Questão de Medicina — Genética Médica — VUNESP 2025
Medicina›Genética Médica
Código
vu113200
Banca
VUNESP
Órgão
UNIFESP
Ano
2025
Nível
Superior
Cargo
Médico - Área: Genética Médica
Um homem de 25 anos apresenta episódios recorrentes de fraqueza muscular após exercícios físicos intensos, acompanhados de câimbras e mioglobinúria. Os sintomas iniciaram na adolescência e tornaram-se progressivamente mais frequentes. Durante a investigação, foi identificado um aumento significativo de creatina quinase (CK) sérica nos episódios agudos, enquanto os exames entre os ataques estavam normais. A biópsia muscular revelou a ausência de depósitos de glicogênio após estímulo físico. O sequenciamento genético mostrou uma mutação no gene PYGM.A partir do exposto, qual é a base bioquímica mais provável para a condição apresentada?
AAumento da produção de lactato durante o exercício, devido a defeito na via glicolítica.
BDeficiência na produção de ATP por disfunção mitocondrial, levando a acúmulo de ácido pirúvico.
CAcúmulo de glicogênio muscular e redução de glicose plasmática, devido à deficiência de glicogênio sintase.
DIncapacidade de mobilizar glicogênio muscular durante o exercício, devido à deficiência de mioglicogenofosforilase.
EFalha no transporte de glicose para dentro das células musculares, devido à mutação no gene GLUT4.
Revelar gabarito e comentário▾
GabaritoD — Incapacidade de mobilizar glicogênio muscular durante o exercício, devido à deficiência de mioglicogenofosforilase.
Comentário gerado por IA. É um apoio ao estudo, ancorado em fontes, mas pode conter imprecisões — confira sempre na fonte oficial (lei, súmula, edital e gabarito da banca). Encontrou um erro? Use “Reportar”.
Doença de McArdle: base bioquímica da glicogenose muscular tipo V
Gabarito: letra D. A mutação no gene PYGM, que codifica a miofosforilase (mioglicogenofosforilase), impede a quebra do glicogênio muscular em glicose-1-fosfato durante o exercício, comprometendo a produção de ATP pela via glicolítica — exatamente o que a alternativa D descreve. O quadro clássico de intolerância ao exercício, câimbras, mioglobinúria e CK elevada nos episódios agudos, com biópsia mostrando acúmulo de glicogênio (e não ausência), fecha o diagnóstico de glicogenose tipo V.
A doença de McArdle é uma glicogenose muscular causada pela deficiência da enzima miofosforilase (também chamada de glicogênio fosforilase muscular), codificada pelo gene PYGM, localizado no cromossomo 11q13, com herança autossômica recessiva. Essa enzima é a responsável pela primeira etapa da glicogenólise: a quebra das ligações α-1,4 do glicogênio, liberando glicose-1-fosfato, que será convertida em glicose-6-fosfato e seguirá para a via glicolítica para gerar ATP. Sem essa enzima, o músculo não consegue mobilizar suas reservas de glicogênio durante o exercício, especialmente em atividades de alta intensidade e curta duração, que dependem criticamente da glicogenólise anaeróbica.
O quadro clínico típico começa na adolescência ou na idade adulta jovem, com episódios de intolerância ao exercício, câimbras musculares dolorosas, fadiga precoce e mioglobinúria (urina escura) após esforço intenso. A CK sérica eleva-se significativamente durante os episódios agudos, refletindo lesão muscular (rabdomiólise), e normaliza entre os ataques. Um achado clássico é o fenômeno do segundo fôlego (second wind): o paciente melhora após alguns minutos de exercício leve, pois o músculo passa a utilizar ácidos graxos e glicose sanguínea como fonte de energia alternativa. A biópsia muscular mostra acúmulo subsarcolemal de glicogênio (PAS-positivo), e não ausência de depósitos — o enunciado, ao afirmar "ausência de depósitos de glicogênio após estímulo físico", provavelmente se refere à incapacidade de consumir o glicogênio armazenado, que permanece acumulado.
A confusão mais comum neste tema é entre as glicogenoses musculares e outras miopatias metabólicas. A doença de McArdle (tipo V) é causada pela deficiência de miofosforilase; a doença de Tarui (tipo VII) pela deficiência de fosfofrutoquinase (PFKM); a doença de Andersen (tipo IV) pela deficiência da enzima ramificadora (GBE1); e a doença de Pompe (tipo II) pela deficiência de α-glicosidase ácida (GAA). Todas cursam com intolerância ao exercício e acúmulo de glicogênio, mas diferem na enzima deficiente e em características clínicas específicas. A distinção é feita pela dosagem da atividade enzimática no músculo e pelo sequenciamento genético.
A pegadinha da banca está em inverter o achado da biópsia: na doença de McArdle, o glicogênio se acumula no músculo (não há ausência de depósitos), pois a enzima que o degrada está deficiente. O enunciado diz "ausência de depósitos de glicogênio após estímulo físico" — isso pode ser interpretado como a ausência de consumo do glicogênio, ou seja, o glicogênio permanece acumulado mesmo após o exercício, o que é consistente com o diagnóstico. A alternativa D captura exatamente essa fisiopatologia: a incapacidade de mobilizar o glicogênio muscular durante o exercício.
Guarde a fronteira entre as glicogenoses musculares e as demais miopatias metabólicas: o que define a doença de McArdle é a deficiência da miofosforilase (PYGM), que impede a glicogenólise muscular. É nesse ponto que as alternativas se dividem — as incorretas trocam a enzima, o mecanismo ou o achado histológico.
Doença de McArdle (glicogenose tipo V)
1Defeito enzimático
Deficiência de miofosforilase (PYGM)
Herança autossômica recessiva
2Fisiopatologia
Não mobiliza glicogênio muscular
Sem ATP pela via glicolítica
Lactato diminuído no exercício
3Quadro clínico
Intolerância ao exercício
Câimbras e mioglobinúria
CK elevada nos episódios
Fenômeno do segundo fôlego
4Biópsia muscular
Acúmulo de glicogênio (PAS+)
5Diagnóstico
Atividade enzimática reduzida
Sequenciamento do gene PYGM
LEVEL · soulevel.com.br
Alternativa A — ❌ Incorreta
Afirma que há aumento da produção de lactato durante o exercício devido a defeito na via glicolítica. Na doença de McArdle, o defeito está na glicogenólise (quebra do glicogênio), não na via glicolítica em si. Como o glicogênio não é mobilizado, a produção de lactato durante o exercício está diminuída, não aumentada — o músculo não consegue gerar piruvato a partir do glicogênio para ser convertido em lactato. A alternativa inverte o achado metabólico.
Alternativa B — ❌ Incorreta
Atribui o quadro a uma disfunção mitocondrial com acúmulo de ácido pirúvico. A doença de McArdle é uma glicogenose, não uma doença mitocondrial. Nas doenças mitocondriais (como MELAS ou MERRF), há acúmulo de lactato e achados como fibras vermelhas rotas na biópsia, o que não se aplica aqui. O gene PYGM não está relacionado à fosforilação oxidativa, e o acúmulo de piruvato não é o mecanismo da doença.
Alternativa C — ❌ Incorreta
Menciona acúmulo de glicogênio muscular (correto) mas atribui a deficiência à glicogênio sintase, que é a enzima responsável pela síntese de glicogênio, não pela sua degradação. A deficiência de glicogênio sintase causaria redução do glicogênio muscular, não acúmulo. Além disso, a redução de glicose plasmática não é característica da doença de McArdle, que cursa com glicemia normal. A alternativa mistura enzimas de vias opostas.
Alternativa D — ✅ Correta ⟵ GABARITO
Descreve com precisão a fisiopatologia da doença de McArdle: a deficiência de mioglicogenofosforilase (miofosforilase, codificada pelo gene PYGM) impede a mobilização do glicogênio muscular durante o exercício. Sem a quebra do glicogênio em glicose-1-fosfato, o músculo não consegue gerar ATP pela via glicolítica anaeróbica, levando à intolerância ao exercício, câimbras, mioglobinúria e elevação da CK. A biópsia mostra acúmulo de glicogênio, consistente com o defeito enzimático.
Alternativa E — ❌ Incorreta
Atribui o quadro a uma falha no transporte de glicose para dentro das células musculares, com mutação no gene GLUT4. O GLUT4 é o transportador de glicose estimulado por insulina, e sua deficiência causaria hiperglicemia pós-prandial e intolerância à glicose, não intolerância ao exercício com mioglobinúria. Além disso, o gene envolvido na doença de McArdle é o PYGM, não o GLUT4. A alternativa troca o mecanismo e o gene.
A doença de McArdle é a glicogenose muscular mais comum, e a chave para o diagnóstico está na tríade: intolerância ao exercício, mioglobinúria e CK elevada nos episódios, com confirmação pela atividade enzimática reduzida da miofosforilase no músculo e pelo sequenciamento do gene PYGM. O fenômeno do segundo fôlego é um marcador clínico valioso.