Questão de Medicina — Genética Médica — VUNESP 2025
Medicina›Genética Médica
Código
vu113193
Banca
VUNESP
Órgão
UNIFESP
Ano
2025
Nível
Superior
Cargo
Médico - Área: Genética Médica
Uma criança de 12 anos foi encaminhada ao ambulatório de genética clínica devido à ausência de caracteres sexuais secundários e baixa estatura. O cariótipo revelou 46,XY, e exames de imagem mostraram gônadas não descidas e útero rudimentar. A dosagem hormonal indicou níveis elevados de gonadotrofinas, com testosterona sérica abaixo do normal. Sequenciamento genético revelou uma mutação patogênica no gene do fator esteroidogênico 1 (ou SF1).Considerando o diagnóstico de Disgenesia Gonadal XY (DGSXY), qual seria a explicação mais provável para o quadro clínico observado?
AMosaicismo gonossômico.
BMutação no gene SRY.
CDisfunção do eixo hipotálamo-hipófise-gônada devido à mutação no gene NR5A1.
DResistência androgênica devido à mutação no receptor de andrógenos (AR).
EDeleção completa do braço curto do cromossomo Y.
Revelar gabarito e comentário▾
GabaritoC — Disfunção do eixo hipotálamo-hipófise-gônada devido à mutação no gene NR5A1.
Comentário gerado por IA. É um apoio ao estudo, ancorado em fontes, mas pode conter imprecisões — confira sempre na fonte oficial (lei, súmula, edital e gabarito da banca). Encontrou um erro? Use “Reportar”.
Disgenesia Gonadal XY (DGSXY) e o gene SF1/NR5A1
Gabarito: letra C. A mutação patogênica no gene do fator esteroidogênico 1 (SF1), também conhecido como NR5A1, compromete a diferenciação gonadal e a esteroidogênese, resultando em disgenesia gonadal XY com gônadas não descidas, útero rudimentar, hipogonadismo hipergonadotrófico (FSH/LH elevados, testosterona baixa) e baixa estatura. As demais alternativas descrevem mecanismos distintos que não se encaixam no quadro clínico e hormonal apresentado.
A disgenesia gonadal XY (DGSXY) é um distúrbio do desenvolvimento sexual (DDS) caracterizado por desenvolvimento incompleto ou anormal das gônadas em indivíduos com cariótipo 46,XY. As gônadas disgenéticas (em fita) não produzem testosterona nem hormônio antimülleriano (AMH) em quantidade suficiente, levando a um fenótipo variável — desde genitália externa feminina até ambígua — e à persistência de estruturas müllerianas (útero, trompas), pois a regressão destas depende do AMH produzido pelas células de Sertoli fetais. No caso descrito, a presença de útero rudimentar e gônadas não descidas confirma a falha na ação do AMH e da testosterona durante a embriogênese.
O gene NR5A1 codifica o fator esteroidogênico 1 (SF1), um fator de transcrição nuclear essencial para o desenvolvimento gonadal, a esteroidogênese adrenal e gonadal, e a função do eixo hipotálamo-hipófise-gônada. Mutações patogênicas em NR5A1 causam um espectro de fenótipos, incluindo DGSXY, insuficiência adrenal primária (em alguns casos), e hipogonadismo hipergonadotrófico. No paciente, a testosterona baixa com gonadotrofinas elevadas indica falência gonadal primária (hipergonadotrófico), e não um defeito central (hipogonadotrófico), o que direciona o diagnóstico para a gônada disgenética.
A baixa estatura pode ser consequência da deficiência estrogênica (que afeta o fechamento epifisário) e/ou de deficiência de GH associada, já que SF1 também atua no desenvolvimento hipofisário. O diagnóstico é confirmado por sequenciamento genético, como no caso, e o tratamento envolve reposição hormonal (estrogênios, progestágenos se houver útero) e gonadectomia profilática devido ao risco de malignização (gonadoblastoma/disgerminoma) em gônadas disgenéticas com cromossomo Y.
A pegadinha central desta questão é distinguir a DGSXY por mutação em NR5A1 (que afeta a gônada em si) de outras causas de DDS 46,XY, como mutações no SRY (que impedem a determinação testicular), resistência androgênica (que não cursa com útero, pois o AMH é normal) e mosaicismo gonossômico (que envolveria linhagens celulares diferentes). O quadro hormonal (FSH/LH altos, testosterona baixa) e a presença de útero são a chave para diferenciar essas entidades.
Disgenesia gonadal XY (46,XY)
1Causas
Mutação SRY (determinação testicular)
Mosaicismo 45,X/46,XY
Deleção Yp (perda do SRY)
Resistência androgênica (AR)
Mutação NR5A1/SF1 (gabarito)
2Mecanismo do SF1
Diferenciação gonadal
Esteroidogênese adrenal/gonadal
Eixo hipotálamo-hipófise-gônada
3Quadro clínico
Gônadas em fita (não descidas)
Útero rudimentar (falha do AMH)
Hipogonadismo hipergonadotrófico
FSH/LH ↑, testosterona ↓
Baixa estatura
LEVEL · soulevel.com.br
Alternativa A — ❌ Incorreta
O mosaicismo gonossômico (ex.: 45,X/46,XY) pode causar DGSXY, mas o enunciado afirma que o cariótipo revelou 46,XY, sem mencionar mosaicismo. Além disso, a mutação patogênica no gene SF1/NR5A1 foi identificada, o que explica diretamente o quadro. O mosaicismo seria uma hipótese se o cariótipo mostrasse duas linhagens celulares, o que não é o caso.
Alternativa B — ❌ Incorreta
Mutações no gene SRY (localizado no cromossomo Y) são uma causa clássica de DGSXY, pois o SRY é o principal determinante da diferenciação testicular. No entanto, o sequenciamento genético revelou mutação no gene SF1/NR5A1, não no SRY. A alternativa tenta confundir o candidato com uma causa mais conhecida de DGSXY, mas o dado do enunciado aponta especificamente para o NR5A1.
Alternativa C — ✅ Correta ⟵ GABARITO
A mutação no gene NR5A1 (SF1) é exatamente o que foi identificado no sequenciamento. O SF1 é um fator de transcrição crucial para o desenvolvimento gonadal e a esteroidogênese. Sua disfunção leva à disgenesia gonadal XY, com gônadas não descidas, útero rudimentar (por falha na produção de AMH), hipogonadismo hipergonadotrófico (FSH/LH elevados, testosterona baixa) e baixa estatura. A alternativa descreve corretamente o mecanismo fisiopatológico.
Alternativa D — ❌ Incorreta
A resistência androgênica (síndrome de insensibilidade aos andrógenos, SIA) é causada por mutações no gene do receptor de andrógenos (AR), localizado no cromossomo X. Nessa condição, o cariótipo é 46,XY, mas há insensibilidade periférica à testosterona, resultando em fenótipo feminino, ausência de útero (pois o AMH é produzido normalmente e regride os ductos müllerianos) e testosterona sérica normal ou elevada. O quadro descrito (útero rudimentar, testosterona baixa) não é compatível com SIA.
Alternativa E — ❌ Incorreta
A deleção completa do braço curto do cromossomo Y (Yp-) incluiria a perda do gene SRY, levando a DGSXY. No entanto, o sequenciamento identificou mutação pontual no NR5A1, e não uma deleção cromossômica. Além disso, uma deleção completa do Yp seria detectada no cariótipo, que mostrou 46,XY aparentemente normal (a menos que fosse uma microdeleção, mas o enunciado fala em mutação no SF1). A alternativa é um distrator que mistura a causa mais comum (SRY) com um mecanismo mais amplo.
Gabarito: letra C — a mutação no gene NR5A1 (SF1) é a explicação mais provável para o quadro de disgenesia gonadal XY com hipogonadismo hipergonadotrófico e útero rudimentar.