Questão de Medicina — Farmacologia e Anestesiologia — VUNESP 2026
Medicina›Farmacologia e Anestesiologia
Código
vu119988
Banca
VUNESP
Órgão
UNIFIPA
Ano
2026
Nível
Superior
Cargo
Residência Médica - Pré-Requisito em Cirurgia Geral - Especialidade: Cirurgia do Trauma
Paciente de 32 anos, vítima de acidente motociclístico há quatro dias, encontra-se internado na UTI e necessita de intubação orotraqueal urgente devido a piora do nível de consciência. Apresenta lesão por esmagamento no membro inferior direito. O intensivista considera o uso de succinilcolina para intubação de sequência rápida.Com base nesse contexto, assinale a alternativa correta sobre a succinilcolina.
AÉ a droga de eleição, por ter rápido início de ação e curta duração, sendo segura em pacientes com trauma recente e lesão por esmagamento.
BSeu uso está associado a risco de hipercalemia potencialmente fatal em pacientes com rabdomiólise grave.
CPode ser administrada com segurança em pacientes traumatizados desde que a dosagem seja reduzida em 20%.
DSua ação é revertida prontamente pela administração de sulfato de magnésio.
EÉ metabolizada pela acetilcolinesterase eritrocitária, com duração de ação prolongada em pacientes com politrauma.
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GabaritoB — Seu uso está associado a risco de hipercalemia potencialmente fatal em pacientes com rabdomiólise grave.
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Succinilcolina e risco de hipercalemia no trauma
Gabarito: letra B. A succinilcolina é um bloqueador neuromuscular despolarizante que, ao se ligar aos receptores nicotínicos da placa motora, causa despolarização sustentada e liberação de potássio das células musculares. Em pacientes com rabdomiólise grave — como na lesão por esmagamento — há um efluxo maciço de potássio para o espaço extracelular, podendo levar a hipercalemia potencialmente fatal (arritmias ventriculares e parada cardíaca). Essa é a contraindicação clássica ao uso da droga nesse cenário, conforme o contexto de medicina intensiva e trauma.
A succinilcolina é o bloqueador neuromuscular de escolha na intubação de sequência rápida (ISR) por seu início de ação ultrarrápido (30–60 segundos) e curta duração (5–10 minutos), sendo metabolizada pela colinesterase plasmática (pseudocolinesterase), e não pela acetilcolinesterase eritrocitária. No entanto, o paciente do enunciado apresenta lesão por esmagamento no membro inferior direito — condição que cursa com rabdomiólise e liberação de mioglobina e potássio. Nesse contexto, o uso de succinilcolina é contraindicado pelo risco de hipercalemia grave, sendo preferível o uso de um bloqueador não despolarizante, como o rocurônio.
A hipercalemia induzida pela succinilcolina ocorre porque a despolarização prolongada da membrana da fibra muscular abre canais de potássio, que normalmente liberam pequena quantidade do íon. Em músculos desnervados, imobilizados, queimados ou com lesão por esmagamento, há um aumento do número de receptores nicotínicos extrajuncionais, o que amplifica enormemente a liberação de potássio após a administração da droga. O pico de hipercalemia ocorre em torno de 3 a 5 dias após a lesão, mas o risco já existe nas primeiras 24–48 horas, especialmente em lesões extensas.
A alternativa B está correta porque reconhece exatamente esse risco. As demais alternativas apresentam erros conceituais: a letra A afirma que a droga é segura em trauma recente com esmagamento (falso — é justamente contraindicada); a letra C sugere redução de dose (não há evidência de que isso elimine o risco); a letra D afirma que o sulfato de magnésio reverte a ação (não é verdade — o magnésio trata a hipercalemia, mas não reverte o bloqueio neuromuscular); e a letra E erra o metabolismo (é a colinesterase plasmática, não a eritrocitária).
A distinção crucial que separa as alternativas é o mecanismo de ação e o perfil de segurança da succinilcolina em situações de risco de hipercalemia. Enquanto a droga é segura e eficaz na maioria dos pacientes para ISR, sua contraindicação absoluta em condições como rabdomiólise, queimaduras extensas, lesão medular e doenças neuromusculares é o ponto central que a banca explora. O intensivista deve, portanto, optar por um bloqueador não despolarizante (rocurônio) nesse cenário.
Succinilcolina (bloqueador despolarizante)
1Perfil farmacológico
Início ultrarrápido (30–60 s)
Curta duração (5–10 min)
Metabolizada pela colinesterase plasmática
2Mecanismo de ação
Despolarização sustentada da placa motora
Libera potássio das células musculares
3Contraindicação clássica
Rabdomiólise grave (esmagamento)
Queimaduras extensas
Lesão medular
Doenças neuromusculares
Risco de hipercalemia fatal
4Conduta alternativa
Rocurônio (bloqueador não despolarizante)
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Alternativa A — ❌ Incorreta
Afirma que a succinilcolina é a droga de eleição e segura em pacientes com trauma recente e lesão por esmagamento. Erro: a lesão por esmagamento é uma contraindicação relativa/absoluta ao uso da droga pelo risco de hipercalemia grave. Embora a succinilcolina tenha início rápido e curta duração (características desejáveis para ISR), a presença de rabdomiólise torna o uso perigoso. O correto é optar por rocurônio nesse cenário.
Alternativa B — ✅ Correta ⟵ GABARITO
Reconhece o risco de hipercalemia potencialmente fatal em pacientes com rabdomiólise grave. A lesão por esmagamento causa liberação de potássio das células musculares danificadas, e a succinilcolina, ao despolarizar a membrana, amplifica esse efluxo, podendo levar a arritmias ventriculares e parada cardíaca. Essa é a contraindicação clássica da droga nesse contexto.
Alternativa C — ❌ Incorreta
Sugere que a succinilcolina pode ser usada com segurança em traumatizados desde que a dose seja reduzida em 20%. Erro: não há evidência de que a redução da dose elimine o risco de hipercalemia. A contraindicação é baseada no mecanismo fisiopatológico (liberação de potássio), que não é dose-dependente de forma segura. A conduta correta é evitar a droga e usar um bloqueador não despolarizante.
Alternativa D — ❌ Incorreta
Afirma que a ação da succinilcolina é revertida prontamente pelo sulfato de magnésio. Erro: o sulfato de magnésio é usado no tratamento da hipercalemia (estabiliza a membrana cardíaca), mas não reverte o bloqueio neuromuscular da succinilcolina. Não existe antagonista específico para a succinilcolina; a recuperação ocorre pela metabolização pela colinesterase plasmática.
Alternativa E — ❌ Incorreta
Afirma que a succinilcolina é metabolizada pela acetilcolinesterase eritrocitária, com duração prolongada em politrauma. Erro: a succinilcolina é metabolizada pela colinesterase plasmática (pseudocolinesterase), não pela acetilcolinesterase eritrocitária. Em pacientes com deficiência genética dessa enzima, a duração da ação pode ser prolongada, mas isso não é específico do politrauma. A alternativa troca o local de metabolismo e generaliza indevidamente.
Gabarito: letra B — a única alternativa que corretamente identifica o risco de hipercalemia fatal como contraindicação ao uso de succinilcolina em paciente com rabdomiólise por esmagamento.