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Questão de Medicina — Gastroenterologia — VUNESP 2025

MedicinaGastroenterologia
Código
vu115343
Banca
VUNESP
Órgão
SES - SP
Ano
2025
Nível
Superior
Assinale a alternativa correta sobre a fisiopatologia e as manifestações clínicas da cirrose hepática.
  1. ANa cirrose avançada, observa-se tipicamente uma vasoconstrição esplâncnica caraterística.
  2. BA encefalopatia hepática ocorre pela ação da amônia sobre o sistema nervoso central, sem a participação de outros mediadores inflamatórios.
  3. CA disfunção imunológica da cirrose hepática é decorrente de uma resposta descontrolada a infecção bacteriana, levando à síndrome da resposta inflamatória sistêmica (SIRS).
  4. DO comprometimento renal relacionado à cirrose é decorrente da ação de citocinas inflamatórias sobre a microvasculatura renal, entre outros fatores.
  5. ENa inflamação sistêmica relacionada à cirrose, secundária à disfunção hepática, não se observa aumento da permeabilidade intestinal.
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GabaritoD — O comprometimento renal relacionado à cirrose é decorrente da ação de citocinas inflamatórias sobre a microvasculatura renal, entre outros fatores.

Comentário gerado por IA. É um apoio ao estudo, ancorado em fontes, mas pode conter imprecisões — confira sempre na fonte oficial (lei, súmula, edital e gabarito da banca). Encontrou um erro? Use “Reportar”.

Cirrose hepática: fisiopatologia e manifestações clínicas

Gabarito: letra D. O comprometimento renal na cirrose (síndrome hepatorrenal) decorre de uma complexa interação entre vasodilatação esplâncnica, ativação de sistemas vasoconstritores e ação de citocinas inflamatórias sobre a microvasculatura renal — exatamente o que a alternativa D afirma. As demais alternativas contêm erros conceituais: na cirrose avançada há vasodilatação esplâncnica (não vasoconstrição), a encefalopatia hepática envolve múltiplos mediadores além da amônia, e a disfunção imunológica não se resume à SIRS.

A cirrose hepática é uma condição crônica caracterizada por fibrose difusa e formação de nódulos de regeneração, que distorcem a arquitetura lobular e o leito vascular do fígado. Essa distorção estrutural tem duas consequências principais: a hipertensão portal (aumento da pressão no território venoso portal) e a insuficiência hepatocelular (perda da função de síntese e metabolização). A hipertensão portal, por sua vez, leva à formação de shunts portossistêmicos e à vasodilatação esplâncnica — um dos pilares da fisiopatologia das complicações da cirrose.

A vasodilatação esplâncnica é um fenômeno central: o aumento da produção de óxido nítrico e outros vasodilatadores no território esplâncnico reduz a resistência vascular periférica, causando "underfilling" arterial (enchimento arterial insuficiente). Isso ativa mecanismos compensatórios de retenção de sódio e água (sistema renina-angiotensina-aldosterona, sistema nervoso simpático, vasopressina), que inicialmente mantêm a perfusão, mas com a progressão da doença levam à síndrome hepatorrenal — uma forma de insuficiência renal funcional. As citocinas inflamatórias, como TNF e IL-6, também contribuem para a disfunção da microvasculatura renal, perpetuando o quadro.

A encefalopatia hepática, por sua vez, é uma síndrome neuropsiquiátrica complexa. Embora a amônia seja o principal agente tóxico, o mecanismo não é exclusivo: a disfunção astroglial induzida pela amônia, a inflamação sistêmica com ativação endotelial por citocinas, a alteração da função microglial e a redução do fluxo sanguíneo cerebral (por vasoconstrição em vários territórios) são mecanismos que se somam. A amônia é metabolizada nos astrócitos em glutamina, gerando espécies reativas de oxigênio que causam disfunção astroglial e alteração da comunicação glioneuronal.

A disfunção imunológica na cirrose é multifacetada: há um estado de imunodeficiência (com maior suscetibilidade a infecções) e, paradoxalmente, uma resposta inflamatória sistêmica exacerbada quando ocorre infecção, podendo levar à SIRS. A permeabilidade intestinal aumentada (por congestão portal e alteração da barreira mucosa) permite a translocação bacteriana, que é um dos gatilhos da inflamação sistêmica e das complicações infecciosas, como a peritonite bacteriana espontânea.

A questão explora exatamente essas nuances fisiopatológicas. A alternativa D é a única que descreve corretamente um mecanismo real: o comprometimento renal na cirrose envolve a ação de citocinas inflamatórias sobre a microvasculatura renal, além dos fatores hemodinâmicos clássicos. As demais alternativas contêm erros que serão detalhados a seguir.

Alternativa

Afirmação

Veredito

A

Vasoconstrição esplâncnica na cirrose avançada

❌ Incorreta — há vasodilatação esplâncnica

B

Encefalopatia hepática sem participação de outros mediadores

❌ Incorreta — há citocinas e outros mediadores

C

Disfunção imunológica resumida à SIRS

❌ Incorreta — envolve imunodeficiência e resposta exacerbada

D

Comprometimento renal por citocinas inflamatórias, entre outros fatores

✅ Correta — gabarito

E

Sem aumento da permeabilidade intestinal na inflamação sistêmica

❌ Incorreta — há aumento da permeabilidade

Alternativa A — ❌ Incorreta

Afirma que na cirrose avançada há "vasoconstrição esplâncnica característica". O correto é o oposto: há vasodilatação esplâncnica, mediada principalmente pelo óxido nítrico, que reduz a resistência vascular periférica e leva ao "underfilling" arterial. Essa vasodilatação é o ponto de partida para a ativação dos sistemas vasoconstritores (SRAA, simpático, vasopressina) que, em fases avançadas, causam vasoconstrição renal — mas não esplâncnica. A banca inverteu o território vascular.

Alternativa B — ❌ Incorreta

Afirma que a encefalopatia hepática ocorre "sem a participação de outros mediadores inflamatórios". Isso é falso: além da amônia, participam citocinas inflamatórias (que ativam o endotélio e alteram a função microglial), espécies reativas de oxigênio e a redução do fluxo sanguíneo cerebral. A amônia é o principal agente, mas não o único — a inflamação sistêmica é um cofator importante na gênese da encefalopatia.

Alternativa C — ❌ Incorreta

Afirma que a disfunção imunológica da cirrose é "decorrente de uma resposta descontrolada a infecção bacteriana, levando à SIRS". O erro está na exclusividade: a disfunção imunológica na cirrose envolve tanto imunodeficiência (menor capacidade de combater infecções) quanto uma resposta inflamatória exacerbada quando há infecção. A SIRS é uma consequência possível, mas não define a disfunção imunológica como um todo. Além disso, a translocação bacteriana e a inflamação sistêmica podem ocorrer mesmo sem infecção clínica evidente.

Alternativa D — ✅ Correta ⟵ GABARITO

Afirma que o comprometimento renal relacionado à cirrose é decorrente da ação de citocinas inflamatórias sobre a microvasculatura renal, entre outros fatores. Isso está correto: a síndrome hepatorrenal envolve vasoconstrição renal intensa, que resulta da ativação de sistemas vasoconstritores (SRAA, simpático, vasopressina) em resposta à vasodilatação esplâncnica, mas também da ação de citocinas inflamatórias (como TNF e IL-6) que causam disfunção endotelial e reduzem a perfusão renal. O termo "entre outros fatores" torna a afirmação ainda mais precisa, pois reconhece a multifatoriedade do mecanismo.

Alternativa E — ❌ Incorreta

Afirma que na inflamação sistêmica relacionada à cirrose "não se observa aumento da permeabilidade intestinal". O correto é o contrário: há aumento da permeabilidade intestinal na cirrose, devido à congestão portal, alteração da barreira mucosa e disbiose. Isso permite a translocação bacteriana, que é um dos principais gatilhos da inflamação sistêmica e das complicações infecciosas. A banca inverteu o sentido do fenômeno.

Gabarito: letra D

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