Médico - Área: Hematologia e Hemoterapia Pediátrica
Uma paciente de 15 anos, com queixa de sangramento menstrual abundante desde a menarca, foi diagnosticada com anemia. Exames laboratoriais mostram TAP de 99% (normal >/= 70%), PTT com relação de 1,1 (normal até 1,3), atividade do fator de Von Willebrand (FVW) de 104% (>/= 60%) e atividade do fator VIII de 66% (normal >/= 70%).Considerando os diagnósticos diferenciais e o próximo passo de investigação, assinale a alternativa correta.
AA história de sangramento menstrual aumentado deve ser valorizada, sendo uma das apresentações mais frequentes da doença de Von Willebrand. A realização de teste da atividade do cofator da ristocetina é altamente recomendável para elucidação diagnóstica.
BDiagnóstico de hemofilia A é muito provável, e ela deve ser referenciada ao hemocentro mais próximo para iniciar tratamento.
CA história de sangramento menstrual abundante é irrelevante para a condução do caso e está contraindicada a investigação diagnóstica.
DO diagnóstico de doença de Von Willebrand está estabelecido, e não são necessários outros testes diagnósticos.
EO diagnóstico da doença de Von Willebrand está descartado visto que foi documentada deficiência do fator VIII.
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GabaritoA — A história de sangramento menstrual aumentado deve ser valorizada, sendo uma das apresentações mais frequentes da doença de Von Willebrand. A realização de teste da atividade do cofator da ristocetina é altamente recomendável para elucidação diagnóstica.
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Doença de von Willebrand: diagnóstico e investigação
Gabarito: letra A. A paciente apresenta sangramento menstrual abundante desde a menarca, o que é uma das manifestações mais comuns da doença de von Willebrand (DVW), e o fator VIII está discretamente reduzido (66%), enquanto o FVW está normal (104%). Como a DVW pode cursar com níveis normais de FVW e fator VIII, a investigação deve prosseguir com o teste da atividade do cofator da ristocetina (FVW:RCo), que é o exame funcional mais sensível para o diagnóstico. As demais alternativas apresentam erros conceituais ou condutas inadequadas.
A doença de von Willebrand é o distúrbio hemorrágico hereditário mais comum, causado por deficiência ou disfunção do fator de von Willebrand (FVW), uma proteína essencial para a adesão plaquetária ao subendotélio vascular e para a estabilização do fator VIII no plasma. Quando o FVW está baixo ou disfuncional, o fator VIII é rapidamente eliminado, resultando em declínio dos seus níveis e, se suficientemente baixo, em elevação do TTPa. No entanto, em formas leves (como a DVW tipo 1), o fator VIII pode estar apenas discretamente reduzido ou até normal, mantendo o TTPa dentro da normalidade — exatamente o cenário da paciente, que tem fator VIII de 66% e PTT com relação de 1,1.
O sangramento menstrual abundante desde a menarca é um dado clínico de extrema importância. Estudos mostram que até 20% das mulheres com sangramento vaginal intenso desde a menarca têm um distúrbio de coagulação subjacente, sendo a DVW a causa mais comum. A história de menorragia desde a menarca, hemorragia pós-parto, sangramento relacionado a cirurgia ou tratamento dentário e histórico familiar são pistas que sugerem fortemente um distúrbio hemorrágico e indicam a necessidade de avaliação hematológica. Portanto, a história não é irrelevante — ela é o ponto de partida para a investigação.
O diagnóstico da DVW é desafiador porque a doença apresenta diversos subtipos, cada um com diferentes padrões laboratoriais. Um painel típico inclui a atividade do FVW (medida pela ligação do FVW às plaquetas mediada pela ristocetina — o teste do cofator da ristocetina, FVW:RCo), o antígeno do FVW (nível quantitativo) e o fator VIII. Em pacientes com DVW tipo 1 ou 2 leve, o fator VIII pode ser suficiente para manter o TTPa normal, e a medida direta da atividade do FVW é recomendada. O teste do cofator da ristocetina é o exame funcional que avalia a capacidade do FVW de se ligar às plaquetas, sendo altamente sensível para detectar disfunções qualitativas e quantitativas do FVW.
A distinção crucial nesta questão é entre DVW e hemofilia A. A hemofilia A é um distúrbio ligado ao cromossomo X, causado por deficiência do fator VIII, que afeta predominantemente homens e se manifesta com sangramentos profundos (hemartroses, hematomas musculares). A DVW, por sua vez, é autossômica (dominante ou recessiva), afeta igualmente homens e mulheres, e se manifesta tipicamente com sangramento mucocutâneo (menorragia, epistaxe, equimoses). A paciente é do sexo feminino, tem sangramento menstrual abundante e fator VIII apenas discretamente reduzido — um quadro muito mais compatível com DVW do que com hemofilia A. Além disso, o fator VIII de 66% não é suficientemente baixo para causar hemofilia A clinicamente significativa, e a hemofilia A em mulheres é rara, exigindo herança homozigótica ou inativação do cromossomo X.
A pegadinha que a banca explora é a falsa dicotomia entre "FVW normal" e "diagnóstico descartado". Na DVW tipo 1, o FVW pode estar apenas discretamente reduzido ou até normal em algumas dosagens, e o diagnóstico não pode ser excluído com base em um único exame. Da mesma forma, a redução do fator VIII não é exclusiva da hemofilia A — na DVW, o fator VIII declina porque perde seu estabilizador (o FVW). Portanto, a presença de fator VIII baixo com FVW normal não descarta DVW; pelo contrário, reforça a necessidade de investigação adicional com testes funcionais mais sensíveis, como o FVW:RCo.
Guarde a fronteira entre DVW e hemofilia A, e entre os testes de triagem e os testes funcionais específicos: é exatamente nesses dois eixos que as alternativas se dividem.
Doença de von Willebrand (DVW)
1Distúrbio hemorrágico hereditário mais comum
2Causa: deficiência ou disfunção do FVW
3Manifestações
Sangramento mucocutâneo
Menorragia desde a menarca
Epistaxe, equimoses
4Laboratório
FVW pode estar normal (tipo 1 leve)
Fator VIII pode estar discretamente reduzido
TTPa pode estar normal
5Diagnóstico
Painel: FVW:RCo, FVW:Ag, fator VIII
FVW:RCo = teste funcional mais sensível
6vs. Hemofilia A
DVW: autossômica, homens e mulheres
Hemofilia A: ligada ao X, predominantemente homens
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Alternativa A — ✅ Correta ⟵ GABARITO
A alternativa está correta porque valoriza a história de sangramento menstrual abundante desde a menarca, que é uma das apresentações mais frequentes da DVW, e recomenda a realização do teste da atividade do cofator da ristocetina (FVW:RCo) para elucidação diagnóstica. O FVW:RCo é o teste funcional que avalia a capacidade do FVW de mediar a adesão plaquetária, sendo essencial para o diagnóstico, especialmente quando os níveis de FVW e fator VIII estão apenas discretamente alterados, como no caso da paciente.
Alternativa B — ❌ Incorreta
A alternativa erra ao afirmar que o diagnóstico de hemofilia A é "muito provável". A hemofilia A é um distúrbio ligado ao X, que afeta predominantemente homens, e se manifesta com sangramentos profundos (hemartroses, hematomas musculares). A paciente é do sexo feminino, tem sangramento mucocutâneo (menorragia) e fator VIII apenas discretamente reduzido (66%), o que não é compatível com hemofilia A clinicamente significativa. O quadro é muito mais sugestivo de DVW, que é autossômica e afeta igualmente homens e mulheres.
Alternativa C — ❌ Incorreta
A alternativa erra ao afirmar que a história de sangramento menstrual abundante é "irrelevante" e que a investigação diagnóstica está "contraindicada". Na verdade, a menorragia desde a menarca é um dado clínico de extrema importância, pois até 20% das mulheres com sangramento vaginal intenso desde a menarca têm um distúrbio de coagulação subjacente, sendo a DVW a causa mais comum. A história é o ponto de partida para a investigação, e não o contrário.
Alternativa D — ❌ Incorreta
A alternativa erra ao afirmar que o diagnóstico de DVW está "estabelecido" e que não são necessários outros testes. O diagnóstico de DVW não pode ser estabelecido com base em um único exame, especialmente quando o FVW está normal (104%) e o fator VIII está apenas discretamente reduzido (66%). A investigação deve prosseguir com testes funcionais mais sensíveis, como o FVW:RCo, para confirmar ou excluir o diagnóstico.
Alternativa E — ❌ Incorreta
A alternativa erra ao afirmar que o diagnóstico de DVW está "descartado" porque foi documentada deficiência do fator VIII. Na DVW, o fator VIII declina porque perde seu estabilizador (o FVW), e a redução do fator VIII não é exclusiva da hemofilia A. Além disso, o FVW pode estar normal em algumas dosagens, especialmente em formas leves da doença. Portanto, a presença de fator VIII baixo com FVW normal não descarta DVW; pelo contrário, reforça a necessidade de investigação adicional.
NÃO CAIA NESSA!
A banca explora a falsa dicotomia entre "FVW normal" e "diagnóstico descartado". Na DVW tipo 1, o FVW pode estar apenas discretamente reduzido ou até normal em algumas dosagens, e o diagnóstico não pode ser excluído com base em um único exame. Da mesma forma, a redução do fator VIII não é exclusiva da hemofilia A — na DVW, o fator VIII declina porque perde seu estabilizador (o FVW). Fique atento: a combinação de menorragia desde a menarca com fator VIII discretamente reduzido e FVW normal é um cenário clássico de DVW que exige investigação adicional com FVW:RCo.
PEGA ESSA DICA!
Para questões de DVW, lembre-se do painel diagnóstico completo: atividade do FVW (FVW:RCo), antígeno do FVW (FVW:Ag) e fator VIII. O FVW:RCo é o teste funcional mais sensível e deve ser solicitado quando há suspeita clínica, mesmo que os níveis de FVW e fator VIII estejam apenas discretamente alterados. Na dúvida entre DVW e hemofilia A, lembre-se: DVW é autossômica, afeta igualmente homens e mulheres, e se manifesta com sangramento mucocutâneo; hemofilia A é ligada ao X, afeta predominantemente homens, e se manifesta com sangramentos profundos.