Acreditou-se por muito tempo que, deixando-se de lado a Revolução Industrial, a produção de bens de consumo nunca aumentou de forma tão rápida e robusta quanto por obra da invenção da agricultura.B)Graças à agricultura, pensava-se, os grupos humanos puderam tornar-se sedentários e assegurar uma provisão regular,A) conservando os grãos. Como dispunham de excedentes, as sociedades puderam dar-se ao luxo de manter indivíduos ou classesC) ‒ chefes, nobres, sacerdotes, artesãos ‒ que não participavam da produção de alimentos. No espaço de quatro ou cinco milênios, a impulsão dada pela agricultura e mantida por ela teria levado os homens de um modo de vida precário, ameaçado pela fome, a uma existência estável, primeiro em aldeias e finalmente em impérios.
Essas eram as visões que prevaleciam até recentemente. Hoje, essa reconstrução simples e grandiosa da história humana jaz em ruínas. Pesquisas entre os povos sem agricultura, voltadas para questões como tempo de trabalho, produtividade e valor nutricional dos alimentos, demonstram que a maior parte deles leva uma vida confortável. Meios geográficos que, por ignorância de seus recursos naturais, julgávamos miseráveisD) reservam para aqueles que ali vivem grande quantidade de espécies vegetais muito apropriadas para a alimentação. Descobriu-se, por exemplo, que os indígenas das regiões desérticas da Califórnia, onde hoje uma pequena população branca subsiste com dificuldade, consumiam uma grande variedade de plantas selvagens de alto valor nutritivo.
Calculou-se que, entre os povos que viviam da caça e da coleta de produtos selvagens,E) um homem supria as necessidades de quatro ou cinco pessoas, ou seja, tinha uma produtividade superior à de muitos camponeses europeus. Além disso, o tempo gasto com a procura de alimentos não excedia a média de três horas diárias, para uma produção alimentar bastante equilibrada e que ultrapassava 2 mil calorias por pessoa (média que inclui crianças e idosos).
(Claude Lévi-Strauss. Somos todos canibais, 2022. Adaptado)
Leia o texto a seguir para responder à questão: Assinale a alternativa em cujo trecho há uma comparação.
AGraças à agricultura, pensava-se, os grupos humanos puderam tornar-se sedentários e assegurar uma provisão regular... (1º parágrafo)
B... a produção de bens de consumo nunca aumentou de forma tão rápida e robusta quanto por obra da invenção da agricultura. (1º parágrafo)
CComo dispunham de excedentes, as sociedades puderam dar-se ao luxo de manter indivíduos ou classes... (1º parágrafo)
DMeios geográficos que, por ignorância de seus recursos naturais, julgávamos miseráveis... (2º parágrafo)
ECalculou-se que, entre os povos que viviam da caça e da coleta de produtos selvagens... (3º parágrafo)
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GabaritoB — ... a produção de bens de consumo nunca aumentou de forma tão rápida e robusta quanto por obra da invenção da agricultura. (1º parágrafo)
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Comparação: a estrutura "tão... quanto" no texto
Gabarito: letra B. A alternativa B é a única que apresenta uma comparação explícita, marcada pela correlação "tão... quanto": "nunca aumentou de forma tão rápida e robusta quanto por obra da invenção da agricultura". Essa estrutura gramatical instaura uma oração subordinada adverbial comparativa, comparando a rapidez e a robustez do aumento da produção de bens de consumo (na Revolução Industrial) com aquelas atribuídas à invenção da agricultura. Nenhuma outra alternativa traz um conectivo ou estrutura comparativa; as demais expressam outras relações semânticas (causa, tempo, explicação).
O comando
O enunciado pede para assinalar a alternativa em cujo trecho há uma comparação. Isso é uma questão de gramática aplicada ao texto: não se trata de interpretar o sentido global, mas de reconhecer a relação semântica estabelecida por conectivos e estruturas sintáticas. A banca quer que você identifique, entre cinco trechos, aquele que contém uma oração subordinada adverbial comparativa — ou seja, que compara dois elementos.
O texto
O texto de Lévi-Strauss discute a visão tradicional de que a agricultura teria sido o grande motor do progresso humano, e a contesta com dados de povos caçadores-coletores. No primeiro parágrafo, o autor apresenta essa visão tradicional, e é exatamente aí que está a comparação pedida: a produção de bens de consumo "nunca aumentou de forma tão rápida e robusta quanto por obra da invenção da agricultura". A estrutura "tão... quanto" é o núcleo da comparação, pois correlaciona dois termos (a rapidez/robustez do aumento na Revolução Industrial e a rapidez/robustez do aumento pela agricultura) e estabelece uma relação de igualdade ou proporção entre eles.
A técnica que decide
A oração subordinada adverbial comparativa é introduzida por conectivos como "tão... quanto", "tanto... quanto", "mais... do que", "menos... do que", "como", "assim como", "tal qual". Ela estabelece uma comparação entre dois elementos, que podem ser substantivos, adjetivos, advérbios ou orações inteiras. No trecho da alternativa B, a comparação é feita entre a forma como a produção aumentou na Revolução Industrial e a forma como aumentou pela agricultura. A correlação "tão... quanto" é o marcador gramatical que sinaliza essa relação.
É importante não confundir a comparação com outras relações semânticas, como causa (introduzida por "como", "porque", "já que"), consequência (introduzida por "tão... que", "tanto... que") ou explicação (introduzida por "pois", "porque"). A banca costuma explorar essa confusão, oferecendo trechos com conectivos que parecem comparativos, mas que na verdade expressam outra relação. Por isso, é fundamental identificar o conectivo exato e verificar se ele estabelece uma comparação entre dois termos.
Oração subordinada adverbial comparativa: Conectivos (tão... quanto, tanto... quanto, mais... do que, menos... do que, como / assim como / tal qual); Estrutura (Compara dois elementos, Igualdade ou proporção); Confusões comuns ("como" causal (porque), "graças a" (causa), "por ignorância" (causa), "que" integrante (substantiva))
Alternativa A — ❌ Incorreta
"Graças à agricultura, pensava-se, os grupos humanos puderam tornar-se sedentários e assegurar uma provisão regular..."
O trecho traz a locução prepositiva "graças a", que expressa causa (a agricultura foi a causa de os grupos humanos se tornarem sedentários). Não há comparação entre dois elementos; há uma relação de causa e efeito. A alternativa tangencia o tema da agricultura, mas não apresenta estrutura comparativa.
Alternativa B — ✅ Correta ⟵ GABARITO
"... a produção de bens de consumo nunca aumentou de forma tão rápida e robusta quanto por obra da invenção da agricultura."
A correlação "tão... quanto" é o marcador clássico da oração subordinada adverbial comparativa. O trecho compara a rapidez e a robustez do aumento da produção de bens de consumo (na Revolução Industrial) com a rapidez e a robustez do aumento atribuído à agricultura. A estrutura é inequívoca: há dois termos sendo comparados, e o conectivo "tão... quanto" estabelece a relação de igualdade entre eles.
Alternativa C — ❌ Incorreta
"Como dispunham de excedentes, as sociedades puderam dar-se ao luxo de manter indivíduos ou classes..."
A conjunção "como" aqui tem valor causal (equivale a "porque", "já que"): as sociedades puderam manter indivíduos porque dispunham de excedentes. Não há comparação; há uma relação de causa e consequência. A alternativa contradiz a ideia de comparação ao usar "como" com valor causal.
Alternativa D — ❌ Incorreta
"Meios geográficos que, por ignorância de seus recursos naturais, julgávamos miseráveis..."
O trecho traz a locução prepositiva "por ignorância", que expressa causa (julgávamos miseráveis por causa da ignorância). Não há comparação entre dois elementos; há uma relação de causa e efeito. A alternativa tangencia o tema dos recursos naturais, mas não apresenta estrutura comparativa.
Alternativa E — ❌ Incorreta
"Calculou-se que, entre os povos que viviam da caça e da coleta de produtos selvagens..."
O trecho traz a conjunção integrante "que" (introduz a oração subordinada substantiva "que um homem supria as necessidades de quatro ou cinco pessoas") e a preposição "entre" (que indica relação de conjunto, não comparação). Não há comparação entre dois elementos; há uma relação de inclusão. A alternativa tangencia o tema dos povos caçadores-coletores, mas não apresenta estrutura comparativa.
Conclusão
A única alternativa que apresenta uma comparação explícita é a B, marcada pela correlação "tão... quanto". As demais expressam outras relações semânticas (causa, explicação, inclusão), mas nenhuma estabelece uma comparação entre dois termos. Ao resolver questões desse tipo, grife o conectivo e pergunte: "que relação ele estabelece?" — se for comparação, haverá dois elementos sendo comparados.