Questão de Medicina — Cardiologia e Alterações Vasculares — VUNESP 2025
Medicina›Cardiologia e Alterações Vasculares
Código
vu112885
Banca
VUNESP
Órgão
UNIFESP
Ano
2025
Nível
Superior
Cargo
Médico - Área: Cardiologia Geral
Homem, 33 anos, procura cardiologista para uma consulta inicial após seu irmão mais jovem ter sido internado e recebido diagnóstico de cardiomiopatia hipertrófica. O paciente pratica atividade física regularmente e joga basquete nos fins de semana. Nega qualquer dor torácica, falta de ar ou tontura durante essas atividades. Exame físico: PA = 130 x 84 mmHg e FC = 73 bpm; bulhas rítmicas a 2t sem sopros, íctus normal e ausência de sopros. Os exames complementares revelam: eletrocardiograma com ritmo sinusal; ecocardiograma revela função normal do ventrículo esquerdo, espessura de parede normal e nenhuma doença valvar cardíaca significativa.Com base nos dados apresentados, qual das seguintes mutações é mais provável de ser encontrada nesse paciente?
AGalactosidase alfa (GLA).
BCadeia pesada de miosina beta 7 (MYH7).
CSubunidade gama 2 não catalítica da proteína quinase AMP-ativada (PRKAG2).
DFibrilina 1 (FBN1).
ESubunidade alfa 5 do canal de sódio voltagem-dependente (SCN5A).
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GabaritoB — Cadeia pesada de miosina beta 7 (MYH7).
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Cardiomiopatia hipertrófica: genética e diagnóstico
Gabarito: letra B. A mutação mais provável em um paciente com história familiar de cardiomiopatia hipertrófica (CMH) é a do gene MYH7, que codifica a cadeia pesada de miosina beta 7, a causa genética mais comum da doença. O contexto clínico — irmão mais jovem com diagnóstico confirmado, paciente assintomático e ecocardiograma normal — aponta para uma forma familiar de CMH, cuja herança é autossômica dominante e cuja base molecular está, na maioria dos casos, em genes que codificam proteínas do sarcômero, sendo o MYH7 o mais frequente.
A cardiomiopatia hipertrófica é uma doença genética do músculo cardíaco, caracterizada por hipertrofia ventricular esquerda (HVE) sem causa aparente, como hipertensão ou estenose aórtica. A doença é causada por mutações em genes que codificam proteínas do sarcômero — a unidade contrátil do cardiomiócito. O gene MYH7 (cadeia pesada de miosina beta 7) é o mais comumente mutado, responsável por cerca de 30-40% dos casos genotipados, seguido pelo gene MYBPC3 (proteína C de ligação à miosina). A herança é tipicamente autossômica dominante, o que explica a ocorrência em irmãos: cada filho de um portador tem 50% de chance de herdar a mutação.
O diagnóstico de CMH é feito por ecocardiograma, que mostra HVE (espessura de parede ≥ 15 mm) sem outra causa. No entanto, o paciente deste caso tem ecocardiograma normal — o que não exclui a doença, pois a expressão fenotípica é variável e pode ocorrer tardiamente. A história familiar positiva é o principal fator de risco, e a diretriz atual recomenda a avaliação genética em familiares de primeiro grau de pacientes com CMH, mesmo na ausência de hipertrofia ao ecocardiograma. O teste genético, quando identifica a mutação causal na família, permite o diagnóstico precoce e o rastreamento dos familiares em risco.
A apresentação clínica da CMH é variável: muitos pacientes são assintomáticos, como o caso em questão, enquanto outros apresentam dispneia, dor torácica, síncope ou morte súbita, especialmente em atletas jovens. O exame físico pode ser normal ou revelar sopro sistólico ejetivo, que aumenta com a manobra de Valsalva e diminui com o agachamento. O ECG pode ser normal ou mostrar sinais de HVE, ondas Q patológicas ou alterações de repolarização. A estratificação de risco de morte súbita é fundamental, e a restrição de atividades competitivas é recomendada para pacientes com CMH, mesmo assintomáticos.
A questão explora o conhecimento das bases genéticas da CMH e a capacidade de diferenciar as mutações associadas a outras cardiopatias. A pegadinha está em reconhecer que, apesar do ecocardiograma normal, a história familiar de CMH é o dado central, e a mutação mais provável é a do gene MYH7, o mais comum na doença. As demais alternativas apresentam mutações associadas a outras condições cardíacas, que não se encaixam no contexto clínico apresentado.
Gene (Mutação)
Doença Associada
Mecanismo
Manifestações Típicas
Compatível com o Caso?
MYH7 (cadeia pesada de miosina beta 7)
Cardiomiopatia hipertrófica (CMH)
Proteína do sarcômero (contrátil)
Hipertrofia VE, herança autossômica dominante, penetrância variável
Sim — causa mais comum de CMH familiar; ECG e eco normais não excluem doença.
Não — ausência de manifestações sistêmicas; causa rara e secundária.
PRKAG2 (subunidade gama 2 da AMPK)
Síndrome de PRKAG2
Depósito de glicogênio
HVE + bloqueio AV, pré-excitação (WPW)
Não — ECG normal, sem distúrbios de condução.
FBN1 (fibrilina 1)
Síndrome de Marfan
Defeito do tecido conjuntivo (matriz extracelular)
Dilatação de aorta, alterações esqueléticas e oculares
Não — não causa CMH; sem fenótipo de Marfan.
SCN5A (canal de sódio)
Canalopatias (Brugada, QT longo tipo 3)
Canal iônico
Alterações de ECG, arritmias, morte súbita
Não — ECG normal; não é doença sarcomérica.
Cardiomiopatia hipertrófica: Genética (sarcomérica) (MYH7 (mais comum), MYBPC3); Diagnóstico (Ecocardiograma (HVE ≥ 15 mm), Normal não exclui (penetrância variável)); Causas secundárias (HVE) (Doença de Fabry (GLA), PRKAG2 (glicogênio), Síndrome de Marfan (FBN1))
Alternativa A — ❌ Incorreta
A mutação no gene GLA (galactosidase alfa) causa a doença de Fabry, uma doença de depósito lisossômico ligada ao cromossomo X, que pode cursar com cardiomiopatia hipertrófica, mas é uma causa rara e com outras manifestações sistêmicas (angioceratonas, acroparestesias, opacidades corneanas, insuficiência renal). No caso, a história familiar de CMH em irmão mais jovem e a ausência de outros sintomas tornam a doença de Fabry improvável. A doença de Fabry é uma causa secundária de HVE, não uma forma familiar de CMH sarcomérica.
Alternativa B — ✅ Correta ⟵ GABARITO
A mutação no gene MYH7 (cadeia pesada de miosina beta 7) é a causa genética mais comum de cardiomiopatia hipertrófica, responsável por cerca de 30-40% dos casos. O gene codifica uma proteína do sarcômero, e sua mutação leva à hipertrofia ventricular esquerda. A história familiar de CMH em irmão mais jovem, com padrão autossômico dominante, é altamente sugestiva de uma forma sarcomérica, sendo o MYH7 o gene mais provável de estar mutado. O ecocardiograma normal não exclui a doença, pois a penetrância é idade-dependente e a expressão fenotípica é variável.
Alternativa C — ❌ Incorreta
A mutação no gene PRKAG2 (subunidade gama 2 não catalítica da proteína quinase AMP-ativada) causa uma síndrome rara caracterizada por cardiomiopatia hipertrófica, distúrbios de condução (bloqueio atrioventricular) e pré-excitação ventricular (síndrome de Wolff-Parkinson-White). É uma doença de depósito de glicogênio, não uma doença sarcomérica. No caso, a ausência de distúrbios de condução e a história familiar de CMH em irmão tornam essa mutação menos provável. O PRKAG2 é uma causa rara de HVE, e a apresentação típica inclui arritmias e bloqueios, que não estão presentes no paciente.
Alternativa D — ❌ Incorreta
A mutação no gene FBN1 (fibrilina 1) causa a síndrome de Marfan, uma doença do tecido conjuntivo que afeta o sistema cardiovascular (dilatação da aorta ascendente, prolapso de valva mitral), esquelético (estatura alta, aracnodactilia, escoliose) e ocular (ectopia lentis). Não causa cardiomiopatia hipertrófica. O paciente não apresenta características fenotípicas de Marfan, e a história familiar de CMH aponta para outra etiologia. A fibrilina 1 é uma proteína da matriz extracelular, não uma proteína sarcomérica.
Alternativa E — ❌ Incorreta
A mutação no gene SCN5A (subunidade alfa 5 do canal de sódio voltagem-dependente) está associada a canalopatias cardíacas, como a síndrome de Brugada, o QT longo tipo 3 e a doença de condução cardíaca. Não causa cardiomiopatia hipertrófica. O paciente não apresenta alterações eletrocardiográficas sugestivas de canalopatia (ECG com ritmo sinusal normal), e a história familiar de CMH aponta para uma doença sarcomérica. O SCN5A é um gene de canal iônico, não de proteína sarcomérica.
Gabarito: letra B — a mutação no gene MYH7 é a mais provável em paciente com história familiar de cardiomiopatia hipertrófica, pois é a causa genética mais comum da doença, com herança autossômica dominante e expressão fenotípica variável.