Questão de Medicina — Gastroenterologia — VUNESP 2025
- Código
- vu113153
- Banca
- VUNESP
- Órgão
- UNIFESP
- Ano
- 2025
- Nível
- Superior
- Cargo
- Médico - Área: Gastroenterologia
- Afurosemida / espironolactona.
- Bácido etacrínico.
- Caprotinina.
- Dl-ornitina.
- Eoctreotide.
GabaritoE — octreotide.
Gabarito: letra E. Na ascite pancreática, o tratamento conservador inicial baseia-se na redução da secreção pancreática, sendo o octreotide (análogo da somatostatina) a medicação indicada para esse fim, conforme o gabarito oficial. As demais alternativas (diuréticos, aprotinina e l-ornitina) não são a conduta conservadora de primeira linha para essa condição específica.
A ascite pancreática é uma complicação da pancreatite, geralmente crônica, em que há extravasamento de líquido rico em enzimas (principalmente amilase) do pâncreas para a cavidade peritoneal. O diagnóstico é confirmado pela paracentese, que revela um líquido de aspecto exsudativo, com gradiente de albumina soro-ascite (GASA) < 1,1 g/dL e, caracteristicamente, amilase elevada (> 1.000 U/L). O contexto clínico (paciente jovem, etilista crônico) reforça a suspeita, pois o álcool é uma das principais causas de pancreatite crônica, que pode evoluir com ruptura de ducto pancreático e formação de ascite.
O princípio do tratamento conservador é "colocar o pâncreas em repouso", ou seja, diminuir ao máximo sua estimulação e, consequentemente, sua secreção enzimática. Isso é alcançado com jejum, nutrição parenteral ou enteral distal, e uso de análogos da somatostatina, como o octreotide. A somatostatina e seus análogos inibem diretamente a secreção exócrina e endócrina do pâncreas, reduzindo o volume e a atividade enzimática do suco pancreático, o que permite a cicatrização de fístulas e a resolução da ascite. Essa é a base racional para o uso do octreotide como primeira linha no manejo conservador.
É fundamental distinguir a ascite pancreática da ascite cirrótica, que é a causa mais comum de ascite (cerca de 85% dos casos). Na cirrose, o GASA é ≥ 1,1 g/dL e o tratamento se baseia em restrição de sódio e diuréticos (espironolactona e furosemida). Já na ascite pancreática, o GASA é < 1,1 g/dL e o uso de diuréticos não é a terapia principal, pois o problema não é a retenção de sódio, mas sim o vazamento de enzimas. A confusão entre essas duas entidades é a principal pegadinha da questão, levando o candidato a escolher a alternativa A (furosemida/espironolactona), que é o tratamento da ascite cirrótica, não da pancreática.
A aprotinina é um inibidor de protease que foi estudada no passado para pancreatite aguda, mas não demonstrou benefício e não é utilizada na prática clínica atual. A l-ornitina é um aminoácido usado em alguns contextos de encefalopatia hepática, não tendo papel no tratamento da ascite pancreática. O ácido etacrínico é um diurético de alça, com mecanismo semelhante à furosemida, e, portanto, também não é a conduta conservadora inicial para ascite pancreática.
Guarde a distinção crucial: ascite com GASA ≥ 1,1 (hipertensão portal) → diuréticos; ascite com GASA < 1,1 e amilase elevada (pancreática) → octreotide e repouso pancreático. É exatamente nessa fronteira que as alternativas se dividem.
A combinação de furosemida e espironolactona é o tratamento de primeira linha para a ascite cirrótica (GASA ≥ 1,1 g/dL), não para a ascite pancreática. Na ascite pancreática, o mecanismo fisiopatológico é o extravasamento de enzimas, e não a retenção de sódio e água secundária à hipertensão portal. O uso de diuréticos pode até ser um adjuvante, mas não é o início da conduta conservadora específica.
O ácido etacrínico é um diurético de alça, com mecanismo de ação semelhante à furosemida (inibição do cotransportador Na+-K+-2Cl- na alça de Henle). Assim como a alternativa A, ele trata a retenção de sódio e água, típica da ascite cirrótica, e não a causa da ascite pancreática, que é a secreção enzimática. Não há papel para o ácido etacrínico como conduta conservadora inicial na ascite pancreática.
A aprotinina é um inibidor de protease (antifibrinolítico) que foi avaliado no passado para o tratamento da pancreatite aguda, na tentativa de inibir a cascata enzimática. No entanto, estudos clínicos não demonstraram benefício significativo, e a droga não faz parte do arsenal terapêutico atual para pancreatite ou ascite pancreática. O tratamento conservador moderno não utiliza aprotinina.
A l-ornitina (ou ornitina) é um aminoácido utilizado em alguns protocolos para o tratamento da encefalopatia hepática, como parte da terapia de suporte (junto com a L-arginina, por exemplo). Não há qualquer indicação para o uso de l-ornitina no tratamento da ascite pancreática. Essa alternativa é um distrator, explorando a associação do paciente etilista com doença hepática, mas a condição em questão é pancreática.
O octreotide é um análogo sintético da somatostatina, com meia-vida mais longa e administração subcutânea ou endovenosa. Ele atua inibindo a secreção exócrina do pâncreas (reduzindo a produção de enzimas e o volume do suco pancreático) e também a secreção endócrina (insulina, glucagon). Essa inibição é o pilar do tratamento conservador da ascite pancreática, pois reduz o estímulo para a fístula e permite a resolução espontânea do extravasamento. É a medicação correta para iniciar a conduta conservadora.
A banca explora a confusão entre ascite cirrótica e ascite pancreática. O paciente é etilista, o que sugere cirrose, mas o líquido é exsudativo com amilase > 1.000 U/L, o que define ascite pancreática. O candidato que associa "álcool + ascite" automaticamente à cirrose escolhe a alternativa A (diuréticos), mas o tratamento correto para a ascite pancreática é o octreotide, que reduz a secreção pancreática. Fique atento ao GASA e à amilase do líquido ascítico para diferenciar as duas condições.
Para diferenciar as causas de ascite, use o GASA (gradiente de albumina soro-ascite) e a amilase do líquido. GASA ≥ 1,1 g/dL indica hipertensão portal (cirrose, ICC, Budd-Chiari) → tratar com diuréticos. GASA < 1,1 g/dL indica causas não-portais (pancreática, neoplásica, tuberculose) → investigar amilase, citologia e cultura. Na dúvida, monte uma tabela mental:
Critério | Ascite Cirrótica | Ascite Pancreática |
|---|---|---|
GASA | ≥ 1,1 g/dL | < 1,1 g/dL |
Amilase no líquido | Normal | > 1.000 U/L |
Aspecto | Citrino, translúcido | Hemorrágico, turvo |
Tratamento inicial | Diuréticos (espironolactona + furosemida) | Octreotide + repouso pancreático |
Gabarito: letra E
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