Questão de Medicina — Gastroenterologia — VUNESP 2025
Medicina›Gastroenterologia
Código
vu113180
Banca
VUNESP
Órgão
UNIFESP
Ano
2025
Nível
Superior
Cargo
Médico - Área: Gastroenterologia Pediátrica
Lactente, nascido prematuro com 35 semanas por pré-eclâmpsia, teve alta no terceiro dia de vida com a mãe. Recebeu leite materno até 2 meses de vida. Nasceu com 2.100 gramas. Na consulta de dois meses, estava com 2.800 gramas e fezes líquidas mais de 10 vezes ao dia, algumas com raias de sangue. Vinha chorando muito para mamar nos últimos dez dias. A mãe foi orientada a fazer dieta de exclusão de leite e ser reavaliada no período de 15 a 30 dias. Com 75 dias de vida, apresentou quadro de vômitos. Consultou uma unidade de pronto atendimento, onde foi prescrito sulfametoxazol-trimetropin e complemento ao leite materno com fórmula infantil sem lactose. Agora, com 3 meses de idade, foi encaminhado ao ambulatório de gastroenterologia pediátrica. Já não recebe mais leite materno. Peso nessa consulta: 3.080 gramas.Qual a hipótese diagnóstica e o tratamento de escolha nessa consulta dos 3 meses?
AAlergia à proteína do leite de vaca IgE mediada; fórmula extensamente hidrolisada.
BAlergia à proteína do leite de vaca não IgE mediada; fórmula de aminoácidos.
CIntolerância secundária à lactose por colite que não respondeu a sulfametoxazol-trimetropina; metronidazol.
DIntolerância secundária à lactose por gastroenterite aguda viral; Lactobacilo reuteri.
EAlergia à proteína do leite de vaca; fórmula isolada de soja.
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GabaritoB — Alergia à proteína do leite de vaca não IgE mediada; fórmula de aminoácidos.
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Alergia à proteína do leite de vaca (APLV) no lactente
Gabarito: letra B. O quadro clínico — diarreia com raias de sangue, choro ao mamar, baixo ganho ponderal e vômitos — é típico de alergia à proteína do leite de vaca (APLV) na forma não IgE mediada, e o tratamento de escolha, quando há falha da fórmula extensamente hidrolisada ou quadro grave, é a fórmula de aminoácidos. A alternativa B é a única que associa corretamente o fenótipo clínico (não IgE mediada) à conduta adequada.
A APLV é a alergia alimentar mais comum na infância, com pico de incidência no primeiro ano de vida. Diferentemente da intolerância à lactose (que é um defeito enzimático, não imunológico), a APLV é uma reação do sistema imunológico às proteínas do leite de vaca (principalmente beta-lactoglobulina e caseína). Ela se divide em três formas principais: IgE mediada (sintomas imediatos, como urticária, angioedema, vômitos e anafilaxia), não IgE mediada (sintomas tardios, predominantemente gastrointestinais, como diarreia, sangue nas fezes, cólicas, vômitos e baixo ganho ponderal) e mista (como a esofagite eosinofílica). O caso descrito — lactente com diarreia sanguinolenta, choro ao mamar e ganho ponderal insuficiente — é o protótipo da forma não IgE mediada, também chamada de proctocolite alérgica induzida por proteína alimentar.
O diagnóstico é essencialmente clínico, baseado na história de exposição à proteína do leite de vaca (via leite materno, quando a mãe ingere laticínios, ou via fórmula infantil) e na melhora após a exclusão da proteína. No caso, a mãe foi orientada a fazer dieta de exclusão de leite, mas o lactente continuou recebendo fórmula infantil (inclusive sem lactose), o que não resolve o problema, pois a fórmula sem lactose ainda contém proteína do leite de vaca. A persistência dos sintomas e a piora com vômitos indicam falha da primeira linha de tratamento.
O tratamento de escolha para APLV não IgE mediada é a exclusão total da proteína do leite de vaca da dieta. No lactente em aleitamento materno, a mãe deve excluir laticínios da dieta. No lactente em uso de fórmula, a primeira opção é a fórmula extensamente hidrolisada (FEH), na qual as proteínas são quebradas em peptídeos menores, reduzindo a alergenicidade. Porém, cerca de 5-10% dos lactentes não toleram nem a FEH, necessitando de fórmula de aminoácidos (FAA), que é isenta de proteínas alergênicas. No caso, o lactente já recebeu fórmula sem lactose (que não é adequada para APLV) e não melhorou; além disso, apresentou vômitos, sugerindo envolvimento mais proximal do trato gastrointestinal. Nesse cenário, a conduta mais adequada é a fórmula de aminoácidos, que é a opção mais segura e eficaz para os casos graves ou refratários.
A alternativa A (fórmula extensamente hidrolisada) seria a primeira escolha em um caso típico de APLV não IgE mediada, mas aqui já houve falha com fórmula sem lactose (que não é o mesmo que FEH, mas indica que a criança não está melhorando com a exclusão simples) e o quadro evoluiu com vômitos, sugerindo necessidade de fórmula de aminoácidos. A alternativa B é a mais correta porque associa o diagnóstico correto (não IgE mediada) ao tratamento mais adequado para o caso apresentado.
NÃO CAIA NESSA!
A banca explora a confusão entre alergia e intolerância. A intolerância à lactose é um defeito enzimático (deficiência de lactase) que causa diarreia osmótica, mas não causa sangue nas fezes nem é tratada com exclusão de proteína do leite. A presença de raias de sangue é o dado-chave que aponta para APLV (proctocolite alérgica). Além disso, a fórmula sem lactose não é o tratamento da APLV, pois ainda contém a proteína alergênica.
APLV no lactente
1Formas
IgE mediada
Sintomas imediatos
Urticária, anafilaxia
Não IgE mediada
Sintomas tardios
Diarreia com sangue, vômitos
Mista
Esofagite eosinofílica
2Diagnóstico
Clínico
Melhora com exclusão da proteína
3Tratamento
Exclusão total da proteína
1ª linha: fórmula extensamente hidrolisada
Falha ou grave: fórmula de aminoácidos
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Alternativa A — ❌ Incorreta
A APLV não IgE mediada é o diagnóstico correto, mas a fórmula extensamente hidrolisada (FEH) é a primeira linha de tratamento, não a de escolha neste caso. O lactente já apresentou falha com fórmula sem lactose (que não é FEH) e evoluiu com vômitos, indicando quadro mais grave ou refratário, no qual a FEH pode não ser suficiente. A alternativa erra ao indicar FEH como tratamento de escolha na consulta dos 3 meses, quando a conduta mais adequada é a fórmula de aminoácidos.
Alternativa B — ✅ Correta ⟵ GABARITO
A alternativa associa corretamente o diagnóstico de APLV não IgE mediada (proctocolite alérgica) ao tratamento com fórmula de aminoácidos. O quadro clínico — diarreia com sangue, choro ao mamar, baixo ganho ponderal e vômitos — é típico da forma não IgE mediada, e a falha com fórmula sem lactose (que não é o tratamento adequado) justifica a indicação de fórmula de aminoácidos, que é isenta de proteínas alergênicas e indicada nos casos graves ou refratários à FEH.
Alternativa C — ❌ Incorreta
A alternativa sugere intolerância secundária à lactose por colite e trata com metronidazol. A intolerância à lactose não causa sangue nas fezes, e o metronidazol é usado para infecções por protozoários ou bactérias anaeróbias, não para alergia alimentar. O quadro é de APLV, não de intolerância à lactose, e o tratamento não envolve antibiótico.
Alternativa D — ❌ Incorreta
A alternativa sugere intolerância secundária à lactose por gastroenterite aguda viral e trata com Lactobacilo reuteri. A gastroenterite viral pode causar diarreia, mas não é o quadro predominante aqui (diarreia crônica com sangue, baixo ganho ponderal). O Lactobacilo reuteri é um probiótico que pode ajudar em cólicas, mas não trata APLV. O diagnóstico correto é APLV, não intolerância à lactose.
Alternativa E — ❌ Incorreta
A alternativa sugere APLV e trata com fórmula isolada de soja. A fórmula de soja não é recomendada como primeira linha para APLV, especialmente em lactentes com menos de 6 meses, devido ao risco de alergia cruzada (cerca de 10-14% dos lactentes com APLV também são alérgicos à soja) e ao conteúdo de fitatos e isoflavonas. Além disso, a alternativa não especifica o tipo de APLV (IgE ou não IgE), o que é importante para a conduta.