Questão de Medicina — Pediatria e Neonatologia — VUNESP 2026
Medicina›Pediatria e Neonatologia
Código
vu120104
Banca
VUNESP
Órgão
UNIFIPA
Ano
2026
Nível
Superior
Cargo
Residência Médica - Pré-Requisito em Pediatria - Especialidade: Neonatologia
Noah, 4 anos, é trazido à Unidade Básica de Saúde pela mãe, em consulta de encaixe, por história de inchaço no corpo há uma semana e urina espumosa. Segundo a mãe, o edema surge no rosto pela manhã e ao longo do dia vai ficando mais importante nos membros inferiores. Ao exame, Noah encontra-se em regular estado geral, com sinais clínicos de desidratação, edema generalizado e exame clínico compatível com ascite. Pressão arterial abaixo do percentil 90 para sexo, idade e percentil de estatura.Levando em conta a principal hipótese diagnóstica para o quadro de Noah, assinale a alternativa correta.
ANoah tem indicação de realização de biópsia renal, uma vez que se encontra fora da faixa etária habitual para esta doença.
BDentre os exames laboratoriais, esperamos encontrar hipoalbuminemia, hipercolesterolemia e complemento normal.
CA lesão histológica mais frequente nesta faixa etária é a glomeruloesclerose segmentar e focal.
DPara o seu tratamento está indicado o uso de furosemida e anlodipino diários.
EA restrição hídrica e a dieta assódica fazem parte das medidas não farmacológicas do seu tratamento.
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GabaritoB — Dentre os exames laboratoriais, esperamos encontrar hipoalbuminemia, hipercolesterolemia e complemento normal.
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Síndrome Nefrótica na Infância
Gabarito: letra B. O quadro de Noah — edema generalizado, urina espumosa (proteinúria), ascite e hipotensão — é clássico de síndrome nefrótica, e na faixa etária de 4 anos a forma mais comum é a doença de lesões mínimas, cujo perfil laboratorial típico inclui hipoalbuminemia, hipercolesterolemia e complemento sérico normal. A alternativa B descreve exatamente essa tríade, sendo a única correta.
A síndrome nefrótica é uma síndrome clínico-laboratorial caracterizada por proteinúria maciça (acima de 50 mg/kg/dia ou relação proteína/creatinina > 2,0 em amostra isolada), hipoalbuminemia (albumina sérica < 2,5 g/dL), edema e hiperlipidemia. O mecanismo fisiopatológico central é o aumento da permeabilidade da barreira de filtração glomerular, que permite a passagem de proteínas de médio e grande peso molecular para a urina. A perda proteica urinária leva à queda da pressão oncótica plasmática, com extravasamento de líquido para o interstício e consequente edema — que, no caso de Noah, manifesta-se de forma generalizada, incluindo ascite.
Na criança entre 1 e 8 anos, a principal causa de síndrome nefrótica é a doença de lesões mínimas (DLM), responsável por cerca de 80-90% dos casos nessa faixa etária. A DLM caracteriza-se histologicamente pela ausência de alterações à microscopia óptica (daí o nome "lesões mínimas"), com fusão dos podócitos à microscopia eletrônica. O complemento sérico é normal na DLM, diferentemente de outras glomerulopatias como a glomerulonefrite membranoproliferativa, em que o complemento está consumido (baixo). Essa distinção é fundamental para o raciocínio diagnóstico.
O tratamento de primeira linha da síndrome nefrótica por lesões mínimas é a corticoterapia (prednisona oral), que induz remissão na grande maioria dos casos. Medidas não farmacológicas incluem restrição de sódio e controle da ingesta hídrica durante a fase edemaciada, mas a restrição hídrica não é rotina — o que se recomenda é a restrição de sódio e, em casos de edema importante, a restrição de líquidos. Diuréticos (como furosemida) podem ser usados em casos de edema grave ou refratário, mas não são a base do tratamento. Anti-hipertensivos como anlodipino não estão indicados, pois a maioria das crianças com síndrome nefrótica por lesões mínimas é normotensa ou hipotensa, como no caso de Noah.
A biópsia renal não é indicada de rotina na primeira apresentação de síndrome nefrótica em criança de 4 anos, pois a alta prevalência de DLM nessa faixa etária e a boa resposta à corticoterapia tornam o diagnóstico clínico-laboratorial suficiente. A biópsia é reservada para casos atípicos, como idade < 1 ano ou > 8 anos, hematúria macroscópica, hipertensão arterial, hipocomplementemia, ausência de resposta ao corticoide ou recidivas frequentes.
A pegadinha da questão está em associar a síndrome nefrótica a outras glomerulopatias que cursam com hipocomplementemia ou com lesões histológicas específicas, como a glomeruloesclerose segmentar e focal (GESF), que é mais comum em adolescentes e adultos, e não na faixa etária de Noah. A banca também explora a confusão entre o tratamento da síndrome nefrótica e o de outras condições, como a hipertensão arterial, que não se aplica ao caso.
Síndrome nefrótica: Critérios (Proteinúria maciça, Hipoalbuminemia, Edema, Hiperlipidemia); Faixa etária 1–8 anos (Doença de lesões mínimas (80–90%), Complemento normal); Tratamento (Corticoide (1ª linha), Restrição hídrica não é rotina, Restrição de sódio, Biópsia: casos atípicos)
Alternativa A — ❌ Incorreta
A biópsia renal não está indicada na primeira apresentação de síndrome nefrótica em criança de 4 anos, pois essa faixa etária é a mais típica para a doença de lesões mínimas, que responde bem à corticoterapia. A biópsia é reservada para casos atípicos (idade < 1 ano ou > 8 anos, hematúria macroscópica, hipertensão, hipocomplementemia, ausência de resposta ao corticoide). A alternativa inverte a lógica: Noah está dentro da faixa etária habitual, não fora dela.
Alternativa B — ✅ Correta ⟵ GABARITO
A tríade laboratorial descrita — hipoalbuminemia, hipercolesterolemia e complemento normal — é exatamente o perfil esperado na síndrome nefrótica por doença de lesões mínimas, a principal hipótese diagnóstica para Noah. A hipoalbuminemia decorre da perda proteica urinária; a hipercolesterolemia é consequência do estímulo hepático à síntese de lipoproteínas; e o complemento normal diferencia a DLM de glomerulopatias com consumo de complemento, como a membranoproliferativa.
Alternativa C — ❌ Incorreta
A lesão histológica mais frequente na faixa etária de Noah (4 anos) é a doença de lesões mínimas, não a glomeruloesclerose segmentar e focal (GESF). A GESF é mais comum em adolescentes, adultos e em casos de síndrome nefrótica corticorresistente. A alternativa troca a lesão histológica típica da infância pela de outras faixas etárias.
Alternativa D — ❌ Incorreta
O tratamento de primeira linha da síndrome nefrótica por lesões mínimas é a corticoterapia (prednisona), não o uso diário de furosemida e anlodipino. Diuréticos podem ser usados em casos de edema grave ou refratário, mas não como tratamento de base. Anlodipino (anti-hipertensivo) não está indicado, pois a criança com DLM geralmente é normotensa ou hipotensa, como no caso de Noah.
Alternativa E — ❌ Incorreta
A restrição de sódio é uma medida não farmacológica recomendada na fase edemaciada, mas a restrição hídrica não é rotina — o que se orienta é a restrição de sódio e, em casos de edema importante, a restrição de líquidos. A alternativa generaliza a restrição hídrica como medida padrão, o que não corresponde à conduta habitual.