Questão de Medicina — Cardiologia e Alterações Vasculares — VUNESP 2025
Medicina›Cardiologia e Alterações Vasculares
Código
vu112897
Banca
VUNESP
Órgão
UNIFESP
Ano
2025
Nível
Superior
Cargo
Médico - Área: Cardiologia Pediátrica
Paciente de 1 ano e 11 meses deu entrada no Pronto- -Socorro com história de ânsia de vômito, palidez, sudorese e cianose ontem, sem perda de consciência. Hoje, refere novo quadro de cianose e palidez com saturação de 65% em ar ambiente, segundo aferição com o aparelho da mãe. Na avaliação atual, a saturação periférica da criança em ar ambiente foi de 95%. Mãe refere que, com 3 dias de vida, teve diagnóstico de cardiopatia congênita e bloqueio atrioventricular total, necessitando de implante de marca-passo definitivo, além de quadro convulsivo (segue com neurologista), mas nunca havia ficado roxa antes. Qual é a cardiopatia congênita provável associada ao bloqueio atrioventricular? Considere a radiografia de tórax atual a seguir.(Arquivo pessoal; imagens usadas com autorização)
AAtresia pulmonar com septo interventricular íntegro.
BIsomerismo atrial direito com defeito do septo atrioventricular total.
CAnomalia de Ebstein da valva tricúspide com comunicação interventricular.
DAtresia tricúspide I B.
ETransposição corrigida das grandes artérias.
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GabaritoE — Transposição corrigida das grandes artérias.
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Transposição corrigida das grandes artérias: a cardiopatia que associa BAVT congênito
Gabarito: letra E. A transposição corrigida das grandes artérias (TGA corrigida, ou L-transposição) é a cardiopatia congênita clássica associada a bloqueio atrioventricular total (BAVT) congênito, frequentemente já no período neonatal — o que explica o implante de marca-passo definitivo aos 3 dias de vida. As demais alternativas não apresentam essa associação típica e precoce com BAVT, sendo a TGA corrigida o diagnóstico que amarra todos os elementos do caso.
A transposição corrigida das grandes artérias é uma cardiopatia congênita complexa em que há dupla discordância: os ventrículos estão invertidos (ventrículo direito morfologicamente à esquerda, recebendo sangue do átrio esquerdo, e ventrículo esquerdo morfologicamente à direita, recebendo sangue do átrio direito) e as grandes artérias também estão transpostas (aorta originando-se do ventrículo direito morfológico e a artéria pulmonar do ventrículo esquerdo morfológico). O resultado funcional é que a circulação sistêmica e a pulmonar ficam em série, com sangue oxigenado chegando à aorta — por isso, na ausência de defeitos associados, o paciente pode ser acianótico. A "correção" é fisiológica, não anatômica.
A associação com BAVT é a marca registrada dessa cardiopatia. O sistema de condução atrioventricular, em vez de seguir o trajeto normal pelo septo interventricular, tem um curso anômalo e mais longo, o que o torna vulnerável a fibrose e disfunção progressiva. Estima-se que o BAVT ocorra em cerca de 2% ao ano em pacientes com TGA corrigida, e pode estar presente já ao nascimento ou se desenvolver ao longo da vida. O diagnóstico de BAVT congênito em um recém-nascido com cardiopatia congênita deve levantar imediatamente a suspeita de TGA corrigida — é uma associação tão característica que muitos autores a consideram quase patognomônica.
O quadro clínico apresentado — episódios de cianose e palidez com dessaturação importante (65%) que se resolvem espontaneamente, em uma criança com marca-passo e cardiopatia congênita — sugere crises de hipoxemia. Na TGA corrigida, essas crises podem ocorrer por diversos mecanismos: arritmias (relacionadas ao sistema de condução anômalo), obstrução ao fluxo pulmonar (estenose pulmonar é comum nessa cardiopatia), ou disfunção ventricular. A radiografia de tórax, embora não descrita em detalhes, tipicamente mostra cardiomegalia e pode evidenciar o "sinal da bailarina" (silhueta cardíaca anormal pelo posicionamento atípico das câmaras e grandes vasos), um achado clássico da TGA corrigida.
A distinção crucial que separa as alternativas é a associação específica com BAVT congênito. Enquanto a TGA corrigida tem essa associação como característica definidora, as outras cardiopatias listadas — atresia pulmonar com septo íntegro, isomerismo atrial direito, anomalia de Ebstein e atresia tricúspide — são cianóticas por natureza (dependentes de shunt ou com mistura de sangue) e não cursam tipicamente com BAVT congênito que exija marca-passo no período neonatal. É exatamente essa fronteira que decide a questão: a presença de BAVT congênito aponta para a TGA corrigida.
TGA corrigida (L-transposição): Dupla discordância (Ventrículos invertidos, Grandes artérias transpostas); Correção fisiológica (Sangue oxigenado na aorta, Pode ser acianótica); BAVT congênito (marca registrada) (Sistema de condução anômalo, Trajeto mais longo e vulnerável, Pode exigir marca-passo neonatal); Cianose episódica (Arritmias, Obstrução ao fluxo pulmonar, Disfunção ventricular); RX: sinal da bailarina
Alternativa A — ❌ Incorreta
A atresia pulmonar com septo interventricular íntegro é uma cardiopatia cianótica grave e dependente do canal arterial para sobrevivência neonatal. O paciente apresenta cianose intensa desde o nascimento, com necessidade de prostaglandina E1 para manter o ducto aberto. Não há associação característica com BAVT congênito — o sistema de condução é tipicamente normal. A cianose aqui é contínua e grave, não episódica como no caso descrito.
Alternativa B — ❌ Incorreta
O isomerismo atrial direito (síndrome de asplenia) é uma heterotaxia que cursa com cardiopatias complexas, incluindo defeito do septo atrioventricular total. Embora possa haver anormalidades de condução, o BAVT congênito não é a manifestação típica e precoce dessa condição. O quadro clínico é dominado pela cianose por mistura de sangue e pela complexidade anatômica, não por bloqueio atrioventricular isolado que exija marca-passo neonatal.
Alternativa C — ❌ Incorreta
A anomalia de Ebstein da valva tricúspide pode cursar com cianose e arritmias, incluindo vias acessórias (síndrome de Wolff-Parkinson-White). No entanto, o BAVT congênito não é uma associação característica. A cianose na Ebstein é geralmente por shunt direito-esquerdo através de forame oval patente ou comunicação interatrial, e o quadro clínico é diferente do descrito — com sopro característico, cardiomegalia importante e, em casos graves, insuficiência cardíaca.
Alternativa D — ❌ Incorreta
A atresia tricúspide tipo I B é uma cardiopatia cianótica com ausência da valva tricúspide, hipoplasia do ventrículo direito e comunicação interventricular. A cianose é uma característica constante desde o nascimento, e o fluxo pulmonar depende da presença de CIV e/ou canal arterial. Não há associação típica com BAVT congênito — o sistema de condução é usualmente normal. A sobrevivência sem correção cirúrgica precoce é rara, e o quadro clínico não se encaixa com episódios de cianose que se resolvem espontaneamente.
Alternativa E — ✅ Correta ⟵ GABARITO
A transposição corrigida das grandes artérias é a cardiopatia congênita com a associação mais forte e característica com BAVT congênito. O sistema de condução anômalo, com trajeto mais longo e vulnerável, leva a bloqueio atrioventricular progressivo que pode se manifestar já no período neonatal — exatamente o que ocorreu com a paciente, que necessitou de marca-passo definitivo aos 3 dias de vida. A cianose episódica pode ocorrer por arritmias, obstrução ao fluxo pulmonar ou disfunção ventricular, e a radiografia de tórax pode mostrar o sinal da bailarina. Todos os elementos do caso convergem para esse diagnóstico.
NÃO CAIA NESSA!
A banca explora a confusão entre as cardiopatias cianóticas "clássicas" (atresia pulmonar, atresia tricúspide, Ebstein) e a TGA corrigida. O candidato que foca apenas na cianose pode ser atraído pelas alternativas A, C ou D, que são cardiopatias tipicamente cianóticas. No entanto, o dado decisivo é o BAVT congênito com marca-passo neonatal — uma associação quase patognomônica da TGA corrigida. A cianose episódica, que se resolve espontaneamente, é um red herring: na TGA corrigida, ela não é a manifestação principal, mas sim uma complicação de arritmias ou obstrução ao fluxo pulmonar. Fique atento: quando a questão menciona BAVT congênito + cardiopatia, pense primeiro em TGA corrigida.
PEGA ESSA DICA!
Para questões de cardiopatia congênita, monte um mapa mental com as associações clássicas: TGA corrigida → BAVT congênito; anomalia de Ebstein → WPW; tetralogia de Fallot → crises de hipóxia ("tet spells"); síndrome de Down → defeito do septo atrioventricular. Essa tabela mental resolve rapidamente muitas questões de prova.