Questão de Medicina — Ginecologia e Obstetrícia — VUNESP 2026
Medicina›Ginecologia e Obstetrícia
Código
vu119822
Banca
VUNESP
Órgão
UNIFIPA
Ano
2026
Nível
Superior
Cargo
Residência Médica - Acesso Direto - Especialidades: Medicina da Família e Comunidade/Medicina Intensiva/Radiologia e Diagnóstico por Imagem
Gestante de 31 anos, G2P1, com 29 semanas, refere edema em membros inferiores que piora ao longo do dia. Nega cefaleia, escotomas, dor epigástrica ou ganho excessivo de peso. PA: 120 x 80 mmHg; AU: 28cm; BCF: 142 bpm. Edema bilateral importante até raiz da coxa, sem sinais flogísticos. Proteinúria ausente.Considerando a fisiopatologia do quadro e a conduta adequada, assinale a alternativa correta.
AO edema é decorrente de retenção patológica de sódio mediada por aldosterona, devendo ser tratado com diurético de alça.
BO quadro decorre da compressão venosa pelo útero gravídico e da hemodiluição fisiológica, a conduta é orientar elevação dos membros e repouso lateral esquerdo.
CO edema representa manifestação inicial de pré-eclâmpsia, exigindo introdução imediata de metildopa.
DO aumento da permeabilidade capilar por inflamação placentária justifica o uso profilático de corticosteroides.
EA estase venosa fisiológica pode evoluir para insuficiência cardíaca gestacional, sendo indicado ecocardiograma e restrição hídrica.
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GabaritoB — O quadro decorre da compressão venosa pelo útero gravídico e da hemodiluição fisiológica, a conduta é orientar elevação dos membros e repouso lateral esquerdo.
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Edema em gestante: fisiologia × patologia
Gabarito: letra B. O edema bilateral de membros inferiores em gestante de 29 semanas, sem hipertensão, sem proteinúria e sem sinais de alarme, é um achado fisiológico da gravidez, decorrente da compressão venosa pelo útero gravídico e da hemodiluição fisiológica; a conduta é orientar repouso com elevação dos membros e decúbito lateral esquerdo. As demais alternativas confundem esse quadro benigno com pré-eclâmpsia, insuficiência cardíaca ou indicam tratamentos inadequados.
O edema em membros inferiores é um dos achados mais comuns na gestação, afetando a maioria das gestantes, principalmente a partir do segundo trimestre. A fisiopatologia é multifatorial e envolve: (1) compressão mecânica — o útero gravídico aumenta de tamanho e comprime a veia cava inferior e as veias pélvicas, dificultando o retorno venoso dos membros inferiores; (2) hemodiluição fisiológica — o volume plasmático aumenta cerca de 40-50% durante a gestação, com redução relativa da pressão oncótica (hipoalbuminemia dilucional); (3) venodilatação — os hormônios gestacionais (estrogênio, progesterona) promovem relaxamento da musculatura lisa vascular, aumentando a capacitância venosa; (4) aumento da permeabilidade capilar — também mediado por alterações hormonais. Esses mecanismos, em conjunto, favorecem o acúmulo de líquido no interstício, predominantemente nos membros inferiores, por ação da gravidade.
O ponto crucial é distinguir o edema fisiológico do edema patológico, especialmente o da pré-eclâmpsia. O edema fisiológico costuma ser bilateral, simétrico, mole, indolor, com cacifo, que piora ao longo do dia e melhora com o repouso e elevação dos membros. Já o edema da pré-eclâmpsia tende a ser de surgimento rápido, associado a ganho de peso > 2,3 kg/semana, edema facial e, principalmente, acompanhado de hipertensão arterial (PA ≥ 140 x 90 mmHg) e proteinúria — critérios diagnósticos da doença. No caso apresentado, a paciente tem PA 120 x 80 mmHg (normal), proteinúria ausente, nega cefaleia, escotomas e dor epigástrica (sinais de gravidade), e o edema é bilateral, sem sinais flogísticos — tudo aponta para um quadro benigno.
A conduta, portanto, é expectante e orientadora: repouso com elevação dos membros inferiores, decúbito lateral esquerdo (que alivia a compressão da veia cava inferior pelo útero), evitar longos períodos em pé ou sentada, e acompanhamento pré-natal de rotina. Não há indicação de diuréticos, anti-hipertensivos, corticosteroides ou exames cardiológicos invasivos. O uso de diuréticos na gestação é contraindicado na maioria dos casos, pois pode reduzir o volume plasmático e comprometer a perfusão uteroplacentária.
A pegadinha central desta questão é a banca tentar "patologizar" um achado fisiológico, oferecendo alternativas que sugerem pré-eclâmpsia, insuficiência cardíaca ou tratamentos agressivos. O candidato deve ancorar-se nos dados objetivos do caso: PA normal, proteinúria ausente, ausência de sintomas de alarme e edema bilateral sem sinais de trombose venosa profunda (que seria unilateral, com dor e sinais flogísticos).
Alternativa A — ❌ Incorreta
Afirma que o edema é decorrente de retenção patológica de sódio mediada por aldosterona e indica diurético de alça. O edema gestacional fisiológico não é causado por hiperaldosteronismo patológico — embora haja aumento da aldosterona na gestação, isso faz parte da adaptação fisiológica para manter a volemia, não é a causa primária do edema. Além disso, diuréticos são contraindicados na gestação para edema fisiológico, pois podem reduzir o volume plasmático e prejudicar a perfusão uteroplacentária. A alternativa erra tanto na fisiopatologia quanto na conduta.
Alternativa B — ✅ Correta ⟵ GABARITO
Descreve corretamente a fisiopatologia do edema gestacional fisiológico: compressão venosa pelo útero gravídico (dificultando o retorno venoso) e hemodiluição fisiológica (aumento do volume plasmático com redução relativa da pressão oncótica). A conduta proposta — elevação dos membros e repouso em decúbito lateral esquerdo — é exatamente a orientação adequada, pois alivia a compressão da veia cava inferior e facilita o retorno venoso. É a alternativa que melhor reflete a prática clínica baseada em evidências.
Alternativa C — ❌ Incorreta
Afirma que o edema representa manifestação inicial de pré-eclâmpsia e indica metildopa. A pré-eclâmpsia é diagnosticada pela presença de hipertensão arterial (PA ≥ 140 x 90 mmHg) associada a proteinúria ou outros sinais de disfunção orgânica. A paciente tem PA 120 x 80 mmHg e proteinúria ausente, portanto não preenche critérios diagnósticos. O edema isolado, sem hipertensão e sem proteinúria, não é manifestação de pré-eclâmpsia. Além disso, a metildopa é um anti-hipertensivo usado no tratamento da hipertensão na gestação, não na prevenção ou tratamento do edema fisiológico.
Alternativa D — ❌ Incorreta
Afirma que o aumento da permeabilidade capilar por inflamação placentária justifica o uso profilático de corticosteroides. Não há evidência de inflamação placentária no quadro descrito, e o edema gestacional fisiológico não é causado por processo inflamatório. Os corticosteroides são indicados na gestação para maturação pulmonar fetal em casos de ameaça de parto prematuro (entre 24 e 34 semanas), não para edema. A alternativa confunde indicações completamente diferentes e não se aplica ao caso.
Alternativa E — ❌ Incorreta
Afirma que a estase venosa fisiológica pode evoluir para insuficiência cardíaca gestacional, indicando ecocardiograma e restrição hídrica. A estase venosa fisiológica da gestação não evolui para insuficiência cardíaca em gestantes sem cardiopatia prévia. A paciente não apresenta sinais de insuficiência cardíaca (dispneia, ortopneia, turgência jugular, estertores pulmonares). A restrição hídrica é contraindicada na gestação, pois a hidratação adequada é essencial para a perfusão uteroplacentária. A alternativa inventa uma complicação rara e indica condutas inadequadas.
NÃO CAIA NESSA!
A banca tenta "patologizar" o edema fisiológico da gestação, oferecendo alternativas que sugerem pré-eclâmpsia (C), insuficiência cardíaca (E) ou tratamentos agressivos (A, D). O candidato deve se ater aos dados objetivos: PA normal, proteinúria ausente, ausência de sintomas de alarme e edema bilateral sem sinais de TVP. O edema fisiológico é a regra, não a exceção — e a conduta é orientação, não medicação.
PEGA ESSA DICA!
Na hora da prova, monte um checklist rápido para edema em gestante: (1) PA ≥ 140x90? (2) Proteinúria? (3) Ganho de peso > 2,3 kg/semana? (4) Edema facial ou sinais de alarme (cefaleia, escotomas, dor epigástrica)? (5) Edema unilateral com dor/sinais flogísticos (suspeita de TVP)? Se todas as respostas forem "não", o edema é fisiológico — conduta: orientação de repouso, elevação dos membros e decúbito lateral esquerdo. Esse fluxo resolve a maioria das questões sobre o tema.