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Questão de Português — Interpretação de Textos (Compreensão) — VUNESP 2020

PortuguêsInterpretação de Textos (Compreensão)
Código
vu141453
Banca
VUNESP
Órgão
CREFITO 3
Ano
2020
Cargo
Fisc ( )

Considere o texto para responder a questão

 

Os escravos somos nós

 

Na TV, um sábio comenta por que motivo “as massas” não leem mais. “Vivemos um tempo de desinteresse total pela cultura”, diz com repugnância. “É o triunfo dos ignorantes!”

 

Penso várias coisas. A primeira é a quantidade de charlatões que falam na TV com ar sério e erudito. A segunda resume-se no meu pasmo: Em que mundo vive essa criatura? Não, com certeza, no mundo que vejo em volta: um mundo de “escravidão voluntária”.

 

“Escravidão voluntária” é expressão de Madeleine Bunting, escritora inglesa que editou um livro a respeito e cujo objetivo é analisar como foi que o excesso de trabalho invadiu e dominou as nossas vidas.

 

Atenção: Bunting não escreve uma diatribe1 contra o trabalho, o que seria irracional e infantil. E, para sermos rigorosos, ela não se ocupa daqueles que precisam trabalhar por sobrevivência.

 

O alvo é outro: as classes médias e médias altas que, nas sociedades ocidentais, fizeram do excesso de trabalho uma estranha forma de vida – e de estatuto.

 

Conta Bunting que, nas últimas duas décadas, o declínio histórico nas horas de labuta sofreu uma reversão. Trabalhamos mais do que nossos antepassados: durante a Revolução Industrial era possível estar 14 ou 15 horas enfiado numa fábrica insalubre de Manchester ou Liverpool.

 

Mas essas 14 ou 15 horas são hoje mimetizadas2 pela incapacidade de separar o trabalho da vida pessoal – uma incapacidade que os mil brinquedos eletrônicos trouxeram às nossas vidas. Estamos ligados 24 horas sobre 24 horas. Em teoria, um certo nível de bem-estar deveria trazer mais lazer, não menos. Na prática, é o inverso.

 

E é o inverso porque existe uma segunda observação da autora que me parece a mais luminosa: se é verdade que todos os seres humanos precisam de um “sentido” para as suas vidas, então o trabalho assume-se hoje como a principal fonte de “sentido” e até de “identidade”.

 

Os nossos antepassados eram capazes de encontrar esse “sentido” na partilha comunitária, na família, na religião, até na política. O trabalho era apenas mais uma cesta onde colocar os ovos da existência. Hoje, com a atomização crescente dos indivíduos; a desagregação da família; o recuo da religião; e o desinteresse pela política, só resta o trabalho como bússola da nossa patética travessia terrena. Somos o que fazemos. Não somos mais o que somos.

 

Quais as consequências disso?

 

Penso no sábio da TV: Por que motivo “as massas” não consomem cultura?

 

A resposta já foi dada por Aristóteles: não existe cultura sem ócio.

 

No século 19, Paul Lafargue escrevia que as sociedades antigas tinham ócio porque existiam escravos para todo o serviço. Mas, com intocável otimismo, Lafargue garantia que no futuro os escravos não seriam necessários. A evolução da técnica permitiria libertar os homens para o ócio.

 

Pobre Lafargue. Mal ele sabia que, nesse futuro, os escravos seríamos nós.

 

(João Pereira Coutinho. Folha de S.Paulo. 15.12.2015. Adaptado)

 

1 diatribe: dissertação crítica, em geral em tom exaltado

 

2 mimetizadas: disfarçadas, camulfladas

Assinale a alternativa correta a respeito das informações do texto.
  1. AO jornalista surpreende-se com o número de eruditos que sao tratados como charlatões, quando entrevistados pelos meios de comunicação.
  2. BMadeleine Bunting não critica o trabalho e procura, ainda que ingenuamente, fazer um panorama do conjunto de classes que compõe a sociedade ocidental.
  3. CO tempo ocioso, imprescindivel para que os seres humanos possam se dedicar ao lazer e à cultura, praticamente desapareceu em decorrência de nossa escravidão voluntária.
  4. DPaul Lafargue foi um visionario ao prever que, atualmente, a evolucao tecnica levaria os individuos a atribuirem o sentido da própria vida integralmente ao trabalho.
  5. EDiferentemente de nossos antepassados, conseguimos, apesar do fascinio pelos brinquedos eletrônicos, priorizar vida pessoal em detrimento da vida laboral.
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GabaritoC — O tempo ocioso, imprescindivel para que os seres humanos possam se dedicar ao lazer e à cultura, praticamente desapareceu em decorrência de nossa escravidão voluntária.

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