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Questão de Português — Pontuação (Ponto, Vírgula, Travessão, Aspas, Parênteses, etc) — VUNESP 2020

PortuguêsPontuação (Ponto, Vírgula, Travessão, Aspas, Parênteses, etc)
Código
vu141194
Banca
VUNESP
Órgão
CREFITO 3
Ano
2020
Cargo
Fisc ( )

Considere o texto para responder a questão

 

Os escravos somos nós

 

Na TV, um sábio comenta por que motivo “as massas” não leem mais. “Vivemos um tempo de desinteresse total pela cultura”, diz com repugnância. “É o triunfo dos ignorantes!”

 

Penso várias coisas. A primeira é a quantidade de charlatões que falam na TV com ar sério e erudito. A segunda resume-se no meu pasmo: Em que mundo vive essa criatura? Não, com certeza, no mundo que vejo em volta: um mundo de “escravidão voluntária”.

 

“Escravidão voluntária” é expressão de Madeleine Bunting, escritora inglesa que editou um livro a respeito e cujo objetivo é analisar como foi que o excesso de trabalho invadiu e dominou as nossas vidas.

 

Atenção: Bunting não escreve uma diatribe1 contra o trabalho, o que seria irracional e infantil. E, para sermos rigorosos, ela não se ocupa daqueles que precisam trabalhar por sobrevivência.

 

O alvo é outro: as classes médias e médias altas que, nas sociedades ocidentais, fizeram do excesso de trabalho uma estranha forma de vida – e de estatuto.

 

Conta Bunting que, nas últimas duas décadas, o declínio histórico nas horas de labuta sofreu uma reversão. Trabalhamos mais do que nossos antepassados: durante a Revolução Industrial era possível estar 14 ou 15 horas enfiado numa fábrica insalubre de Manchester ou Liverpool.

 

Mas essas 14 ou 15 horas são hoje mimetizadas2 pela incapacidade de separar o trabalho da vida pessoal – uma incapacidade que os mil brinquedos eletrônicos trouxeram às nossas vidas. Estamos ligados 24 horas sobre 24 horas. Em teoria, um certo nível de bem-estar deveria trazer mais lazer, não menos. Na prática, é o inverso.

 

E é o inverso porque existe uma segunda observação da autora que me parece a mais luminosa: se é verdade que todos os seres humanos precisam de um “sentido” para as suas vidas, então o trabalho assume-se hoje como a principal fonte de “sentido” e até de “identidade”.

 

Os nossos antepassados eram capazes de encontrar esse “sentido” na partilha comunitária, na família, na religião, até na política. O trabalho era apenas mais uma cesta onde colocar os ovos da existência. Hoje, com a atomização crescente dos indivíduos; a desagregação da família; o recuo da religião; e o desinteresse pela política, só resta o trabalho como bússola da nossa patética travessia terrena. Somos o que fazemos. Não somos mais o que somos.

 

Quais as consequências disso?

 

Penso no sábio da TV: Por que motivo “as massas” não consomem cultura?

 

A resposta já foi dada por Aristóteles: não existe cultura sem ócio.

 

No século 19, Paul Lafargue escrevia que as sociedades antigas tinham ócio porque existiam escravos para todo o serviço. Mas, com intocável otimismo, Lafargue garantia que no futuro os escravos não seriam necessários. A evolução da técnica permitiria libertar os homens para o ócio.

 

Pobre Lafargue. Mal ele sabia que, nesse futuro, os escravos seríamos nós.

 

(João Pereira Coutinho. Folha de S.Paulo. 15.12.2015. Adaptado)

 

1 diatribe: dissertação crítica, em geral em tom exaltado

 

2 mimetizadas: disfarçadas, camulfladas

Considere as frases selecionadas do texto.

  • O alvo é outro: as classes médias e médias altas que, nas sociedades ocidentais, fizeram do excesso de trabalho uma estranha forma de vida – e de estatuto. 
  • A resposta já foi dada por Aristóteles: não existe cultura sem ócio. 

É correto afirmar que os dois-pontos empregados nessas frases introduzem, respectivamente:

  1. Aexemplificações para esclarecer um termo definido anteriormente na frase.
  2. Bcitação literal do que foi afirmado por Bunting e por Aristóteles.  ponderações do autor em face da ambiguidade existente nos estudos apresentados.
  3. Ca elucidação de informações previamente mencionadas na frase.
  4. Dretificações do autor em relação ao ponto de vista da escritora inglesa e do filósofo.
Revelar gabarito e comentário

GabaritoD — retificações do autor em relação ao ponto de vista da escritora inglesa e do filósofo.

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