Questão de Medicina — Gastroenterologia — VUNESP 2025
Medicina›Gastroenterologia
Código
vu113040
Banca
VUNESP
Órgão
UNIFESP
Ano
2025
Nível
Superior
Cargo
Médico - Área: Clínica Médica
Paciente de 24 anos de idade, mulher, fez exames de sangue depois que sua mãe testou positivo para o vírus da hepatite B (HB). A paciente não tem sintomas ou sinais de doença hepática crônica. Exames séricos: bilirrubina: 0,8 mg/dL; alanina aminotransferase: 126 U/L; creatinina: 0,9 mg/dL; hemoglobina: 12 g/dL; plaquetas: 214.000/mm³ ; albumina e coagulograma são normais; HBsAg: positivo; anti-HBe: positivo; HBeAg: negativo; DNA do vírus HB: 41.000 UI/mL; anticorpo para vírus da hepatite C: negativo; anticorpo para hepatite D: negativo; anti HIV: negativo. Ultrassonografia de abdome é normal.No caso dessa paciente, a próxima conduta mais adequada é
Ainiciar o tratamento com tenofovir.
Bproceder à biópsia hepática e iniciar o tenofovir, se houver evidência de cirrose.
Crealizar a elastografia transitória e não indicar tratamento, se o valor for menor que 6 kPa.
Drealizar a elastografia transitória e iniciar interferon peguilhado, se o valor for maior que 9 kPa.
Erealizar a elastografia transitória e iniciar tenofovir, se o valor for maior que 12 kPa.
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GabaritoA — iniciar o tratamento com tenofovir.
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Hepatite B crônica: indicação de tratamento antiviral
Gabarito: letra A. A paciente tem hepatite B crônica com HBeAg negativo, ALT elevada (126 U/L) e carga viral de 41.000 UI/mL — combinação que, segundo o Protocolo Clínico e Diretrizes Terapêuticas (PCDT) do Ministério da Saúde, indica tratamento antiviral independentemente do estadiamento de fibrose. O tenofovir é a primeira escolha. As demais alternativas condicionam o tratamento à elastografia ou à biópsia, o que contraria a recomendação do protocolo para este perfil.
A hepatite B crônica é uma infecção persistente pelo vírus da hepatite B (HBV), definida pela presença do HBsAg por mais de 6 meses. A história natural da doença é dividida em fases, que se distinguem pela combinação de HBeAg, carga viral (HBV-DNA) e níveis de ALT. A paciente em questão está na fase HBeAg negativa (também chamada de hepatite B crônica HBeAg negativa), caracterizada por HBeAg não reagente, anti-HBe reagente, carga viral detectável e ALT elevada. Essa fase é marcada por doença hepática ativa e progressão mais rápida para cirrose e carcinoma hepatocelular (CHC), mesmo com carga viral relativamente baixa.
O PCDT do Ministério da Saúde estabelece critérios objetivos para indicar tratamento. Para pacientes HBeAg negativos, a combinação de ALT elevada (acima do limite superior da normalidade) e carga viral acima de 2.000 UI/mL é suficiente para indicar terapia antiviral, independentemente do grau de fibrose. A paciente tem ALT de 126 U/L (elevada) e carga viral de 41.000 UI/mL (bem acima de 2.000), preenchendo ambos os critérios. Por isso, o tratamento deve ser iniciado imediatamente, sem necessidade de estadiamento hepático prévio.
A elastografia hepática transitória (EHT) é um método não invasivo para avaliar a fibrose hepática, mas sua principal indicação é para pacientes que não preenchem critérios de tratamento sem sua utilização. No caso da paciente, como ela já preenche os critérios clínicos e laboratoriais, a elastografia não é necessária para decidir o tratamento. A biópsia hepática, por sua vez, fica reservada para situações em que, mesmo após avaliação por métodos não invasivos e critérios clínicos, ainda restarem dúvidas sobre a indicação de tratamento — o que não ocorre aqui.
O tenofovir (TDF) é um análogo de nucleotídeo, antiviral de primeira linha para hepatite B crônica, com alta barreira genética à resistência e perfil de segurança favorável. O interferon peguilhado (PEG-IFN) é uma alternativa, mas não é a primeira escolha para pacientes com ALT elevada e carga viral alta, sendo mais utilizado em casos selecionados (como HBeAg positivo com ALT elevada e baixa carga viral, ou em mulheres jovens que desejam engravidar em curto prazo).
A pegadinha desta questão está em condicionar o tratamento ao resultado da elastografia, quando na verdade a paciente já preenche critérios clínicos e laboratoriais que tornam o tratamento obrigatório, independentemente do estadiamento. A banca explora a confusão entre os critérios de tratamento e os critérios de estadiamento, que são etapas distintas na abordagem da hepatite B crônica.
Alternativa A — ✅ Correta ⟵ GABARITO
A paciente tem hepatite B crônica HBeAg negativa com ALT elevada (126 U/L) e carga viral de 41.000 UI/mL. Segundo o PCDT, a combinação de ALT elevada e HBV-DNA > 2.000 UI/mL indica tratamento antiviral, independentemente do estadiamento de fibrose. O tenofovir é a primeira escolha, pois é um antiviral potente, com alta barreira à resistência e seguro. A alternativa está correta ao iniciar o tratamento diretamente, sem condicioná-lo a exames de estadiamento.
Alternativa B — ❌ Incorreta
A biópsia hepática não é necessária para indicar tratamento nesta paciente, pois ela já preenche critérios clínicos e laboratoriais (ALT elevada + carga viral > 2.000 UI/mL). A biópsia fica reservada para casos em que, mesmo após avaliação por métodos não invasivos e critérios clínicos, ainda restem dúvidas sobre a indicação de tratamento. Além disso, a alternativa condiciona o tratamento à evidência de cirrose, o que é incorreto — o tratamento é indicado para doença ativa, mesmo sem cirrose.
Alternativa C — ❌ Incorreta
A elastografia transitória não é necessária para decidir o tratamento nesta paciente, pois ela já preenche critérios clínicos e laboratoriais. Além disso, a alternativa afirma que não se deve tratar se o valor for menor que 6 kPa, o que é incorreto: o valor de 6 kPa é o ponto de corte para excluir fibrose significativa, mas a paciente já tem indicação de tratamento por critérios clínicos, independentemente do resultado da elastografia. A conduta correta seria iniciar o tratamento, não apenas manter seguimento.
Alternativa D — ❌ Incorreta
O interferon peguilhado não é a primeira escolha para esta paciente. Ela tem ALT elevada e carga viral alta (41.000 UI/mL), perfil em que o tenofovir é preferível. Além disso, a alternativa condiciona o tratamento ao resultado da elastografia (> 9 kPa), o que é desnecessário, pois a paciente já preenche critérios clínicos e laboratoriais para tratamento. O PEG-IFN é mais utilizado em casos selecionados, como HBeAg positivo com ALT elevada e baixa carga viral.
Alternativa E — ❌ Incorreta
A alternativa condiciona o tratamento ao resultado da elastografia (> 12 kPa), o que é incorreto. A paciente já preenche critérios clínicos e laboratoriais (ALT elevada + carga viral > 2.000 UI/mL) que indicam tratamento, independentemente do estadiamento de fibrose. O valor de 12 kPa é um ponto de corte para fibrose avançada/cirrose em pacientes com ALT elevada, mas não é um pré-requisito para iniciar o tratamento. O tenofovir deve ser iniciado imediatamente.
NÃO CAIA NESSA!
A banca tenta fazer você acreditar que o tratamento depende do estadiamento de fibrose (elastografia ou biópsia). Mas a paciente já preenche critérios clínicos e laboratoriais (ALT elevada + carga viral > 2.000 UI/mL) que tornam o tratamento obrigatório, independentemente do grau de fibrose. A elastografia é para quem não preenche esses critérios. Fique atento: quando a ALT está elevada e a carga viral é alta, o tratamento é indicado de imediato.
PEGA ESSA DICA!
Para hepatite B crônica, decore os critérios de tratamento: HBeAg positivo → tratar se ALT > 2x LSN ou carga viral > 20.000 UI/mL; HBeAg negativo → tratar se ALT elevada e carga viral > 2.000 UI/mL. Se a ALT estiver normal, avalie a carga viral e a fibrose. A elastografia é útil apenas quando os critérios clínicos não são claros.