho justaglomerular). Esse é exatamente o padrão do paciente: renina < 0,05 ng/mL/h (suprimida) e aldosterona de 132 ng/dL (elevada).
Na prática clínica, a suspeita de aldosteronismo primário deve ser levantada em todo paciente com hipertensão e hipocalemia espontânea (sem uso de diuréticos), ou hipocalemia grave com uso de diuréticos, hipertensão resistente ao tratamento, ou incidentaloma adrenal. O rastreamento é feito pela dosagem da relação aldosterona/renina plasmática, e a confirmação por testes de supressão (como infusão salina ou captopril) e exames de imagem (TC de adrenais). O tratamento de primeira linha é o antagonista mineralocorticoide (espironolactona ou eplerenona), e o adenoma produtor de aldosterona pode ser tratado cirurgicamente.
A pegadinha desta questão está em reconhecer que o paciente já faz uso de diurético tiazídico, que também pode causar hipocalemia. No entanto, a renina suprimida com aldosterona elevada não é explicada pelo tiazídico — que, ao contrário, tende a elevar a renina. Além disso, a hipocalemia é grave (2,8 mEq/L) mesmo em uso de diurético, o que reforça a suspeita de hiperaldosteronismo primário, conforme a tabela de achados sugestivos de hipertensão secundária. O diagnóstico diferencial com feocromocitoma (que cursa com crises de palpitação, sudorese e cefaleia, sem o padrão bioquímico de renina/aldosterona) e com doença renovascular (que cursa com renina elevada) é afastado pelos exames.
Guarde o par renina suprimida + aldosterona elevada como a assinatura bioquímica do aldosteronismo primário: é exatamente esse critério que separa a alternativa correta das demais, que apresentam outros mecanismos de hipertensão secundária.
Aldosteronismo primário
1Fisiopatologia
Secreção autônoma de aldosterona
Suprime renina (feedback negativo)
2Achados laboratoriais
Renina suprimida
Aldosterona elevada
Hipocalemia
Alcalose metabólica
Hipernatremia
3Diagnóstico
Relação aldosterona/renina
Teste de supressão
TC de adrenais
4Tratamento
Antagonista mineralocorticoide
Cirurgia (adenoma)
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Alternativa A — ❌ Incorreta
A síndrome de Tietze é uma condição musculoesquelética caracterizada por dor e edema na região das cartilagens costais (costocondrite), sem relação com o padrão bioquímico apresentado. Não explica a hipertensão grave, a hipocalemia, a alcalose metabólica nem as alterações de renina e aldosterona. O paciente tem precordialgia, mas a ausência de alterações à ausculta cardíaca e o quadro laboratorial apontam para causa endócrino-metabólica, não para dor de parede torácica.
Alternativa B — ❌ Incorreta
O feocromocitoma é um tumor produtor de catecolaminas que cursa classicamente com hipertensão paroxística ou sustentada, associada a cefaleia, palpitações e sudorese — a tríade clássica. Embora o paciente tenha cefaleia e precordialgia, não há relato de palpitações nem sudorese, e o padrão laboratorial é incompatível: o feocromocitoma não causa hipocalemia com alcalose metabólica nem o padrão de renina suprimida com aldosterona elevada. Pelo contrário, as catecolaminas tendem a estimular o sistema renina-angiotensina, elevando a renina. O diagnóstico seria feito por dosagem de metanefrinas plasmáticas ou urinárias, não pelo perfil apresentado.
Alternativa C — ✅ Correta ⟵ GABARITO
O aldosteronismo primário é a causa mais provável, pois o paciente apresenta o padrão bioquímico clássico: hipertensão grave (PA 180 x 105 mmHg), hipocalemia (K+ = 2,8 mEq/L), alcalose metabólica (HCO3- = 32 mEq/L, pH = 7,47), hipernatremia leve (Na+ = 147 mEq/L) e, decisivamente, renina suprimida (< 0,05 ng/mL/h) com aldosterona elevada (132 ng/dL). A produção autônoma de aldosterona pelo adenoma ou hiperplasia suprarrenal suprime a renina por feedback negativo, e o excesso de mineralocorticoide gera as alterações eletrolíticas e acidobásicas. A relação aldosterona/renina desproporcionalmente elevada é o rastreamento de escolha, conforme as diretrizes de hipertensão arterial.
Alternativa D — ❌ Incorreta
A angiodisplasia de artéria renal (ou doença renovascular) é causa de hipertensão secundária por estenose da artéria renal, que ativa o sistema renina-angiotensina-aldosterona. O padrão laboratorial esperado é de renina elevada (hiperreninemia), não suprimida como no caso. Além disso, a doença renovascular costuma cursar com sopro abdominal, início súbito de hipertensão após os 55 anos ou piora da função renal com uso de IECA/BRA — achados ausentes no paciente. A hipocalemia com alcalose metabólica pode ocorrer por hiperaldosteronismo secundário, mas a renina estaria alta, não baixa.
Alternativa E — ❌ Incorreta
O hipopituitarismo é a deficiência de hormônios da hipófise anterior, que pode cursar com hipotensão (por deficiência de ACTH e cortisol), hiponatremia (por deficiência de cortisol e ADH), hipoglicemia e fadiga. Não explica a hipertensão grave, a hipocalemia, a alcalose metabólica nem o padrão de renina/aldosterona. O paciente tem glicemia normal (89 mg/dL) e sódio elevado (147 mEq/L), o que afasta a suspeita de insuficiência adrenal/hipofisária, que cursaria com hiponatremia e hipoglicemia.
Gabarito: letra C — o diagnóstico mais provável é aldosteronismo primário, confirmado pelo padrão de renina suprimida com aldosterona elevada, hipocalemia e alcalose metabólica em paciente hipertenso.