Questão de Medicina — Gastroenterologia — VUNESP 2026
Medicina›Gastroenterologia
Código
vu119843
Banca
VUNESP
Órgão
UNIFIPA
Ano
2026
Nível
Superior
Cargo
Residência Médica - Acesso Direto - Especialidades: Medicina da Família e Comunidade/Medicina Intensiva/Radiologia e Diagnóstico por Imagem
Paciente do sexo feminino, 45 anos, com histórico de bypass gástrico em Y de Roux para tratamento de obesidade realizado há 2 anos, comparece ao pronto-socorro relatando dor no hipocôndrio direito e icterícia há 48 horas. A paciente nega febre ou calafrios. Exames laboratoriais: bilirrubina total: 4,5 mg/dL (VR: < 1,2); bilirrubina direta: 3,8 mg/dL (VR: < 0,3); fosfatase alcalina: 350 U/L (VR: 35–104); gama-glutamil transferase (GGT): 280 U/L (VR: 5–36); TGO: 68 U/L (VR: < 31); TGP: 72 U/L (VR: < 31). Hemograma: leucócitos: 8.500/µL (VR: 4.000–11.000), sem desvio à esquerda. A colangiorressonância magnética demonstra dilatação do colédoco (11 mm) com imagem arredondada, medindo 7 mm no terço distal, compatível com coledocolitíase. Vesícula biliar alitiásica.Considerando o antecedente cirúrgico e o quadro atual de coledocolitíase não complicada, qual é a conduta de escolha para o tratamento dessa paciente?
ARealizar CPRE (colangiopancreatografia retrógrada endoscópica) por via oral seguida de colecistectomia laparoscópica eletiva.
BSubmeter a paciente à laparotomia exploradora com colecistectomia e coledocotomia para exploração das vias biliares.
CRealizar CPRE por via oral, sem necessidade de colecistectomia associada.
DRealizar CPRE com acesso via gastrostomia laparoscópica-assistida, seguida de colecistectomia no mesmo tempo cirúrgico.
EAdotar conduta conservadora com administração de ácido ursodesoxicólico para dissolução do cálculo, considerando suas pequenas dimensões.
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GabaritoD — Realizar CPRE com acesso via gastrostomia laparoscópica-assistida, seguida de colecistectomia no mesmo tempo cirúrgico.
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Coledocolitíase pós-bypass gástrico: acesso à via biliar
Gabarito: letra D. Em pacientes com bypass gástrico em Y de Roux, o acesso endoscópico convencional à papila duodenal é impossível pela via oral, pois o estômago excluído não é alcançável pelo endoscópio. A conduta de escolha para coledocolitíase não complicada nesse cenário é a CPRE com acesso transgástrico (via gastrostomia laparoscópica-assistida ou por enteroscopia de duplo balão), seguida de colecistectomia no mesmo tempo cirúrgico — exatamente o que a alternativa D descreve.
A coledocolitíase é a presença de cálculos no colédoco, frequentemente originados da vesícula biliar, que migram para o ducto colédoco. O quadro clássico é de dor no hipocôndrio direito, icterícia e colestase laboratorial (elevação de bilirrubina direta, fosfatase alcalina e GGT), como apresentado pela paciente. A ausência de febre e calafrios, leucocitose e desvio à esquerda afasta colangite aguda, caracterizando um quadro não complicado. O diagnóstico é confirmado pela colangiorressonância, que mostra dilatação do colédoco e imagem arredondada compatível com cálculo.
O tratamento da coledocolitíase não complicada envolve duas etapas: a desobstrução da via biliar (geralmente por CPRE) e a colecistectomia para prevenir recorrência. A CPRE é o padrão-ouro para a remoção de cálculos do colédoco, pois permite a papilotomia e a extração do cálculo. A colecistectomia é indicada porque a vesícula biliar é a fonte dos cálculos; sem ela, há alto risco de novos episódios de coledocolitíase, colecistite ou colangite.
O grande desafio neste caso é o antecedente de bypass gástrico em Y de Roux. Nessa cirurgia bariátrica, o estômago é dividido em um pequeno reservatório (pouch) que se anastomosa diretamente ao jejuno, e o estômago excluído (corpo e antro) fica desconectado do trânsito alimentar. O endoscópio convencional, introduzido pela boca, segue o esôfago, chega ao pouch e desce pelo jejuno, mas não consegue alcançar o estômago excluído nem a papila duodenal, que ficam inacessíveis pela via oral. Por isso, a CPRE convencional é tecnicamente impossível nesses pacientes.
As alternativas para realizar a CPRE em pacientes com bypass gástrico incluem: a enteroscopia de duplo balão (que tenta alcançar a papila pelo caminho longo, através do jejuno), a CPRE transgástrica laparoscópica-assistida (em que o cirurgião cria uma gastrostomia no estômago excluído, permitindo a passagem do endoscópio diretamente até o duodeno) e a CPRE transgástrica percutânea (guiada por radiologia). A abordagem laparoscópica-assistida é a mais utilizada e permite, no mesmo tempo cirúrgico, a colecistectomia, otimizando o tratamento.
A alternativa D é a única que combina corretamente o acesso transgástrico com a colecistectomia no mesmo procedimento. As demais alternativas falham ao propor a CPRE por via oral (impossível), a cirurgia aberta como primeira opção (mais invasiva, reservada para falha da endoscopia), a CPRE sem colecistectomia (deixa a fonte dos cálculos) ou a dissolução medicamentosa (ineficaz para cálculos no colédoco).
A pegadinha central desta questão é o acesso à via biliar em pacientes com anatomia alterada. O candidato que não conhece a limitação da CPRE convencional pós-bypass pode marcar a alternativa A, que parece o tratamento padrão, mas é tecnicamente inviável. A banca explora exatamente essa lacuna de conhecimento.
1Gastrostomia laparoscópica no estômago excluído
2Passagem do endoscópio até o duodeno
3Papilotomia e extração do cálculo
4Colecistectomia no mesmo tempo
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Alternativa A — ❌ Incorreta
A CPRE por via oral é impossível em pacientes com bypass gástrico em Y de Roux, pois o estômago excluído e a papila duodenal não são alcançáveis pelo endoscópio convencional. O endoscópio segue o trânsito alimentar (pouch → jejuno) e não consegue retroceder ao estômago excluído. Portanto, a premissa da alternativa é tecnicamente inviável.
Alternativa B — ❌ Incorreta
A laparotomia exploradora com coledocotomia é uma opção cirúrgica invasiva, mas não é a conduta de escolha para coledocolitíase não complicada, especialmente quando há alternativas menos invasivas. A abordagem minimamente invasiva (CPRE transgástrica + colecistectomia laparoscópica) é preferida por menor morbidade e recuperação mais rápida. A cirurgia aberta fica reservada para falha da endoscopia ou casos complicados.
Alternativa C — ❌ Incorreta
A CPRE por via oral é impossível (mesmo erro da alternativa A). Além disso, a alternativa propõe a CPRE sem colecistectomia, o que é inadequado: a vesícula biliar é a fonte dos cálculos, e sem sua remoção há alto risco de recorrência de coledocolitíase, colecistite ou colangite. O tratamento completo exige a colecistectomia.
Alternativa D — ✅ Correta ⟵ GABARITO
A CPRE com acesso via gastrostomia laparoscópica-assistida é a técnica correta para pacientes com bypass gástrico em Y de Roux. O cirurgião cria uma gastrostomia no estômago excluído, permitindo a passagem do endoscópio até o duodeno e a papila, onde a papilotomia e a extração do cálculo são realizadas. A colecistectomia no mesmo tempo cirúrgico completa o tratamento, removendo a fonte dos cálculos e prevenindo recorrências. Essa abordagem combinada é a conduta de escolha.
Alternativa E — ❌ Incorreta
O ácido ursodesoxicólico é usado para dissolução de cálculos de colesterol na vesícula biliar, não para cálculos no colédoco. Sua eficácia é limitada, exige cálculos pequenos e radiotransparentes, e o tratamento leva meses. Para coledocolitíase, a remoção endoscópica ou cirúrgica é o tratamento de escolha. A conduta conservadora não é adequada, pois o cálculo obstrutivo pode causar complicações como colangite ou pancreatite.