Questão de Português — Advérbio — VUNESP 2020
- Código
- vu141022
- Banca
- VUNESP
- Órgão
- CREFITO 3
- Ano
- 2020
- Cargo
- Fisc ( )
Considere o texto para responder a questão
Os escravos somos nós
Na TV, um sábio comenta por que motivo “as massas” não leem mais. “Vivemos um tempo de desinteresse total pela cultura”, diz com repugnância. “É o triunfo dos ignorantes!”
Penso várias coisas. A primeira é a quantidade de charlatões que falam na TV com ar sério e erudito. A segunda resume-se no meu pasmo: Em que mundo vive essa criatura? Não, com certeza, no mundo que vejo em volta: um mundo de “escravidão voluntária”.
“Escravidão voluntária” é expressão de Madeleine Bunting, escritora inglesa que editou um livro a respeito e cujo objetivo é analisar como foi que o excesso de trabalho invadiu e dominou as nossas vidas.
Atenção: Bunting não escreve uma diatribe1 contra o trabalho, o que seria irracional e infantil. E, para sermos rigorosos, ela não se ocupa daqueles que precisam trabalhar por sobrevivência.
O alvo é outro: as classes médias e médias altas que, nas sociedades ocidentais, fizeram do excesso de trabalho uma estranha forma de vida – e de estatuto.
Conta Bunting que, nas últimas duas décadas, o declínio histórico nas horas de labuta sofreu uma reversão. Trabalhamos mais do que nossos antepassados: durante a Revolução Industrial era possível estar 14 ou 15 horas enfiado numa fábrica insalubre de Manchester ou Liverpool.
Mas essas 14 ou 15 horas são hoje mimetizadas2 pela incapacidade de separar o trabalho da vida pessoal – uma incapacidade que os mil brinquedos eletrônicos trouxeram às nossas vidas. Estamos ligados 24 horas sobre 24 horas. Em teoria, um certo nível de bem-estar deveria trazer mais lazer, não menos. Na prática, é o inverso.
E é o inverso porque existe uma segunda observação da autora que me parece a mais luminosa: se é verdade que todos os seres humanos precisam de um “sentido” para as suas vidas, então o trabalho assume-se hoje como a principal fonte de “sentido” e até de “identidade”.
Os nossos antepassados eram capazes de encontrar esse “sentido” na partilha comunitária, na família, na religião, até na política. O trabalho era apenas mais uma cesta onde colocar os ovos da existência. Hoje, com a atomização crescente dos indivíduos; a desagregação da família; o recuo da religião; e o desinteresse pela política, só resta o trabalho como bússola da nossa patética travessia terrena. Somos o que fazemos. Não somos mais o que somos.
Quais as consequências disso?
Penso no sábio da TV: Por que motivo “as massas” não consomem cultura?
A resposta já foi dada por Aristóteles: não existe cultura sem ócio.
No século 19, Paul Lafargue escrevia que as sociedades antigas tinham ócio porque existiam escravos para todo o serviço. Mas, com intocável otimismo, Lafargue garantia que no futuro os escravos não seriam necessários. A evolução da técnica permitiria libertar os homens para o ócio.
Pobre Lafargue. Mal ele sabia que, nesse futuro, os escravos seríamos nós.
(João Pereira Coutinho. Folha de S.Paulo. 15.12.2015. Adaptado)
1 diatribe: dissertação crítica, em geral em tom exaltado
2 mimetizadas: disfarçadas, camulfladas
Considere os trechos do texto.
- “Vivemos um tempo de desinteresse total pela cultura”, diz com repugnância.
- Não, com certeza, no mundo que vejo em volta: um mundo de “escravidão voluntária”.
As expressões destacadas em negrito apresentam, correta e respectivamente, as circunstâncias adverbiais de
- Aintensidade; modo.
- Bintensidade; consequência.
- Cconcessão; afirmação.
- Dmodo; consequência.
- Emodo; afirmação.