Questão de Medicina — Cardiologia e Alterações Vasculares — VUNESP 2025
Medicina›Cardiologia e Alterações Vasculares
Código
vu113444
Banca
VUNESP
Órgão
UNIFESP
Ano
2025
Nível
Superior
Cargo
Médico - Área: Medicina de Emergência
Paciente do sexo masculino, 56 anos, com histórico de neoplasia pulmonar em tratamento paliativo, é admitido no pronto-socorro com dispneia progressiva, fadiga intensa e episódios de tontura ao se levantar. No exame físico: PA = 85 × 60 mmHg, FC = 115 bpm, pulso paradoxal presente, turgência jugular aumentada, bulhas cardíacas abafadas e extremidades frias. O ecocardiograma à beira do leito revela derrame pericárdico volumoso com sinais de colapso diastólico do ventrículo direito.A partir dos dados informados, qual é a conduta inicial indicada para esse caso?
ADiuréticos intravenosos para reduzir o volume intravascular.
BAnticoagulação plena para prevenir complicações tromboembólicas.
CPericardiocentese guiada por ecocardiografia.
DAdministração de vasopressores para estabilizar a pressão arterial.
EObservação clínica com repetição do ecocardiograma em 48 horas.
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GabaritoC — Pericardiocentese guiada por ecocardiografia.
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Tamponamento cardíaco: conduta inicial
Gabarito: letra C. O paciente apresenta tamponamento cardíaco — derrame pericárdico volumoso com colapso diastólico do ventrículo direito, hipotensão, pulso paradoxal, turgência jugular e bulhas abafadas — uma emergência potencialmente fatal que exige drenagem urgente do derrame pericárdico (pericardiocentese), preferencialmente guiada por ecocardiografia. As demais condutas (diuréticos, anticoagulação, vasopressores isolados ou observação) são inadequadas ou apenas medidas temporárias de suporte.
O tamponamento cardíaco é um choque obstrutivo: o acúmulo de líquido no espaço pericárdico comprime as câmaras cardíacas, impedindo o enchimento diastólico e reduzindo o débito cardíaco. A fisiopatologia explica os achados: com o volume cardíaco total fixo, a expansão do ventrículo direito durante a inspiração desloca o septo interventricular para a esquerda, reduzindo o volume sistólico do ventrículo esquerdo — daí o pulso paradoxal (queda da pressão arterial sistólica > 10 mmHg na inspiração). A hipotensão, a taquicardia, a turgência jugular e as bulhas abafadas (tríade de Beck) completam o quadro clássico.
O diagnóstico é confirmado pelo ecocardiograma à beira do leito, que mostra o derrame volumoso e o colapso diastólico do ventrículo direito — sinal ecocardiográfico de significância hemodinâmica. Uma vez estabelecido o diagnóstico de tamponamento com instabilidade, não há tempo para observação: a drenagem é o tratamento definitivo e deve ser realizada sem atraso. A pericardiocentese guiada por ecocardiografia é o procedimento de escolha na emergência, pois permite a punção segura e a confirmação imediata da melhora hemodinâmica.
O suporte hemodinâmico temporário (reposição volêmica cuidadosa, especialmente com PAS < 100 mmHg, e inotrópicos) pode ser feito enquanto se prepara a drenagem, mas não substitui a pericardiocentese. Diuréticos são contraindicados — reduzem a pré-carga e pioram o choque obstrutivo. Vasopressores têm utilidade limitada, pois não corrigem o problema mecânico da compressão cardíaca. Anticoagulação plena é perigosa e não tem papel no manejo agudo. A observação clínica é inaceitável diante de instabilidade hemodinâmica.
A distinção crucial que separa as alternativas é: tamponamento cardíaco com instabilidade = drenagem imediata (pericardiocentese). Medidas farmacológicas são apenas ponte para o procedimento definitivo. Guarde essa hierarquia: diagnóstico → drenagem urgente → suporte até a drenagem.
Alternativa A — ❌ Incorreta
Diuréticos intravenosos reduzem a pré-carga e o volume intravascular, o que agrava o choque obstrutivo do tamponamento. No tamponamento, o problema é a compressão externa das câmaras cardíacas; reduzir o volume circulante diminui ainda mais o enchimento ventricular e o débito cardíaco. A diretriz brasileira de insuficiência cardíaca recomenda, ao contrário, reposição cuidadosa de volume (especialmente com PAS < 100 mmHg) como suporte temporário até a drenagem.
Alternativa B — ❌ Incorreta
Anticoagulação plena não trata a causa do tamponamento e aumenta o risco de sangramento, especialmente em um paciente com neoplasia pulmonar (possível derrame neoplásico ou hemorrágico). Não há indicação de anticoagulação no manejo agudo do tamponamento cardíaco. O tratamento é mecânico (drenagem), não farmacológico.
Alternativa C — ✅ Correta ⟵ GABARITO
A pericardiocentese guiada por ecocardiografia é a conduta inicial indicada. O paciente tem tamponamento cardíaco com instabilidade hemodinâmica (PA 85×60 mmHg, taquicardia, extremidades frias) e o ecocardiograma confirma derrame volumoso com colapso diastólico do VD. A drenagem urgente do derrame é o tratamento de escolha, e a ecocardiografia guia a punção com segurança, permitindo avaliar a repercussão hemodinâmica e o local ideal de acesso.
Alternativa D — ❌ Incorreta
Vasopressores podem ser usados como suporte temporário, mas têm utilidade limitada no tamponamento, pois não corrigem o mecanismo obstrutivo — a compressão cardíaca impede o enchimento independentemente da pressão arterial. A diretriz brasileira afirma que "o suporte inotrópico e vasopressor tem utilidade limitada" e que o tratamento definitivo é a drenagem. Não é a conduta inicial isolada.
Alternativa E — ❌ Incorreta
Observação clínica com repetição do ecocardiograma em 48 horas é inaceitável diante de tamponamento cardíaco com instabilidade hemodinâmica. O tamponamento é uma emergência potencialmente fatal que exige drenagem urgente. A conduta conservadora só se aplica a derrames pericárdicos sem comprometimento hemodinâmico — não é o caso do paciente, que já apresenta sinais de choque obstrutivo.
NÃO CAIA NESSA!
A banca explora a confusão entre o manejo do derrame pericárdico estável e o do tamponamento com instabilidade. No derrame sem comprometimento hemodinâmico, a conduta pode ser conservadora; no tamponamento com hipotensão e colapso diastólico do VD, a drenagem é urgente e inadiável. O candidato que decora "derrame pericárdico = observar" erra esta questão — o gatilho é a instabilidade hemodinâmica.
PEGA ESSA DICA!
Na prova, monte o raciocínio em cascata: (1) reconheça o tamponamento pela tríade de Beck + pulso paradoxal + ecocardiograma com colapso diastólico do VD; (2) avalie a estabilidade hemodinâmica; (3) se instável, a resposta é sempre drenagem imediata (pericardiocentese guiada por eco). Diuréticos e vasopressores são distratores clássicos — o primeiro piora, o segundo não resolve.