Questão de Medicina — Cirurgia Geral — VUNESP 2025
Medicina›Cirurgia Geral
Código
vu115340
Banca
VUNESP
Órgão
SES - SP
Ano
2025
Nível
Superior
Homem de 60 anos, em regime de internação hospitalar há duas semanas por sepse de foco abdominal por diverticulite operada, apresenta fístula entérica de alto débito (> 500 mL/24horas), impossibilitando a alimentação por via entérica. Iniciou nutrição parenteral total (NPT) há 10 dias. Nos últimos dias, iniciou quadro de febre persistente com secreção purulenta ao redor do sítio de inserção do cateter venoso central, bem como icterícia leve e elevação das enzimas hepáticas. Apresenta ainda dificuldade no desmame da ventilação mecânica.Considerando o quadro clínico, assinale a alternativa mais adequada.
AA NPT apresenta baixo risco infeccioso por ser uma solução estéril. A febre possivelmente deve estar relacionada à fistula entérica ou a coleções intra-abdominais.
BCarboidratos em excesso na formulação da NPT podem levar a um aumento do CO₂ e consequente refratariedade ao desmame da ventilação mecânica.
CA translocação bacteriana não é uma hipótese para este caso por ser mais comum em pacientes críticos recebendo nutrição enteral do que naqueles em NPT.
DA toxicidade hepática induzida pela NPT é decorrente da hiperglicemia persistente, sem outros fatores relacionados à formulação.
EFormulações parenterais com alto teor de proteínas não são associadas a complicações clínicas relevantes, devendo ser preferidas em pacientes com grande consumo metabólico.
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GabaritoB — Carboidratos em excesso na formulação da NPT podem levar a um aumento do CO₂ e consequente refratariedade ao desmame da ventilação mecânica.
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Nutrição parenteral total (NPT): complicações metabólicas e infecciosas
Gabarito: letra B. O excesso de carboidratos na formulação da NPT aumenta a produção de CO₂ (pelo metabolismo da glicose), elevando a carga ventilatória e dificultando o desmame da ventilação mecânica — exatamente o quadro do paciente. As demais alternativas contêm erros conceituais: a NPT tem risco infeccioso relevante (cateter), a translocação bacteriana é mais comum na NPT do que na nutrição enteral, a toxicidade hepática envolve múltiplos fatores (não só hiperglicemia) e o excesso de proteínas também traz complicações.
A nutrição parenteral total é uma terapia de suporte vital quando o trato gastrointestinal não pode ser utilizado — como neste paciente com fístula entérica de alto débito (> 500 mL/24h), que impede a alimentação enteral. A NPT fornece água, glicose, aminoácidos, lipídios, eletrólitos, vitaminas e minerais diretamente na corrente sanguínea, por cateter venoso central. Apesar de ser uma medida imperativa e salvadora em determinadas situações, o uso da NPT exclusiva tem sido associado a um maior número de complicações infecciosas, principalmente por se tratar de um método pouco fisiológico e indutor de alterações tróficas e imunológicas prejudiciais ao trato gastrointestinal.
A glicose é a fonte padrão de carboidratos para a nutrição parenteral, representando 40 a 70% da oferta calórica não proteica. Seus efeitos adversos potenciais incluem hiperglicemia, aumento da produção de CO₂, esteatose hepática e hipertonicidade da solução. O aumento da produção de CO₂ é o mecanismo central da alternativa B: quando há excesso de carboidratos, o metabolismo da glicose gera mais CO₂, que precisa ser eliminado pelos pulmões. Em um paciente com dificuldade de desmame da ventilação mecânica, esse aumento da carga ventilatória pode ser o fator que impede a retirada do suporte ventilatório.
A toxicidade hepática induzida pela NPT (colestase, esteatose) é multifatorial: envolve excesso calórico, desequilíbrio na relação glicose/lipídios, deficiência de nutrientes específicos (como colina e taurina), hiperglicemia persistente e a própria ausência de estímulo enteral. Não é decorrente apenas da hiperglicemia, como afirma a alternativa D. A icterícia leve e a elevação das enzimas hepáticas neste paciente podem ter múltiplas causas: a própria sepse, a NPT, ou medicações.
A translocação bacteriana é um fenômeno em que bactérias do lúmen intestinal atravessam a barreira epitelial e atingem a circulação. A ausência de nutrientes na luz do tubo digestivo acarreta ausência de estímulos hormonais e de liberação de fatores tróficos intestinais, levando a alterações tróficas da mucosa e das barreiras imunológicas do intestino, o que pode facilitar a ocorrência de translocação bacteriana. Portanto, a translocação bacteriana é mais comum em pacientes recebendo NPT (que não utilizam o TGI) do que naqueles em nutrição enteral — exatamente o oposto do que afirma a alternativa C.
A febre persistente com secreção purulenta ao redor do sítio de inserção do cateter venoso central é um sinal clássico de infecção relacionada ao cateter (IRC), uma complicação frequente da NPT. A NPT não apresenta baixo risco infeccioso por ser uma solução estéril — na verdade, o risco está no acesso venoso central, que é um fator de risco para sepse. A alternativa A tenta desviar a atenção para a fístula entérica ou coleções intra-abdominais, mas o quadro clínico (secreção purulenta no sítio de inserção) aponta claramente para infecção do cateter.
Guarde a fronteira entre as complicações metabólicas (aumento de CO₂, hiperglicemia, toxicidade hepática) e as complicações infecciosas (infecção de cateter, translocação bacteriana) da NPT: é exatamente nessa distinção que as alternativas se dividem.
Complicações da NPT
1Metabólicas
Hiperglicemia
Aumento de CO₂ (excesso de carboidratos)
Dificulta desmame ventilatório
Toxicidade hepática (multifatorial)
Colestase
Esteatose
2Infecciosas
Infecção de cateter (risco no acesso venoso)
Translocação bacteriana (ausência de estímulo enteral)
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Alternativa A — ❌ Incorreta
Afirma que a NPT apresenta baixo risco infeccioso por ser uma solução estéril. Isso é falso: embora a solução seja estéril, o risco infeccioso da NPT está no cateter venoso central, que é um fator de risco para sepse. A febre com secreção purulenta no sítio de inserção é sinal clássico de infecção relacionada ao cateter, não devendo ser atribuída apenas à fístula entérica ou coleções intra-abdominais. A NPT exclusiva está associada a maior número de complicações infecciosas, principalmente por ser um método pouco fisiológico.
Alternativa B — ✅ Correta ⟵ GABARITO
O excesso de carboidratos na formulação da NPT leva ao aumento da produção de CO₂, pois o metabolismo da glicose gera CO₂ como produto final. Em pacientes com dificuldade de desmame da ventilação mecânica, esse aumento da carga ventilatória pode ser o fator que impede a retirada do suporte ventilatório. A glicose é a fonte padrão de carboidratos na NPT, representando 40 a 70% da oferta calórica não proteica, e seus efeitos adversos incluem aumento da produção de CO₂. Este é exatamente o mecanismo que explica a refratariedade ao desmame neste paciente.
Alternativa C — ❌ Incorreta
Afirma que a translocação bacteriana não é uma hipótese por ser mais comum em pacientes recebendo nutrição enteral do que naqueles em NPT. É exatamente o oposto: a translocação bacteriana é mais comum em pacientes em NPT, pois a ausência de nutrientes na luz do tubo digestivo acarreta alterações tróficas da mucosa e das barreiras imunológicas do intestino, facilitando a passagem de bactérias para a circulação. A nutrição enteral, ao contrário, mantém melhor a estrutura e a função da mucosa intestinal.
Alternativa D — ❌ Incorreta
Afirma que a toxicidade hepática induzida pela NPT é decorrente da hiperglicemia persistente, sem outros fatores relacionados à formulação. A toxicidade hepática da NPT é multifatorial: envolve excesso calórico, desequilíbrio na relação glicose/lipídios, deficiência de nutrientes específicos, hiperglicemia persistente e a própria ausência de estímulo enteral. A hiperglicemia é apenas um dos fatores, não o único.
Alternativa E — ❌ Incorreta
Afirma que formulações parenterais com alto teor de proteínas não são associadas a complicações clínicas relevantes. Isso é falso: o excesso de proteínas pode levar a complicações como azotemia, acidose metabólica e sobrecarga renal, especialmente em pacientes com disfunção orgânica. O requerimento proteico para o paciente de UTI deve ser de 1,2 a 1,5 g/kg/dia, e o excesso não é recomendado.
NÃO CAIA NESSA!
A banca explora a confusão entre as complicações metabólicas e infecciosas da NPT. Na alternativa A, tenta minimizar o risco infeccioso da NPT; na C, inverte o sentido da translocação bacteriana; na D, reduz a toxicidade hepática a um único fator. A alternativa B é a única que apresenta um mecanismo fisiopatológico correto e diretamente relacionado ao quadro clínico do paciente (dificuldade de desmame da ventilação mecânica).
PEGA ESSA DICA!
Para questões de NPT, organize o estudo em dois grandes grupos: complicações metabólicas (hiperglicemia, aumento de CO₂, toxicidade hepática, esteatose) e complicações infecciosas (infecção de cateter, translocação bacteriana). Lembre-se: a NPT é pouco fisiológica e o risco infeccioso está no acesso venoso, não na solução em si.