Residência Médica - Pré-Requisito em Cirurgia Geral - Especialidade: Cirurgia do Trauma
Homem de 32 anos chega ao pronto-socorro referindo ereção persistente e não dolorosa há horas, iniciada após trauma perineal durante acidente de moto. Ao exame, observa-se priapismo com rigidez parcial, palpação dolorosa à base do pênis e equimose perineal. Foi realizada aspiração de sangue do corpo cavernoso, que se apresentou vermelho-vivo e com gasometria compatível com sangue arterializado.Qual é a conduta diagnóstica e terapêutica mais adequada para esse caso?
AInjeção intracavernosa de fenilefrina e aspiração, tratando como priapismo isquêmico.
BAngiotomografia de pelve para identificar fístula arterial e embolização seletiva.
CRealização de shunt cavernoso-esponjoso distal imediato.
DAdministração de analgésicos e observação, pois é um priapismo de alta vazão com resolução espontânea frequente.
EExploração cirúrgica urgente com ligadura da artéria pudenda interna.
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GabaritoB — Angiotomografia de pelve para identificar fístula arterial e embolização seletiva.
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Priapismo: alto fluxo (não isquêmico) versus baixo fluxo (isquêmico)
Gabarito: letra B. O quadro é de priapismo de alto fluxo (não isquêmico): trauma perineal fechado, ereção não dolorosa, sangue aspirado vermelho-vivo e arterializado na gasometria. A conduta diagnóstica é a angiotomografia de pelve para identificar a fístula arteriocavernosa e, se necessário, a embolização arterial seletiva — exatamente o que a alternativa B descreve.
O priapismo é a ereção prolongada, geralmente dolorosa, não associada a estímulo erótico. A fisiopatologia divide-se em dois grandes grupos, e é essa divisão que decide toda a conduta. No priapismo de baixo fluxo (isquêmico), há obstrução da drenagem venosa dos corpos cavernosos, com sangue venoso, hipóxico e acidótico — é uma emergência urológica que exige intervenção imediata para evitar fibrose e disfunção erétil permanente. No priapismo de alto fluxo (não isquêmico), há uma fístula entre a artéria cavernosa e o corpo cavernoso, geralmente por trauma perineal fechado, permitindo que sangue arterial mantenha a ereção. Por isso o sangue aspirado é vermelho-vivo e arterializado, e a dor costuma ser ausente ou discreta.
A distinção clínica e laboratorial é o coração da questão. No alto fluxo, o pênis apresenta rigidez parcial, não há dor significativa e a gasometria do sangue cavernoso mostra PO₂ elevado, PCO₂ baixo e pH normal (sangue arterializado). No baixo fluxo, o pênis é rígido e doloroso, e a gasometria revela sangue venoso (PO₂ baixo, PCO₂ alto, pH ácido). O ultrassom com Doppler peniano auxilia no diagnóstico diferencial, mostrando fluxo arterial preservado ou aumentado no alto fluxo e fluxo ausente ou reduzido no baixo fluxo.
O manejo é radicalmente diferente. O priapismo de baixo fluxo é emergência: aspiração do corpo cavernoso, irrigação com soro fisiológico e injeção de alfa-agonista (fenilefrina), com shunts cirúrgicos se não houver resposta. O priapismo de alto fluxo, por sua vez, não é urgente: muitos casos resolvem-se espontaneamente, e a conduta inicial pode ser observação. Se o priapismo persistir, o tratamento de escolha é a embolização arterial seletiva, guiada por imagem, para ocluir a fístula. A alternativa D menciona a observação, mas erra ao descartar a investigação diagnóstica e ao afirmar que a resolução espontânea é "frequente" — ela é possível, não a regra, e a conduta adequada inclui a angiotomografia para confirmar o diagnóstico e planejar a embolização se necessário.
A pegadinha central da questão é confundir os dois tipos de priapismo e aplicar o tratamento do isquêmico ao não isquêmico. A alternativa A propõe fenilefrina e aspiração, que são o tratamento do priapismo de baixo fluxo — inadequadas aqui, pois o problema não é estase venosa, mas fístula arterial. A alternativa C propõe shunt cavernoso-esponjoso, também para o priapismo isquêmico refratário. A alternativa E propõe ligadura da artéria pudenda interna, que é uma conduta mutilante e não é o padrão atual — a embolização seletiva é preferível por preservar a função erétil. A alternativa D, por fim, subestima o caso ao sugerir apenas observação, sem a investigação diagnóstica adequada.
Guarde a fronteira: trauma perineal + sangue arterializado + pouca dor = alto fluxo → angiotomografia + embolização seletiva. É exatamente nessa fronteira que as alternativas se dividem.
Obstrução da drenagem venosa dos corpos cavernosos
Dor
Ausente ou discreta
Intensa
Rigidez peniana
Parcial
Rígida
Gasometria do sangue cavernoso
PO₂ elevado, PCO₂ baixo, pH normal (arterializado)
PO₂ baixo, PCO₂ alto, pH ácido (venoso)
Urgência
Não é emergência (pode haver resolução espontânea)
Emergência urológica (risco de fibrose e disfunção erétil)
Conduta diagnóstica
Angiotomografia de pelve (identifica fístula)
Doppler peniano (fluxo ausente/reduzido)
Tratamento
Embolização arterial seletiva
Aspiração, irrigação, fenilefrina; shunts se refratário
Priapismo
1Baixo fluxo (isquêmico)
Emergência urológica
Sangue venoso (hipóxico, acidótico)
Dor intensa, rigidez total
Tratamento: aspiração + fenilefrina
2Alto fluxo (não isquêmico)
Fístula arteriocavernosa (trauma perineal)
Sangue arterializado (vermelho-vivo)
Pouca dor, rigidez parcial
Diagnóstico: angiotomografia
Tratamento: embolização seletiva
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Alternativa A — ❌ Incorreta
A injeção intracavernosa de fenilefrina e a aspiração são o tratamento do priapismo isquêmico (baixo fluxo), no qual há sangue venoso estagnado. No caso, o sangue aspirado é vermelho-vivo e arterializado, indicando alto fluxo — a conduta de aspiração com alfa-agonista não trata a fístula arterial e não é a primeira escolha. A banca troca o tratamento de um tipo pelo outro.
Alternativa B — ✅ Correta ⟵ GABARITO
A alternativa descreve com precisão a conduta no priapismo de alto fluxo: a angiotomografia de pelve é o exame que identifica a fístula arteriocavernosa, e a embolização arterial seletiva é o tratamento de escolha quando o priapismo persiste, por ocluir a fístula preservando a função erétil. É a conduta diagnóstica e terapêutica mais adequada para o caso.
Alternativa C — ❌ Incorreta
O shunt cavernoso-esponjoso distal é um procedimento cirúrgico indicado para o priapismo isquêmico refratário ao tratamento clínico, com o objetivo de criar uma via de drenagem para o sangue venoso estagnado. No priapismo de alto fluxo, não há estase venosa — há excesso de fluxo arterial —, portanto o shunt não tem indicação e não é a conduta imediata.
Alternativa D — ❌ Incorreta
A observação com analgésicos pode ser considerada em alguns casos de priapismo de alto fluxo, pois há possibilidade de resolução espontânea. No entanto, a alternativa erra ao afirmar que essa resolução é "frequente" e ao omitir a investigação diagnóstica (angiotomografia) e o tratamento definitivo (embolização) quando o priapismo persiste. A conduta adequada não é apenas observar, mas confirmar o diagnóstico e planejar a intervenção se necessário.
Alternativa E — ❌ Incorreta
A ligadura da artéria pudenda interna é uma conduta mutilante e não é o tratamento padrão para o priapismo de alto fluxo. A embolização arterial seletiva é preferível, pois oclui seletivamente a fístula, preservando a vascularização peniana e a função erétil. A ligadura cirúrgica direta da artéria pudenda interna não é indicada como primeira opção.