Questão de Medicina — Genética Médica — VUNESP 2025
Medicina›Genética Médica
Código
vu113201
Banca
VUNESP
Órgão
UNIFESP
Ano
2025
Nível
Superior
Cargo
Médico - Área: Genética Médica
Uma mulher de 32 anos procura atendimento devido a cansaço crônico, fraqueza muscular progressiva e dificuldades auditivas. Durante a investigação clínica, é observado um padrão de lactato elevado tanto no sangue, quanto na análise do líquido cefalorraquidiano. A paciente relata que sua mãe apresentou sintomas semelhantes em idade mais avançada, enquanto outros familiares maternos também apresentam quadros leves de miopatia. Após exames genéticos, foi identificada uma mutação no DNA mitocondrial (DNAmt).Com base nos dados apresentados, qual é a explicação mais adequada para o padrão de herança mitocondrial observado nessa família?
ASegue um padrão de herança autossômica dominante, com penetrância incompleta.
BFoi herdada do pai e apresenta expressividade variável.
CÉ de novo e não tem risco de recorrência na descendência.
DApresenta padrão de herança ligado ao cromossomo X.
EApresenta padrão de herança materna e é influenciada pelo fenômeno de heteroplasmia.
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GabaritoE — Apresenta padrão de herança materna e é influenciada pelo fenômeno de heteroplasmia.
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Herança mitocondrial: padrão materno e heteroplasmia
Gabarito: letra E. A paciente apresenta uma mutação no DNA mitocondrial (DNAmt), que é herdado exclusivamente da mãe, e o fenótipo é modulado pela heteroplasmia — a coexistência de mitocôndrias normais e mutadas na mesma célula. Essa é a explicação mais adequada para o padrão observado na família, em que a mãe e outros familiares maternos são afetados.
A herança mitocondrial é um dos padrões de transmissão genética mais distintos e, ao mesmo tempo, um dos mais mal compreendidos. Diferentemente dos genes nucleares, que seguem as leis de Mendel e são herdados de ambos os pais, o DNA mitocondrial é transmitido quase exclusivamente pela linhagem materna. Isso ocorre porque, na fertilização, o espermatozoide contribui apenas com o núcleo — suas mitocôndrias, localizadas na peça intermediária, são marcadas para degradação e não entram no óvulo. Assim, todas as mitocôndrias de um indivíduo, e portanto todo o DNAmt, vêm do óvulo da mãe. Essa é a razão pela qual uma mutação no DNAmt é transmitida de uma mãe afetada para todos os seus filhos, mas apenas as filhas a transmitirão para a próxima geração — os filhos homens não passam o DNAmt adiante.
O segundo conceito central é a heteroplasmia. Cada célula contém centenas a milhares de mitocôndrias, e cada mitocôndria pode conter várias cópias do DNAmt. Quando uma mutação surge, ela pode estar presente em apenas algumas dessas cópias — essa mistura de DNAmt normal (selvagem) e mutado em uma mesma célula ou tecido é chamada de heteroplasmia. A proporção de DNAmt mutado varia entre células, tecidos e indivíduos, e é essa variação que explica a expressividade variável e a penetrância incompleta observadas nas doenças mitocondriais. O limiar de expressão é o ponto em que a quantidade de DNAmt mutado é suficiente para comprometer a produção de energia celular (fosforilação oxidativa) e causar sintomas. Abaixo desse limiar, a célula pode funcionar normalmente; acima dele, a doença se manifesta. Como o limiar varia entre tecidos — tecidos com alta demanda energética, como músculo, cérebro, coração e ouvido interno, são mais vulneráveis —, os sintomas são frequentemente multissistêmicos e de gravidade variável, como no caso da paciente, que apresenta miopatia, cansaço e dificuldades auditivas.
O quadro clínico descrito — cansaço crônico, fraqueza muscular progressiva, dificuldades auditivas e lactato elevado no sangue e no LCR — é altamente sugestivo de uma doença mitocondrial. O lactato elevado, especialmente no LCR, reflete o comprometimento do metabolismo oxidativo, que desvia o piruvato para a produção de lactato. A história familiar, com a mãe afetada e outros familiares maternos com miopatia leve, reforça o padrão de herança materna. A mutação no DNAmt confirma o diagnóstico. A heteroplasmia explica por que a mãe apresentou sintomas em idade mais avançada e com menor gravidade, enquanto a filha tem manifestações mais precoces e acentuadas — a proporção de DNAmt mutado pode ter sido diferente entre elas, ou o limiar de expressão foi ultrapassado em tecidos diferentes.
A distinção crucial que esta questão explora é entre a herança mitocondrial e os padrões de herança mendeliana. A herança autossômica dominante, ligada ao X e autossômica recessiva envolvem genes nucleares, que seguem as leis de Mendel. A herança mitocondrial, por sua vez, é um padrão não mendeliano, com características próprias: transmissão exclusivamente materna, ausência de transmissão paterna, heteroplasmia e limiar de expressão. A banca testa exatamente essa fronteira: o aluno que confunde a herança mitocondrial com um padrão mendeliano, ou que não conhece o papel da heteroplasmia, erra a questão. Guarde essa distinção: é ela que separa as alternativas.
Herança mitocondrial: Transmissão (Exclusivamente materna (óvulo), Pai não contribui); Heteroplasmia (Mistura de DNAmt normal e mutado, Limiar de expressão, Expressividade variável); Características clínicas (Multissistêmica, Tecidos de alta demanda (músculo, cérebro, coração), Lactato elevado (sangue e LCR))
Alternativa A — ❌ Incorreta
A herança mitocondrial não segue um padrão autossômico dominante. Embora a doença possa parecer dominante por afetar múltiplas gerações, a transmissão é exclusivamente materna, e não há envolvimento de cromossomos autossômicos. A penetrância incompleta e a expressividade variável são consequências da heteroplasmia, não de um mecanismo autossômico dominante. A alternativa confunde o padrão de herança mitocondrial com um padrão mendeliano.
Alternativa B — ❌ Incorreta
O DNA mitocondrial é herdado exclusivamente da mãe; o pai não contribui com mitocôndrias para a prole. Portanto, a mutação não foi herdada do pai. A expressividade variável é uma característica real das doenças mitocondriais, mas é explicada pela heteroplasmia, não pela herança paterna.
Alternativa C — ❌ Incorreta
A mutação não é de novo (nova) — ela está presente na mãe e em outros familiares maternos, indicando transmissão familiar. Além disso, há risco de recorrência na descendência: como a herança é materna, todos os filhos de uma mãe afetada herdam o DNAmt mutado, embora a expressão clínica varie conforme a heteroplasmia.
Alternativa D — ❌ Incorreta
A herança ligada ao cromossomo X envolve genes localizados no cromossomo X, que seguem padrões mendelianos específicos (como a transmissão de pai para filhas, mas não para filhos). A mutação em questão está no DNA mitocondrial, que não é cromossômico e não segue esse padrão. A transmissão materna do DNAmt é diferente da herança ligada ao X.
Alternativa E — ✅ Correta ⟵ GABARITO
A alternativa descreve corretamente os dois pilares da herança mitocondrial: a transmissão materna (o DNAmt vem do óvulo) e a influência da heteroplasmia (a mistura de DNAmt normal e mutado, que modula a expressão clínica). A história familiar — mãe afetada e familiares maternos com miopatia — é o padrão clássico de herança materna, e a heteroplasmia explica a variabilidade de sintomas e a idade de início entre os membros da família.