Questão de Português — Regência Nominal e Verbal (Casos Gerais) — VUNESP 2022
- Código
- vu164179
- Banca
- VUNESP
- Órgão
- CM Campo Limpo Pta
- Ano
- 2022
- Cargo
- ACom (C Limpo Pta)
Gente que vai à feira
A feira é a praia do paulistano. Muita gente vai mais para tomar sol e encontrar amigos. Compras, um pretexto. A que frequento, a do Pacaembu, tem até areia, devido a obras da prefeitura.
Em minha infância, a feira representava um castigo. Minha mãe sempre me levava à do Arouche, então a mais espaçosa e tradicional da cidade, para ajudar a carregar as cestas. Eu, que tinha o privilégio de ir ao cinema mais vezes do que qualquer garoto da rua, não podia negar-lhe essa ajuda. Sofria. Sofrimento já sentido na sexta à noite, porque sabia o que me esperava na manhã seguinte. Para que eu não fizesse cara feia, ela me comprava maçã, tremoço e rapadura. Dinheiro perdido. Nada compensava a chateação.
Já na mocidade, a feira novamente veio ao meu encontro, pois instalaram uma justamente na rua onde eu morava, nos Campos Elísios. Às 4 da matina, os caminhões começavam a descarregar toneladas de mercadorias debaixo da minha janela. Dava para dormir?
Somente décadas depois me reconciliei com esse tipo de comércio. Minha mulher é que, aos poucos, me foi revelando o encanto e os inesperados das feiras. A graça e mesmo a poesia que resultam dessa atividade a céu aberto. Para ela, os feirantes são gente boa, todos saudáveis, alegrões e solidários. E sabem preencher qualquer espaço com um gostoso clima de descontração. Minha mulher conhece a maioria pelo nome. Se por acaso esqueceu o cartão, pode levar a compra assim mesmo.
Na feira, de longe se distinguem as pessoas honestas. São as paredes, os recintos fechados, talvez, que camuflam o mau-caratismo. Entre os feirantes, na transparência da manhã, a má intenção logo é flagrada e muitas vezes acaba em corrida e pescoção.
Atualmente, feira deixou de ser coisa só de mulher. E elas próprias já não as frequentam sem antes um encontro com o espelho. Alguma displicente vaidade matutina se faz necessária.
(Coleção melhores crônicas: Marcos Rey. Seleção de Anna Maria Martins. Global, 2010. Adaptado.)
- APara o autor, a feira de bairro, atividade com quem também vai para rever amigos, é a praia do paulistano.
- BOs feirantes, dos quais a esposa do cronista atribui um juízo positivo, são simpáticos e camaradas.
- CO cronista, de quem as feiras no passado causavam ojeriza, hoje reconhece que elas contêm poesia e encantos inesperados.
- DAs feiras livres, cujo ambiente é de descontração, expõem os desonestos que, geralmente, não escapam impunes.
- EDurante sua infância, onde aos sábados devia ajudar a mãe com as compras, a feira assemelhava-se a um castigo.