Questão de Português — Coerência. Coesão (Anáfora, Catáfora, Uso dos Conectores - Pronomes Relativos, Conjunções, etc) — VUNESP 2021
- Código
- vu160916
- Banca
- VUNESP
- Órgão
- Pref Piracicaba
- Ano
- 2021
- Cargo
- Prof S (Piracicaba)
Meus tempos de menino
De cedo, aprendi a subir ladeira e a pegar bonde andando. Posso dizer, com humildade orgulhosa, que tive morros e bondes no meu tempo de menino.
Eu conheci, lá longe, o sol de montanha no morro da Geada,(a) lá pelos lados do Jaguaré, de onde se avistava, mais à direita, um ponto meio preto, quase azulado, tão vistoso – o pico do Jaraguá.(b) Ah, tempos... o rio Tietê, como o Pinheiros, dava peixe, a gente atravessava os dois de balsa ou de bote, que enchiam o coração das velhas de medo e o deste aqui de um tropel.
Nossa pobreza não era envergonhada. Ainda não fora substituída pela miséria nos morros pobres, como o da Geada. Tínhamos um par de sapatos para o domingo. Só.(c) A semana tocada de tamancos ou de pés no chão.
Não há lembrança que me chegue sem os gostos. Será difícil esquecer, lá no morro, o gosto de fel do chá para os rins, chá de carquejo empurrado goela abaixo pelas mãos da minha bisavó Júlia.
Mas, se o chá de carquejo me descia brabo pela goela, como me é difícil esquecer o gosto bom do leite quente na caneca esmaltada estirada, amorosamente, pelas mãos da minha avó Nair. Sou, assim, homem de sorte. De pequeno, paparicado por avó, bisavó e doze tios e tias-avós. Muita sorte, inda agora tenho avó viva. É Nair, dona Nair, a que sabe fazer, até hoje, aos oitenta e três anos, uns olhos azuis e sararás tão femininos e bons fora da conta viajarem para os netos.
Nenhum de nós sabia dizer a palavra solidariedade. Mas, na casa de outro tio, o nosso tio Otacílio, criavam-se até filhos dos outros,(d) e estou certo de que nosso coração era simples, espichado e melhor. Não desandávamos a reclamar da vida, não nos hostilizávamos feito possessos, tocávamos a pé pra baixo e pra cima e, quando um se encontrava com o outro, a gente não dizia: “Oi!”. A gente se saudava, largo e profundo:
– Ô, batuta!
(João Antônio. Boa companhia: crônicas. Organização, introdução e notas
Humberto Werneck. São Paulo: Companhia das letras, 2005. Adaptado)
- AEu conheci, lá longe, o sol de montanha no morro da Geada...
- B... um ponto meio preto, quase azulado, tão vistoso – o pico do Jaraguá.
- CTínhamos um par de sapatos para o domingo. Só. (3o parágrafo)
- DSou, assim, homem de sorte. De pequeno, paparicado por avó...
- E... na casa de outro tio, o nosso tio Otacílio, criavam-se até filhos dos outros...