Florestas são organismos vivos. Algumas árvores vivem séculos; outras, anos. Quando uma delas morre, sua quedaderruba as vizinhas e abre uma clareira de tamanho proporcional a seu porte. Nas terras firmes do Baixo Rio Negro, a taxa de mortalidade das árvores por causas naturais e formação de clareiras é de cerca de 1% ao ano por hectare.
As clareiras naturais não ficam desabitadas, pois abrem passagem a raios solaresa que vão estimular o crescimento de novos indivíduos, que ocuparão o espaço deixado livreb. Nas clareiras abertas pelos indígenas para plantio de mandiocac, a destruição é irrelevante, já que as áreas abertas têm em média de meio a um hectare. Seu uso acontece em períodos curtos de cinco a dez anos, no máximo. Como nos cinco anos finais a roça é deixada para formar capoeiras, o reflorestamento é rápido e favorece a diversificação das espécies.
Já nas clareiras produzidas pelo fogo para exploração comercial da áread, a fragmentação da mata aumenta de cinco a trinta vezes as taxas de mortalidade das árvores.
Morrerão anualmente de trinta a cento e oitenta árvorespor hectaree. O crescimento da população jovem dificilmente será capaz de repor essas perdas.
O desaparecimento de tantas árvores altera as condições climáticas no interior dos fragmentos florestais que resistiram, causando elevação da temperatura e redução da umidade. As novas condições modificam a estrutura da floresta, que se vê imediatamente invadida por cipós e trepadeiras, que levam a vantagem de não precisar investir energia na formação de caules, como as árvores são obrigadas a fazer.
(Drauzio Varella, O sentido das águas: histórias do Rio Negro, 2025. Adaptado)
Leia o texto a seguir para responder à questão. Assinale a alternativa em que o sentido da palavra destacada está corretamente indicado nos colchetes.
AAs clareiras naturais não ficam desabitadas, pois abrem passagem a raios solares… [conclusão]
B… o crescimento de novos indivíduos, que ocuparão o espaço deixado livre. [consequência]
CNas clareiras abertas pelos indígenas para plantio de mandioca… [finalidade]
DJá nas clareiras produzidas pelo fogo para exploração comercial da área… [tempo]
EMorrerão anualmente de trinta a cento e oitenta árvores por hectare. [causa]
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GabaritoC — Nas clareiras abertas pelos indígenas para plantio de mandioca… [finalidade]
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Valor semântico de preposições: finalidade, causa e companhia
Gabarito: letra C. A alternativa C é a única em que a palavra destacada — "para" — expressa finalidade, ou seja, a intenção, o objetivo da ação de abrir clareiras: "para plantio de mandioca" indica a finalidade do ato de abrir as clareiras. Isso se prova pela pergunta clássica: "abrem clareiras para quê?" — resposta: para plantar mandioca. As demais alternativas atribuem relações semânticas que o contexto não autoriza, como veremos.
O comando: identificar o sentido da palavra destacada
A questão pede que você reconheça o valor semântico de uma palavra (em geral, uma preposição ou conjunção) no contexto em que aparece. Não se trata de decorar a preposição, mas de ler a relação que ela estabelece entre as ideias. A banca VUNESP adora esse tipo de cobrança: ela dá um trecho e pede para você nomear a relação (causa, finalidade, tempo, conclusão, consequência...). O segredo é perguntar pela circunstância: "por quê?", "para quê?", "quando?", "logo o quê?" — a resposta aponta a relação.
O texto: o que está em jogo
O texto compara clareiras naturais, clareiras indígenas e clareiras por fogo comercial. No trecho da alternativa C, lemos:
"Nas clareiras abertas pelos indígenas para plantio de mandioca, a destruição é irrelevante..."
A preposição "para" liga a ação de abrir clareiras ao objetivo dessa ação: o plantio de mandioca. É uma relação de finalidade — a intenção, o propósito. Não é causa (não é porque plantam mandioca que abrem clareiras; é para plantar que abrem), não é tempo, não é consequência. A finalidade responde a "para quê?" — e aqui a resposta é clara.
A técnica: como testar cada relação
Para cada alternativa, faça a pergunta-chave da relação:
Finalidade: "para quê?" / "com que objetivo?"
Causa: "por quê?" / "por causa de quê?"
Consequência: "o que resulta disso?"
Tempo: "quando?"
Conclusão: "logo, o quê?"
Se a resposta fizer sentido com o trecho, a relação está correta; se não, é distrator.
Análise das alternativas
Preposição "para"
1Finalidade (a fim de)
"para plantio de mandioca" (C)
"para exploração comercial" (D)
2Distratores
"pois" → explicação/causa, não conclusão (A)
"que" → pronome relativo, não consequência (B)
"por hectare" → proporção, não causa (E)
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Alternativa A — ❌ Incorreta
"As clareiras naturais não ficam desabitadas, pois abrem passagem a raios solares..."
A palavra destacada é "pois". No trecho, "pois" introduz uma explicação (ou causa): as clareiras não ficam desabitadas porque abrem passagem à luz. Não é conclusão — conclusão seria "portanto", "logo". A banca tenta confundir com a conjunção conclusiva "pois" (que viria depois do verbo), mas aqui o sentido é claramente explicativo/causal. Erro: troca de relação (explicação/causa por conclusão).
Alternativa B — ❌ Incorreta
"... o crescimento de novos indivíduos, que ocuparão o espaço deixado livre."
A palavra destacada é "que". Aqui, "que" é um pronome relativo — retoma "novos indivíduos" e introduz uma oração adjetiva explicativa. Não expressa consequência. Consequência seria "de modo que", "tanto que". A banca tenta fazer você pensar que "ocuparão" é consequência do crescimento, mas sintaticamente é uma característica dos indivíduos. Erro: confundir pronome relativo com conjunção consecutiva.
Alternativa C — ✅ Correta ⟵ GABARITO
"Nas clareiras abertas pelos indígenas para plantio de mandioca..."
A preposição "para" indica finalidade: o objetivo de abrir as clareiras é o plantio. Pergunte "para quê?" — resposta: para plantar mandioca. É a única alternativa em que a relação está corretamente nomeada. A finalidade é o propósito da ação.
Alternativa D — ❌ Incorreta
"Já nas clareiras produzidas pelo fogo para exploração comercial da área..."
Aqui, "para" também indica finalidade (o objetivo é a exploração comercial), não tempo. A banca tenta confundir com a ideia de "quando" (tempo), mas o contexto é claramente de propósito. Erro: troca de finalidade por tempo.
Alternativa E — ❌ Incorreta
"Morrerão anualmente de trinta a cento e oitenta árvores por hectare."
A expressão "por hectare" indica medida/proporção (a cada hectare), não causa. Causa seria "por causa de", "devido a". A banca tenta explorar o "por" como causal, mas aqui ele tem valor de proporção (tanto por hectare). Erro: confundir proporção com causa.
Fechamento
A regra de ouro: nunca decore o sentido de uma preposição fora do contexto. Pergunte sempre pela circunstância que ela estabelece entre as ideias. Na dúvida, substitua por outra palavra de mesmo valor: se "para" pode ser trocada por "a fim de", é finalidade; se "porque" pode ser trocada por "já que", é causa. A alternativa C é a única que resiste a esse teste.
PEGA ESSA DICA!
Grife a palavra destacada e escreva ao lado a pergunta que ela responde (para quê? por quê? quando?). Isso elimina a maioria dos distratores.