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Questão de Português — Interpretação de Textos (Compreensão) — VUNESP 2026

PortuguêsInterpretação de Textos (Compreensão)
Código
vu166315
Banca
VUNESP
Órgão
CM Mogi Cruzes
Ano
2026
Cargo
Ana RH ( )

Cor-de-Rosa

 

O vizinho mandou pintar de cor-de-rosa sua casa, e de azul-claro o beiral das janelas. Esta providência dá margem a algumas divagações que aqui se transmitem ao leitor, nosso companheiro. O ato do vizinho é muito mais importante do que lhe parece a ele. Afirma um sentimento de confiança na civilização mediterrânea, e o propósito de contribuir para que todos nós, residentes ou transeuntes, recuperemos um pouco da beatitude perdida.

 

De uns anos para cá as ruas passaram a ser percorridas por elementos suspeitos, que, avaliando em metros quadrados aéreos os terrenos onde se erguem as habitações humanas, logo procuram seus proprietários e lhes propõem botar aquilo no chão. A aquiescência imediata dos interpelados revela estranha propensão ao suicídio, praticado através da destruição de algo fundamental como é a casa em que vivemos.

 

Mas o vizinho reagiu contra essa psicose grupal, e dali sorriem pintadas de rosa as paredes de sua casa. Vale dizer que ele não atendeu o telefone, quando o chamaram para consultá-lo vagamente sobre a hipótese da derrubada, que não compareceu ao escritório onde peritos blandiciosos o convenceriam da inconveniência de morar à maneira antiga, metendo em brios o seu amor-próprio, pois se todo mundo desistiu de tal maneira, por que só ele continua teimando? Ou compareceu, foi amaciado, reagiu, tornaram a amaciá-lo, esteve a ponto de ceder, a vista se lhe turvou qual plúmbeo véu, eram tantos milhões de cruzeiros, mas cobrou ânimo e reagiu outra vez, o senhor é louco, não vê que a valorização naquela zona o proíbe de continuar a deter o surto imobiliário, isso é um crime, o senhor está perdendo dez mil cruzeiros por semana, onde é que anda o amor que devota a seus filhos, e o gabarito, e a vaga na garagem, e o fabuloso jardim de inverno, e o vizinho vai capitular, não, ainda, não; passa-lhe pela mente o frontispício cor-de-rosa, com elementos azuis, de uma antiga mansão onde a vida era feliz, ou pelo menos ficou sendo naquele tempo; depois que considerou bem, o vizinho enxuga o suor da testa, grita NÃÃÃO, e sai e chama o pintor e lhe ordena: pinte tudo cor-de-rosa, com os beirais e as janelas de azul de mês de Maria, quero minha casa bem bonita, como bonito era o sobradão de 1 800 e tantos onde meu bisavô nasceu, e quero ver, mas quero ver quem derruba minha casinha!

 

(Carlos Drummond de Andrade, “Cor-de-Rosa”, Disponível em: https://cronicabrasileira.org.br/cronicas/17455/cor-de-rosa. Adaptado)

Leia o texto a seguir para responder à questão     A partir da leitura da crônica, é correto afirmar que o narrador expressa sua perplexidade ao tratar
  1. Ada escolha das cores cor-de-rosa e azul-claro, ironizando o sentimentalismo de um vizinho incapaz de aceitar a realidade econômica moderna.
  2. Bda contradição entre o discurso do vizinho, que defende a preservação das casas antigas, e sua admiração velada pela força transformadora do mercado imobiliário.
  3. Cda apresentação caricatural do vizinho, descrito como um sujeito excêntrico e anacrônico, cuja resistência é tratada com condescendência benevolente.
  4. Ddo contraste entre o tom exaltado do vizinho e a ineficácia prática de seu ato, entendido como fracasso na luta contra a especulação imobiliária urbana.
  5. Eda aparente simplicidade do gesto do vizinho e seu valor simbólico, expondo a inversão de valores de uma sociedade que vê na demolição um sinal de progresso.
Revelar gabarito e comentário

GabaritoE — da aparente simplicidade do gesto do vizinho e seu valor simbólico, expondo a inversão de valores de uma sociedade que vê na demolição um sinal de progresso.

Comentário gerado por IA. É um apoio ao estudo, ancorado em fontes, mas pode conter imprecisões — confira sempre na fonte oficial (lei, súmula, edital e gabarito da banca). Encontrou um erro? Use “Reportar”.

A perplexidade do narrador diante do gesto do vizinho

Gabarito: letra E. O narrador expressa sua perplexidade ao tratar da aparente simplicidade do gesto do vizinho e seu valor simbólico, expondo a inversão de valores de uma sociedade que vê na demolição como sinal de progresso. Isso se prova no trecho em que o narrador afirma que o ato de pintar a casa "é muito mais importante do que lhe parece a ele" e que "afirma um sentimento de confiança na civilização mediterrânea", enquanto a demolição é tratada como uma "estranha propensão ao suicídio". A perplexidade está em ver um gesto simples (pintar) carregado de significado, em contraste com a pressão social pela demolição.

O comando: compreensão e interpretação

O enunciado pede que se afirme algo "a partir da leitura da crônica". Isso indica uma questão de compreensão e interpretação: a resposta deve estar ancorada no texto, mas pode envolver uma leitura das entrelinhas, especialmente do valor simbólico atribuído pelo narrador ao gesto do vizinho. Não se trata de localizar uma informação literal, mas de captar a tese do narrador sobre o significado do ato.

O texto: tema, tese e argumentos

A crônica de Drummond parte de um fato banal — o vizinho manda pintar a casa de cor-de-rosa — para desenvolver uma reflexão sobre a especulação imobiliária e a resistência a ela. O narrador vê no gesto do vizinho uma afirmação de resistência contra a "psicose grupal" de demolir casas antigas. A perplexidade do narrador está em perceber que um ato aparentemente simples (pintar a casa) carrega um valor simbólico profundo: é uma recusa à lógica do mercado, que vê na demolição um sinal de progresso. O narrador ironiza essa inversão de valores ao chamar a demolição de "estranha propensão ao suicídio" e ao descrever a pressão dos "peritos blandiciosos" que tentam convencer o vizinho a derrubar a casa.

A técnica: distinguir o concreto do simbólico

A chave para resolver esta questão é perceber que o narrador não está apenas descrevendo um fato (pintar a casa), mas atribuindo a ele um significado simbólico. A alternativa correta (E) capta exatamente isso: a "aparente simplicidade" do gesto (pintar) contrasta com seu "valor simbólico" (resistência à especulação). As alternativas incorretas falham ao restringir o alcance do texto, extrapolar informações não presentes, ou contradizer o que o narrador afirma.

Alternativa A — ❌ Incorreta

A alternativa A afirma que o narrador ironiza o "sentimentalismo de um vizinho incapaz de aceitar a realidade econômica moderna". Isso contradiz o texto: o narrador não ironiza o vizinho, mas o elogia por resistir à pressão imobiliária. O narrador chama a demolição de "estranha propensão ao suicídio" e descreve o vizinho como alguém que "reagiu contra essa psicose grupal". Não há crítica ao sentimentalismo; há admiração pela resistência.

Alternativa B — ❌ Incorreta

A alternativa B fala de uma "contradição entre o discurso do vizinho, que defende a preservação das casas antigas, e sua admiração velada pela força transformadora do mercado imobiliário". Isso extrapola o texto: o narrador não menciona nenhuma admiração do vizinho pelo mercado. Pelo contrário, o vizinho resiste firmemente, gritando "NÃÃÃO" e ordenando que pintem a casa. Não há contradição interna no discurso do vizinho.

Alternativa C — ❌ Incorreta

A alternativa C descreve o vizinho como "excêntrico e anacrônico", tratado com "condescendência benevolente". Isso restringe o texto: o narrador não trata o vizinho com condescendência, mas com respeito e admiração. O vizinho é apresentado como alguém que resiste à pressão social, não como uma figura ridícula. A palavra "excêntrico" não encontra apoio no texto.

Alternativa D — ❌ Incorreta

A alternativa D fala de "contraste entre o tom exaltado do vizinho e a ineficácia prática de seu ato, entendido como fracasso na luta contra a especulação imobiliária urbana". Isso contradiz o texto: o narrador não vê o ato do vizinho como um fracasso, mas como um ato simbólico de resistência. O narrador afirma que o ato "é muito mais importante do que lhe parece a ele" e que "afirma um sentimento de confiança na civilização mediterrânea". Não há menção a ineficácia ou fracasso.

Alternativa E — ✅ Correta ⟵ GABARITO

A alternativa E afirma que o narrador expressa sua perplexidade ao tratar da "aparente simplicidade do gesto do vizinho e seu valor simbólico, expondo a inversão de valores de uma sociedade que vê na demolição um sinal de progresso". Isso está diretamente ancorado no texto:

"O ato do vizinho é muito mais importante do que lhe parece a ele. Afirma um sentimento de confiança na civilização mediterrânea, e o propósito de contribuir para que todos nós, residentes ou transeuntes, recuperemos um pouco da beatitude perdida."

O narrador vê no gesto simples de pintar a casa um valor simbólico (resistência à especulação) e expressa perplexidade ao constatar que a sociedade vê a demolição como progresso, enquanto ele a vê como "estranha propensão ao suicídio". A alternativa E capta exatamente essa inversão de valores.

NÃO CAIA NESSA!

A banca tenta levar o candidato a interpretações literais (A, C) ou a extrapolações (B, D). A correta exige perceber o valor simbólico atribuído pelo narrador ao gesto do vizinho.

PEGA ESSA DICA!

Ao ler uma crônica, pergunte-se: qual é a tese do narrador? O que ele quer criticar ou elogiar? Aqui, a tese é a resistência à especulação imobiliária, e o gesto de pintar a casa é o símbolo dessa resistência.

Gabarito: letra E — a única alternativa que capta o valor simbólico do gesto e a inversão de valores denunciada pelo narrador.

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