Paciente de 60 anos de idade, sexo feminino, sem comorbidades, apresenta quadro de afasia de expressão e parestesia em face de curta duração. Exame de imagem compatível com glioma de alto grau. Encaminhada para cirurgia, com ressecção macrototal. Procedimento sem intercorrências, paciente apresenta-se para avaliação de tratamento adjuvante sem deficit neurológico; KPS: 70. Anatomopatológico: glioblastoma IDH-selvagem, grau 4 (OMS-CNSS, 2021).Assinale a alternativa correta com relação a esse caso.
ADeve ser avaliada a metilação de MGMT; se metilada, tem indicação de radioterapia adjuvante, com temozolamida concomitante, seguida de temozolamida.
BTem indicação de radioterapia adjuvante exclusiva independentemente da metilação de MGMT.
CDeve ser avaliada a metilação de MGMT; se metilada, tem indicação de radioterapia adjuvante exclusiva.
DDevido ao baixo KPS, tem indicação de temozolamida adjuvante exclusiva.
ENão há tratamento padrão; deve ser incluída em protocolo clínico.
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GabaritoA — Deve ser avaliada a metilação de MGMT; se metilada, tem indicação de radioterapia adjuvante, com temozolamida concomitante, seguida de temozolamida.
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Glioblastoma IDH-selvagem: tratamento adjuvante e papel da metilação de MGMT
Gabarito: letra A. No glioblastoma IDH-selvagem, o padrão-ouro de tratamento adjuvante após ressecção é a radioterapia concomitante com temozolomida, seguida de temozolomida adjuvante, e a avaliação da metilação do promotor de MGMT é fundamental para definir o benefício adicional da quimioterapia — pacientes com MGMT metilado têm maior benefício com a adição de temozolomida. A alternativa A descreve exatamente esse esquema, condicionando a indicação da temozolomida à avaliação do status de MGMT.
O glioblastoma é o tumor cerebral primário mais agressivo e comum em adultos, classificado como grau 4 pela OMS. A classificação de 2021 (OMS-CNS5) incorporou marcadores moleculares como elementos centrais do diagnóstico: a presença de mutação no gene IDH define um grupo prognóstico distinto, e o termo "IDH-selvagem" (ou IDH wild-type) indica ausência dessa mutação, conferindo pior prognóstico. O tratamento padrão para pacientes com bom performance status (KPS ≥ 60) e doença recém-diagnosticada envolve a ressecção cirúrgica máxima segura, seguida de radioterapia com feixe externo focal associada a quimioterapia. O esquema clássico, estabelecido pelo estudo EORTC-NCIC, é a radioterapia concomitante com temozolomida diária, seguida de seis ciclos de temozolomida adjuvante.
A metilação do promotor do gene MGMT (O6-metilguanina-DNA metiltransferase) é um biomarcador preditivo e prognóstico crucial. A MGMT é uma enzima de reparo de DNA que remove as lesões causadas pelos agentes alquilantes, como a temozolomida. Quando o promotor do gene está metilado, a expressão da enzima é silenciada, tornando as células tumorais mais sensíveis à quimioterapia. Assim, pacientes com MGMT metilado apresentam maior benefício com a adição de temozolomida ao tratamento, com ganho de sobrevida global. Por outro lado, pacientes com MGMT não metilado (ou não metilado) têm menor benefício, mas a temozolomida ainda é o padrão de cuidado, pois o benefício, embora menor, existe. A avaliação do status de MGMT é, portanto, essencial para o planejamento terapêutico e para a discussão prognóstica com o paciente.
Na prática clínica, a conduta para um paciente com glioblastoma IDH-selvagem, KPS 70, sem déficits neurológicos e com ressecção macrototal, é oferecer o esquema de Stupp: radioterapia (60 Gy em 30 frações) com temozolomida concomitante (75 mg/m² diariamente durante a radioterapia), seguida de temozolomida adjuvante (150-200 mg/m² por 5 dias a cada 28 dias, por 6 ciclos). A avaliação da metilação de MGMT deve ser realizada no tecido tumoral, e o resultado orienta a discussão sobre o benefício esperado da quimioterapia, mas não muda a recomendação de tratamento, que permanece o esquema combinado. A alternativa A captura essa nuance: "se metilada, tem indicação de radioterapia adjuvante, com temozolomida concomitante, seguida de temozolomida" — ou seja, a metilação de MGMT é um fator que reforça a indicação do esquema completo.
A pegadinha desta questão está em condicionar a indicação da temozolomida exclusivamente ao status de MGMT, como se pacientes com MGMT não metilado não devessem receber quimioterapia. Isso é incorreto: o esquema com temozolomida é o padrão para todos os pacientes com glioblastoma, independentemente do status de MGMT, embora o benefício seja maior nos metilados. A banca explora essa confusão nas alternativas B, C e D, que propõem tratamentos incompletos ou inadequados. A alternativa E, por sua vez, nega a existência de tratamento padrão, o que contraria a prática estabelecida. O KPS de 70, embora não seja excelente, é suficiente para indicar o tratamento combinado, pois o paciente está sem déficits neurológicos e com boa capacidade funcional.
Guarde o critério decisivo: no glioblastoma IDH-selvagem, o tratamento adjuvante padrão é sempre radioterapia + temozolomida (concomitante e adjuvante), e a metilação de MGMT é um biomarcador que modula o benefício, mas não a indicação. É exatamente essa distinção que separa a alternativa correta das incorretas.
Critério
Tratamento padrão (A)
Radioterapia exclusiva (B)
Radioterapia exclusiva se MGMT metilado (C)
Temozolomida exclusiva (D)
Sem tratamento padrão (E)
Inclui avaliação de MGMT
Sim
Não
Sim
Não
Não
Inclui radioterapia
Sim
Sim
Sim
Não
Não
Inclui temozolomida
Sim (concomitante e adjuvante)
Não
Não
Sim (adjuvante)
Não
Condiciona quimio ao status de MGMT
Sim (reforça benefício)
—
—
—
—
Adequado para KPS 70
Sim
Não
Não
Não
Não
Baseado em evidência (estudo EORTC-NCIC)
Sim
Não
Não
Não
Não
1Ressecção máxima segura
2Avaliar metilação de MGMT
3RT + temozolomida concomitante
4Temozolomida adjuvante (6 ciclos)
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Alternativa A — ✅ Correta ⟵ GABARITO
A alternativa descreve corretamente o esquema de Stupp: avaliação da metilação de MGMT e, se metilada, indicação de radioterapia com temozolomida concomitante, seguida de temozolomida adjuvante. O texto "se metilada, tem indicação de radioterapia adjuvante, com temozolomida concomitante, seguida de temozolomida" reflete o padrão-ouro para glioblastoma IDH-selvagem. A metilação de MGMT é um preditor de maior benefício com a temozolomida, e o esquema completo é o tratamento de escolha para pacientes com bom performance status (KPS ≥ 60), como é o caso (KPS 70). A alternativa está correta porque condiciona a indicação do esquema completo à avaliação do biomarcador, o que é clinicamente apropriado.
Alternativa B — ❌ Incorreta
Afirma que há indicação de radioterapia adjuvante exclusiva, independentemente da metilação de MGMT. Isso está errado porque o padrão de tratamento para glioblastoma IDH-selvagem inclui a temozolomida concomitante e adjuvante, e não apenas radioterapia. A radioterapia exclusiva seria uma opção para pacientes com KPS muito baixo (< 60) ou idosos frágeis, mas não é o caso da paciente, que tem KPS 70 e sem déficits. A alternativa ignora o benefício comprovado da quimioterapia e não reflete a prática padrão.
Alternativa C — ❌ Incorreta
Diz que, se MGMT metilado, há indicação de radioterapia adjuvante exclusiva. Isso é duplamente errado: primeiro, porque a metilação de MGMT é justamente um fator que indica maior benefício com a adição de temozolomida, e não com radioterapia exclusiva; segundo, porque o tratamento padrão nunca é radioterapia exclusiva para glioblastoma em paciente com bom KPS. A alternativa inverte a lógica do biomarcador: MGMT metilado → maior sensibilidade à quimioterapia → indicação de temozolomida, não de radioterapia isolada.
Alternativa D — ❌ Incorreta
Afirma que, devido ao baixo KPS, há indicação de temozolomida adjuvante exclusiva. O KPS de 70 não é considerado baixo para contraindicar o tratamento combinado; pelo contrário, é suficiente para indicar radioterapia + temozolomida. Além disso, temozolomida exclusiva não é o padrão para glioblastoma recém-diagnosticado — a radioterapia é parte essencial do tratamento. A alternativa confunde o cenário de paciente idoso/frágil (onde se pode considerar temozolomida isolada) com o caso da paciente, que tem boa capacidade funcional.
Alternativa E — ❌ Incorreta
Diz que não há tratamento padrão e que a paciente deve ser incluída em protocolo clínico. Isso é falso: existe um tratamento padrão bem estabelecido (radioterapia + temozolomida) para glioblastoma IDH-selvagem. Protocolos clínicos são reservados para situações de doença refratária, recidiva ou quando não há opções padrão, o que não é o caso. A alternativa nega a existência de um tratamento eficaz, o que contraria a prática clínica baseada em evidências.