Questão de Medicina — Médico da Família — VUNESP 2026
Medicina›Médico da Família
Código
vu119799
Banca
VUNESP
Órgão
UNIFIPA
Ano
2026
Nível
Superior
Cargo
Residência Médica - Acesso Direto - Especialidades: Medicina da Família e Comunidade/Medicina Intensiva/Radiologia e Diagnóstico por Imagem
O idoso apresenta características peculiares quanto à apresentação, instalação e desfecho dos agravos em saúde, traduzidas pela maior vulnerabilidade a eventos adversos, necessitando de intervenções multidimensionais e multissetoriais com foco no cuidado.Assinale a alternativa correta sobre esse segmento populacional.
ASempre que a pessoa idosa apresenta um quadro agudo de uma doença qualquer, recomenda-se a internação imediata, pois a evolução clínica é muito rápida e pode ser perigosa nessa faixa etária.
BOs idosos são portadores de doenças ou disfunções orgânicas, com limitação de suas atividades, com restrição da capacidade de participação social e do desempenho do seu papel social.
CA pessoa idosa apresenta profundas particularidades biopsicossociais que a diferenciam da população adulta, e mesmo dentro da faixa etária há heterogeneidade no processo de envelhecimento.
DTodos os níveis do SUS deveriam ter unidades especializadas, focados nos usuários dessa faixa etária, com o objetivo de proporcionar a integralidade da assistência e a diminuição da morbimortalidade.
EAo contrário do que acontece em outras faixas etárias, as condições sociais e econômicas têm influência reduzida na saúde do idoso, pois o envelhecimento diminui as diferenças das condições de saúde e de capacidade de enfrentamento de doenças entre as classes sociais.
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GabaritoC — A pessoa idosa apresenta profundas particularidades biopsicossociais que a diferenciam da população adulta, e mesmo dentro da faixa etária há heterogeneidade no processo de envelhecimento.
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Saúde do Idoso: particularidades biopsicossociais e heterogeneidade do envelhecimento
Gabarito: letra C. A pessoa idosa apresenta profundas particularidades biopsicossociais que a diferenciam da população adulta, e mesmo dentro da faixa etária há heterogeneidade no processo de envelhecimento — essa é a afirmação correta, pois reflete o conceito central da geriatria de que o envelhecimento é um processo individual, multifatorial e não uniforme. As demais alternativas contêm erros conceituais graves, como a recomendação de internação imediata para todo quadro agudo, a generalização de que todos os idosos são portadores de doenças com limitações, a exigência de unidades especializadas em todos os níveis do SUS e a falsa ideia de que condições socioeconômicas têm influência reduzida na saúde do idoso.
O envelhecimento populacional é um fenômeno global que impõe desafios aos sistemas de saúde. No Brasil, a Política Nacional de Saúde da Pessoa Idosa (PNSPI) e o Estatuto da Pessoa Idosa (Lei 10.741/2003) estabelecem diretrizes para o cuidado integral dessa população. O conceito de envelhecimento ativo, promovido pela Organização Mundial da Saúde (OMS), enfatiza a otimização das oportunidades de saúde, participação e segurança, reconhecendo que o processo de envelhecer é heterogêneo e influenciado por múltiplos determinantes.
A heterogeneidade do envelhecimento é um princípio fundamental: não existe um "idoso padrão". Dois indivíduos da mesma idade cronológica podem apresentar estados de saúde, capacidades funcionais e necessidades completamente diferentes. Essa variação decorre de fatores genéticos, históricos de vida, exposições ambientais, condições socioeconômicas, acesso a serviços de saúde e hábitos de vida. Por isso, a avaliação geriátrica ampla (AGA) é essencial — ela considera dimensões clínicas, funcionais, cognitivas, afetivas e sociais, reconhecendo que o cuidado ao idoso deve ser individualizado e multidimensional.
Na prática clínica, o médico de família e comunidade deve estar atento às apresentações atípicas de doenças no idoso. Por exemplo, um infarto agudo do miocárdio pode se manifestar apenas como confusão mental ou queda, sem dor torácica clássica. Da mesma forma, uma infecção urinária pode se apresentar como rebaixamento do nível de consciência. Essas peculiaridades exigem anamnese cuidadosa, exame físico minucioso e alto índice de suspeição. A avaliação funcional — capacidade de realizar atividades de vida diária (AVDs) — é um dos pilares do cuidado, pois a perda funcional pode ser o primeiro sinal de doença aguda ou agravamento de condição crônica.
A distinção crucial que separa as alternativas é o reconhecimento da heterogeneidade e da complexidade biopsicossocial do envelhecimento versus visões estereotipadas e reducionistas. A alternativa correta (C) abraça essa complexidade, enquanto as demais caem em generalizações: a internação como regra (A), a incapacidade como inerente (B), a necessidade de unidades especializadas em todos os níveis (D) e a minimização dos determinantes sociais (E). Guarde esse critério: a resposta certa é a que reconhece a diversidade e a individualidade do processo de envelhecimento, sem generalizações absolutas.
Alternativa A — ❌ Incorreta
Afirma que "sempre que a pessoa idosa apresenta um quadro agudo de uma doença qualquer, recomenda-se a internação imediata". O erro está na palavra "sempre" e na generalização "doença qualquer". A internação é indicada caso a caso, considerando a gravidade, o suporte familiar, a capacidade funcional e os recursos disponíveis. Muitos quadros agudos podem ser manejados ambulatorialmente ou em serviços de atenção primária, com acompanhamento próximo. A internação desnecessária expõe o idoso a riscos como infecções hospitalares, delirium, imobilização e perda funcional — a chamada "iatrogenia hospitalar". A decisão deve ser individualizada, baseada em avaliação clínica e funcional, não em regra absoluta.
Alternativa B — ❌ Incorreta
Afirma que "os idosos são portadores de doenças ou disfunções orgânicas, com limitação de suas atividades, com restrição da capacidade de participação social e do desempenho do seu papel social". O erro é a generalização: nem todo idoso é portador de doenças ou disfunções, e muitos mantêm plena capacidade funcional e participação social até idades avançadas. O envelhecimento saudável é possível e desejável. A alternativa descreve um estereótipo negativo e incapacitante, que não corresponde à realidade heterogênea da população idosa. A capacidade funcional varia amplamente, e muitos idosos são independentes e ativos.
Alternativa C — ✅ Correta ⟵ GABARITO
Afirma que "a pessoa idosa apresenta profundas particularidades biopsicossociais que a diferenciam da população adulta, e mesmo dentro da faixa etária há heterogeneidade no processo de envelhecimento". Esta é a afirmação correta, pois reconhece dois princípios fundamentais da geriatria: (1) as particularidades biopsicossociais do idoso — alterações fisiológicas, maior vulnerabilidade, apresentações atípicas de doenças, aspectos psicológicos e sociais específicos — e (2) a heterogeneidade do envelhecimento — não existe um padrão único, cada indivíduo envelhece de forma diferente. Essa visão é a base da avaliação geriátrica ampla e do cuidado individualizado.
Alternativa D — ❌ Incorreta
Afirma que "todos os níveis do SUS deveriam ter unidades especializadas, focados nos usuários dessa faixa etária". O erro está em "todos os níveis" e na ideia de unidades especializadas como solução. O SUS é organizado em redes de atenção à saúde, com a Atenção Primária como porta de entrada e coordenadora do cuidado. A integralidade não se alcança criando unidades especializadas em todos os níveis, mas sim com uma rede integrada, onde a atenção primária faz a coordenação e o encaminhamento adequado quando necessário. A criação de unidades especializadas em todos os níveis seria ineficiente, fragmentada e contrária aos princípios do SUS. A atenção ao idoso deve ser descentralizada, com capacitação de todos os profissionais e articulação em rede.
Alternativa E — ❌ Incorreta
Afirma que "as condições sociais e econômicas têm influência reduzida na saúde do idoso, pois o envelhecimento diminui as diferenças das condições de saúde e de capacidade de enfrentamento de doenças entre as classes sociais". O erro é frontal: os determinantes sociais da saúde (renda, escolaridade, moradia, acesso a serviços) têm influência marcante na saúde do idoso, e as desigualdades sociais tendem a se acumular ao longo da vida, resultando em diferenças ainda maiores na velhice. Idosos de classes sociais mais baixas apresentam piores indicadores de saúde, maior prevalência de doenças crônicas, maior incapacidade funcional e menor acesso a cuidados. O envelhecimento não diminui as diferenças — ao contrário, pode ampliá-las, pois os efeitos das desigualdades se acumulam.
NÃO CAIA NESSA!
A banca explora a tendência de generalizar sobre o idoso. As alternativas A, B e E usam termos absolutos como "sempre", "todos" e "reduzida" para induzir ao erro. A alternativa C é a única que reconhece a heterogeneidade e a complexidade do envelhecimento, sem cair em estereótipos. Na prova, desconfie de afirmações com "sempre", "nunca", "todos" — elas raramente são corretas em medicina, especialmente em geriatria.
PEGA ESSA DICA!
Para questões sobre saúde do idoso, lembre-se dos princípios da geriatria: heterogeneidade do envelhecimento, avaliação geriátrica ampla (dimensões clínica, funcional, cognitiva, afetiva e social), apresentações atípicas de doenças, iatrogenia e determinantes sociais. A resposta correta quase sempre reconhece a individualidade e a complexidade do cuidado, evitando generalizações.