Questão de Medicina — Gastroenterologia — VUNESP 2025
Medicina›Gastroenterologia
Código
vu113840
Banca
VUNESP
Órgão
UNIFESP
Ano
2025
Nível
Superior
Cargo
Médico - Área: Reumatologia
Na avaliação laboratorial de pacientes com doença inflamatória intestinal, com manifestações osteoarticulares, observa-se que
Ao hemograma demonstra alterações típicas da doença de Chron.
Bdiferentemente do que se pensava, a calprotectina fecal não reflete processo inflamatório agudo.
Co ANCA padrão atípico ocorre em 65% dos pacientes com colite ulcerativa.
Dquando o fator reumatoide está positivo e em título alto, o curso da doença é mais conturbado.
Eo FAN, quando presente, tem padrão de imunofluorescência quasi-homogêneo.
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GabaritoC — o ANCA padrão atípico ocorre em 65% dos pacientes com colite ulcerativa.
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Doença inflamatória intestinal: marcadores sorológicos e manifestações osteoarticulares
Gabarito: letra C. Na avaliação laboratorial de pacientes com doença inflamatória intestinal (DII) e manifestações osteoarticulares, o ANCA (anticorpo anticitoplasma de neutrófilos) com padrão atípico é encontrado em cerca de 65% dos pacientes com colite ulcerativa — é um marcador sorológico clássico, embora não seja específico nem utilizado isoladamente para o diagnóstico. As demais alternativas apresentam erros conceituais: o hemograma não tem alterações típicas da doença de Crohn, a calprotectina fecal é justamente um marcador de inflamação aguda, o fator reumatoide não tem papel prognóstico na DII e o FAN, quando presente, não tem padrão quasi-homogêneo.
A doença inflamatória intestinal engloba duas entidades crônicas: a colite ulcerativa (CU) e a doença de Crohn (DC). A CU caracteriza-se por inflamação superficial e contínua da mucosa do cólon, iniciando no reto e estendendo-se proximalmente; a DC pode acometer qualquer segmento do tubo digestivo, de forma descontínua e transmural, com risco de fístulas, abscessos e estenoses. As manifestações extraintestinais são frequentes e refletem a natureza sistêmica da doença — a mais comum é a artrite, presente em 9 a 50% dos pacientes, dividida em axial (sacroiliíte, espondilite anquilosante) e periférica (tipo 1, oligoarticular e assimétrica, que acompanha a atividade da doença; tipo 2, simétrica, que não acompanha). É nesse contexto de manifestações osteoarticulares que a questão insere a avaliação laboratorial.
Os marcadores sorológicos na DII têm valor limitado e não devem ser usados isoladamente para o diagnóstico. O ANCA é um anticorpo dirigido contra antígenos citoplasmáticos de neutrófilos; na colite ulcerativa, o padrão encontrado é o atípico (p-ANCA atípico), presente em cerca de 60-70% dos casos, enquanto na doença de Crohn a positividade é menor e o padrão é mais frequentemente o c-ANCA. Já o ASCA (anticorpo anti-Saccharomyces cerevisiae) é mais associado à doença de Crohn. A calprotectina fecal, por sua vez, é uma proteína ligadora de cálcio e zinco liberada por neutrófilos ativados — é um marcador sensível de inflamação intestinal aguda, útil para estratificar pacientes e monitorar atividade da doença, com valores elevados (>250 μg/g) indicando maior chance de progressão.
A pegadinha central da questão está em distinguir o que é verdadeiro do que é apenas plausível. O candidato pode ser tentado a aceitar a alternativa B (calprotectina não reflete inflamação aguda) por ser uma afirmação contraintuitiva, ou a alternativa D (fator reumatoide positivo indica pior prognóstico) por associar autoimunidade a gravidade. No entanto, a banca cobra o conhecimento específico dos marcadores sorológicos da DII: o ANCA atípico na colite ulcerativa é um dado clássico e bem estabelecido, enquanto as demais alternativas distorcem conceitos de outras doenças reumatológicas ou invertem o papel de marcadores inflamatórios. Guarde a fronteira entre o que é marcador de DII (ANCA atípico, ASCA, calprotectina) e o que é marcador de outras doenças autoimunes (FAN, fator reumatoide) — é exatamente nela que as alternativas se dividem.
Marcador sorológico
Associação na DII
Padrão/Valor típico
Utilidade clínica
ANCA atípico (p-ANCA)
Colite ulcerativa (CU)
~65% dos casos de CU
Marcador clássico, mas não específico; não usado isoladamente para diagnóstico
ASCA
Doença de Crohn (DC)
Mais frequente na DC que na CU
Auxilia na distinção entre CU e DC
Calprotectina fecal
Inflamação intestinal aguda (DII em geral)
Elevada (>250 μg/g) na atividade
Estratificação, monitoramento e diferenciação com síndrome do intestino irritável
Fator reumatoide (FR)
Não associado à DII
Tipicamente negativo (artropatia soronegativa)
Sem papel prognóstico na DII
FAN
Não associado à DII
Padrões clássicos (homogêneo, pontilhado etc.)
Marcador de outras autoimunes (ex.: lúpus), não da DII
Marcadores sorológicos na DII: Colite ulcerativa (ANCA padrão atípico (65%)); Doença de Crohn (ASCA); Inflamação aguda (Calprotectina fecal elevada); Não são marcadores de DII (Fator reumatoide, FAN)
Alternativa A — ❌ Incorreta
O hemograma não demonstra alterações típicas da doença de Crohn. Na DII, o hemograma pode mostrar anemia (ferropriva, por perda sanguínea crônica, ou anemia de doença crônica), leucocitose e trombocitose como reação inflamatória inespecífica, mas não há um padrão característico que permita diferenciar a doença de Crohn de outras condições. A banca explora a confusão com o termo "alterações típicas", que não existe para o hemograma na DII — o diagnóstico se baseia em dados clínicos, endoscópicos, radiológicos e histológicos, não em achados hematológicos específicos.
Alternativa B — ❌ Incorreta
A afirmação inverte completamente o papel da calprotectina fecal. A calprotectina é um marcador de inflamação intestinal aguda, liberada por neutrófilos ativados na mucosa — justamente o oposto do que a alternativa afirma. Ela é utilizada para estratificar pacientes, monitorar atividade da doença e diferenciar DII de síndrome do intestino irritável (SII), sendo um dos exames complementares mais úteis na prática clínica. Valores elevados (>250 μg/g) indicam inflamação ativa e maior risco de progressão da doença.
Alternativa C — ✅ Correta ⟵ GABARITO
O ANCA com padrão atípico (p-ANCA atípico) é encontrado em cerca de 65% dos pacientes com colite ulcerativa. Esse é um dado clássico da literatura: enquanto o p-ANCA típico é associado a vasculites (como a granulomatose com poliangiite), o padrão atípico é característico da colite ulcerativa, embora não seja específico — pode aparecer em menor frequência na doença de Crohn e em outras condições. A alternativa está correta ao afirmar essa associação, que é um dos poucos marcadores sorológicos com alguma utilidade na DII, ainda que com valor limitado para o diagnóstico isolado.
Alternativa D — ❌ Incorreta
O fator reumatoide (FR) não tem papel prognóstico na doença inflamatória intestinal. O FR é um marcador clássico da artrite reumatoide, mas na DII as manifestações articulares são tipicamente soronegativas — ou seja, o FR costuma estar negativo. A alternativa confunde o perfil sorológico da artrite reumatoide com o da artropatia associada à DII, que é soronegativa e não deformante. Além disso, não há evidência de que FR positivo em título alto esteja associado a curso mais conturbado da DII.
Alternativa E — ❌ Incorreta
O FAN (fator antinúcleo), quando presente, não tem padrão de imunofluorescência quasi-homogêneo na DII. O FAN é um marcador de doenças autoimunes sistêmicas, como o lúpus eritematoso sistêmico, e não faz parte da avaliação laboratorial da DII. O termo "quasi-homogêneo" não é um padrão reconhecido na imunofluorescência — os padrões clássicos são homogêneo, pontilhado, nucleolar, periférico e centromérico. A alternativa mistura conceitos de autoimunidade sistêmica com a DII, sem fundamento na literatura.
Gabarito: letra C — o ANCA padrão atípico ocorre em cerca de 65% dos pacientes com colite ulcerativa, sendo o único marcador corretamente descrito entre as alternativas.