Questão de Medicina — Endocrinologia — VUNESP 2026
Medicina›Endocrinologia
Código
vu118631
Banca
VUNESP
Órgão
Prefeitura de São José do Rio Preto - SP
Ano
2026
Nível
Superior
Cargo
Médico Especialista - Pediatra
Escolar, sexo masculino, 9 anos e 10 meses de idade, está em consulta ambulatorial de rotina. A preocupação dos pais é achar que ele é uma criança muito baixa. Trata-se de criança nascida a termo, com 3.400 g e 50 cm, sem intercorrências de saúde relevantes até o momento. Refere alimentação variada e balanceada. Evacuação diária sem esforço, fezes Bristol 4. Diurese sem alterações. Faz esportes 3 vezes por semana. A mãe mede 165 cm, e o pai mede 175 cm. Na consulta realizada há 6 meses, a criança tinha estatura de 120,5 cm. Ao exame clínico: estatura atual 123 cm (abaixo do percentil 3 do gráfico da OMS), peso 26 kg (p10 do gráfico da OMS). Proporções corporais normais, sem dismorfias. Estádio puberal G1P1.Com base no conjunto de achados, assinale a alternativa que apresenta a possibilidade diagnóstica mais provável.
ABaixa estatura familiar.
BDisplasia esquelética.
CDeficiência de hormônio de crescimento (GH).
DHipotireoidismo.
EAtraso constitucional do crescimento.
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GabaritoE — Atraso constitucional do crescimento.
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Baixa estatura na infância: diagnóstico diferencial
Gabarito: letra E. O caso descreve um menino de 9 anos e 10 meses com estatura abaixo do percentil 3, mas com velocidade de crescimento preservada (2,5 cm em 6 meses, cerca de 5 cm/ano), proporções corporais normais, sem dismorfias, em estádio puberal G1P1, com pais de estatura mediana. Esse conjunto — baixa estatura com velocidade de crescimento normal, atraso puberal e ausência de sinais de doença — é o padrão clássico do atraso constitucional do crescimento e puberdade (ACCP), também chamado de "retardo constitucional". A alternativa E é a mais provável.
O diagnóstico diferencial da baixa estatura na infância é um dos temas mais cobrados em endocrinologia pediátrica, e a chave para resolvê-lo está em dois parâmetros: a velocidade de crescimento (VC) e a idade óssea. A VC é o dado mais importante: uma criança que cresce em ritmo normal (acima de 5 cm/ano na idade escolar) mas está abaixo do percentil 3 provavelmente tem uma variante do crescimento normal — como baixa estatura familiar ou atraso constitucional — e não uma doença endócrina. Já a criança com doença (deficiência de GH, hipotireoidismo, etc.) tem VC reduzida, ou seja, "cai" cada vez mais dos percentis.
No caso, a VC calculada é de 2,5 cm em 6 meses, o que projeta cerca de 5 cm/ano — um valor dentro do esperado para a idade (o normal é > 4,5-5 cm/ano na idade pré-puberal). Isso praticamente exclui as causas patológicas. Além disso, o menino está em G1P1 (pré-púbere) aos 9 anos e 10 meses, o que é normal, mas o atraso constitucional se caracteriza justamente por um atraso na maturação óssea e, consequentemente, no início da puberdade, com estirão de crescimento tardio. A altura dos pais (165 cm e 175 cm) resulta em uma altura-alvo de aproximadamente 173,5 cm (média dos pais + 6,5 cm para meninos), o que não sugere baixa estatura familiar, pois a criança está muito abaixo do canal esperado para essa alvo.
A distinção central que a banca explora é entre baixa estatura familiar (BEF) e atraso constitucional (ACCP): na BEF, a criança cresce em ritmo normal, mas a altura está adequada ao alvo genético (pais baixos); no ACCP, a criança também cresce em ritmo normal, mas está abaixo do alvo genético, com idade óssea atrasada e puberdade tardia. No caso, a altura-alvo é normal (pais de estatura mediana), então a baixa estatura não é "familiar" — é constitucional. A displasia esquelética cursaria com desproporção corporal (membros curtos), o que está excluído. A deficiência de GH e o hipotireoidismo cursariam com VC reduzida, o que não ocorre.
Guarde o critério decisivo: velocidade de crescimento normal + baixa estatura + idade óssea atrasada (não fornecida, mas implícita no ACCP) + puberdade atrasada = atraso constitucional. É exatamente nessa combinação que as alternativas se dividem.
Critério
Baixa Estatura Familiar (BEF)
Atraso Constitucional (ACCP)
Deficiência de GH / Hipotireoidismo
Displasia Esquelética
Velocidade de crescimento
Normal
Normal
Reduzida
Normal
Proporções corporais
Normais
Normais
Normais
Desproporcionadas (membros curtos)
Altura-alvo genética
Baixa (pais baixos)
Normal (pais medianos)
Normal
Variável
Idade óssea
Compatível com idade cronológica
Atrasada
Atrasada
Variável
Puberdade
Na época esperada
Atrasada
Pode ser atrasada
Na época esperada
Exemplo no caso
Excluída (pais medianos)
Gabarito (E)
Excluída (VC normal)
Excluída (sem dismorfias)
Baixa estatura
1Velocidade de crescimento normal
Baixa estatura familiar
Altura adequada ao alvo genético
Idade óssea compatível
Atraso constitucional
Abaixo do alvo genético
Idade óssea atrasada
Puberdade tardia
2Velocidade de crescimento reduzida
Deficiência de GH
Hipotireoidismo
3Desproporção corporal
Displasia esquelética
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Alternativa A — ❌ Incorreta
A baixa estatura familiar (BEF) é uma variante do crescimento normal em que a criança cresce em ritmo normal, mas a altura está adequada ao alvo genético — ou seja, os pais são baixos. No caso, a mãe mede 165 cm e o pai 175 cm, resultando em uma altura-alvo de aproximadamente 173,5 cm (para meninos: média dos pais + 6,5 cm). A criança está muito abaixo desse alvo (123 cm aos 9a10m, < p3), o que exclui BEF. Na BEF, a estatura costuma estar entre o percentil 3 e 50, acompanhando o canal familiar, e a idade óssea é compatível com a idade cronológica.
Alternativa B — ❌ Incorreta
A displasia esquelética (como a acondroplasia) é uma causa de baixa estatura desproporcionada, com membros curtos em relação ao tronco, macrocefalia ou outras alterações esqueléticas. O enunciado afirma explicitamente que o paciente tem "proporções corporais normais, sem dismorfias", o que exclui essa hipótese. Além disso, a VC seria normal, mas a desproporção é o achado cardinal — e está ausente.
Alternativa C — ❌ Incorreta
A deficiência de hormônio de crescimento (GH) é uma causa patológica de baixa estatura que cursa com velocidade de crescimento reduzida (geralmente < 4 cm/ano na idade escolar), idade óssea atrasada, mas com proporções corporais normais. No caso, a VC é de aproximadamente 5 cm/ano (2,5 cm em 6 meses), o que é normal para a idade. Além disso, o paciente não apresenta outras características de deficiência de GH (face de boneca, adiposidade abdominal, hipoglicemia, etc.). A VC normal é o dado que afasta essa hipótese.
Alternativa D — ❌ Incorreta
O hipotireoidismo adquirido é uma causa de baixa estatura com VC reduzida, além de outros sinais como ganho de peso, constipação, pele seca, fadiga, atraso no desenvolvimento neuropsicomotor. O paciente tem "alimentação variada e balanceada, evacuação diária sem esforço, fezes Bristol 4" — ou seja, sem constipação — e não apresenta outros sinais de hipotireoidismo. A VC normal também afasta essa hipótese. O hipotireoidismo congênito, por sua vez, seria detectado no rastreio neonatal e cursaria com atraso do desenvolvimento, o que não é o caso.
Alternativa E — ✅ Correta ⟵ GABARITO
O atraso constitucional do crescimento e puberdade (ACCP) é a causa mais comum de baixa estatura em meninos na idade escolar. Caracteriza-se por: (1) estatura abaixo do percentil 3, mas com velocidade de crescimento normal; (2) idade óssea atrasada em relação à idade cronológica; (3) atraso puberal (G1P1 aos 9a10m é normal, mas no ACCP a puberdade inicia tardiamente); (4) altura-alvo genética normal (pais de estatura mediana); (5) exame físico normal, sem dismorfias ou desproporções. O paciente preenche todos esses critérios: VC de ~5 cm/ano, pré-púbere, proporções normais, pais com estatura mediana. O diagnóstico é clínico, e a confirmação viria com a idade óssea atrasada (que não foi fornecida, mas é o achado esperado). O prognóstico é excelente: o estirão puberal tardio permite que a criança atinja a altura-alvo.
PEGA ESSA DICA!
Na hora da prova, monte uma tabela mental com os dois parâmetros que separam as causas: velocidade de crescimento (normal vs. reduzida) e proporções corporais (normais vs. desproporcionadas). VC normal + proporções normais = variante do crescimento normal (BEF ou ACCP); VC reduzida + proporções normais = causa endócrina (GH, hipotireoidismo); VC normal + desproporção = displasia esquelética. Para diferenciar BEF de ACCP, olhe a altura-alvo genética e a idade óssea: BEF tem alvo baixo e idade óssea compatível; ACCP tem alvo normal e idade óssea atrasada.
Gabarito: letra E — atraso constitucional do crescimento e puberdade.