Questão de Português — Interpretação de Textos (Compreensão) — VUNESP 2026
Português›Interpretação de Textos (Compreensão)
Código
vu166320
Banca
VUNESP
Órgão
CM Mogi Cruzes
Ano
2026
Cargo
Ass Ceri ( )
Natal
É época de Natal. De prendas, de frutas secas e fios dourados. De perus e bebidas várias. De plásticos. De muitos
plásticos. E de sacrifícios.
Também festa de família.
Estou numa loja. Três mocinhos semi-esfarrapados
entram. Não têm pressa. Não pedem para serem atendidos.
Os olhinhos passam de um brinquedo para outro e neles vejo
o mesmo brilho dos olhos dos meus filhos.
Timidamente, quando não se sentem observados pela
vendedora, passam a mão – um dedo só – pela carroceria
de um caminhão. Estão mudos, num mundo à parte e nem
sequer trocam olhares uns com os outros. Cada um vivendo
o sonho de uma viagem, a aventura de uma corrida.
Os compradores entram e saem atarefados. E não vejo
alegria neles. A cada presentinho, a cada pacotinho de uma
bagatela qualquer, um balanço às notas que ficam, um cálculo mental, uma decepção. E começam as lamentações que
os artigos estão caros, que a vida está cada vez mais difícil,
que já é tempo de se acabar com o Natal.
Não estou de acordo. É bom haver Natal. É bom escrever aos amigos e dizer-lhes que estão comigo o tempo todo,
apesar do meu silêncio. É bom haver Natal e poder dizer-te
que tenho saudades tuas, que te amo e te queria abraçar
forte. É bom haver Natal, quando não é época de sacrifícios
e angústias e dívidas, para se manter uma ridícula aparência
de sucesso.
(Dina Salústio. Mornas Eram as noites, 2002. Adaptado)
Leia o texto para responder à questão Com base na percepção do narrador, conclui-se corretamente que os mocinhos semi-esfarrapados
Aesquecem a sua condição social e estão envolvidos pelo sonho que o caminhão representa.
Bficam a olhar o caminhão sem pressa porque estão certos de que logo poderão comprá-lo.
Caguardam o melhor momento para chamar a vendedora, ainda que o caminhão seja caro.
Dtêm receio de adquirir o caminhão e, depois, ficarem lamentando que o produto é ruim.
Eficam tímidos quando veem a vendedora e passam a olhar desinteressadamente o caminhão.
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GabaritoA — esquecem a sua condição social e estão envolvidos pelo sonho que o caminhão representa.
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A percepção do narrador sobre os mocinhos semi-esfarrapados
Gabarito: letra A. A alternativa correta é a única que capta o que o narrador observa: os meninos, apesar da condição social humilde ("semi-esfarrapados"), esquecem-se dela ao se envolverem no sonho que o caminhão representa. Isso se prova no trecho em que o narrador descreve que eles "passam a mão – um dedo só – pela carroceria de um caminhão" e que estão "mudos, num mundo à parte", cada um "vivendo o sonho de uma viagem, a aventura de uma corrida". A letra A é uma paráfrase fiel dessa passagem.
O comando pede uma conclusão baseada na percepção do narrador — ou seja, uma inferência ancorada em pistas do texto, não uma informação literalmente escrita. O verbo "conclui-se" indica que a resposta exige deduzir algo a partir do que está descrito. A tarefa é identificar qual alternativa traduz corretamente o efeito que a cena provoca nos meninos, conforme o olhar do narrador.
O texto descreve a cena na loja: os meninos entram, não têm pressa, não pedem atendimento, e seus olhos "passam de um brinquedo para outro" com o mesmo brilho dos filhos do narrador. O ponto central está no parágrafo em que eles tocam o caminhão e se desligam do mundo real:
"Timidamente, quando não se sentem observados pela vendedora, passam a mão – um dedo só – pela carroceria de um caminhão. Estão mudos, num mundo à parte e nem sequer trocam olhares uns com os outros. Cada um vivendo o sonho de uma viagem, a aventura de uma corrida."
Aqui está a chave: o narrador não diz que eles querem comprar, que têm medo do preço ou que estão desinteressados. Ele diz que eles estão "num mundo à parte" — ou seja, desligados da realidade concreta (inclusive da condição social) — e que cada um está "vivendo o sonho". A alternativa A traduz exatamente isso: o sonho que o caminhão representa os envolve a ponto de fazerem esquecer a própria condição.
A técnica que decide esta questão é a distinção entre inferência legítima e extrapolação. Uma inferência legítima se apoia em pistas deixadas pelo texto; extrapolação acrescenta informação de fora. Vejamos como cada alternativa falha ou acerta nesse teste.
Alternativa A — ✅ Correta ⟵ GABARITO
A alternativa A afirma que os meninos "esquecem a sua condição social e estão envolvidos pelo sonho que o caminhão representa". Isso é uma paráfrase da passagem central. O texto diz que eles estão "mudos, num mundo à parte" e que cada um está "vivendo o sonho de uma viagem". O adjetivo "semi-esfarrapados" (condição social) contrasta com o "brilho" nos olhos e com o envolvimento no sonho. O narrador não diz que eles pensam em comprar; diz que eles sonham. A alternativa A capta esse deslocamento: o sonho os transporta para fora da condição social. É a única que não acrescenta nada além do que o texto autoriza.
Alternativa B — ❌ Incorreta
A alternativa B diz que eles "ficam a olhar o caminhão sem pressa porque estão certos de que logo poderão comprá-lo". O texto diz que eles "não têm pressa" e que "não pedem para serem atendidos", mas não há nenhuma pista de que estejam certos de que poderão comprar. Pelo contrário: a descrição de "semi-esfarrapados" e o fato de tocarem "timidamente" quando não se sentem observados sugere o oposto — eles não têm condição de comprar. A alternativa extrapola ao inventar uma certeza de compra que o texto não menciona. O erro é do tipo extrapolação.
Alternativa C — ❌ Incorreta
A alternativa C afirma que eles "aguardam o melhor momento para chamar a vendedora, ainda que o caminhão seja caro". O texto diz que eles "não pedem para serem atendidos" e que tocam o caminhão "quando não se sentem observados pela vendedora". Isso indica que eles evitam a vendedora, não que aguardam o momento de chamá-la. A alternativa contradiz o texto ao inverter a relação: o texto mostra timidez e desejo de não serem vistos; a alternativa C transforma isso em estratégia de compra. O erro é do tipo contradiz_texto.
Alternativa D — ❌ Incorreta
A alternativa D diz que eles "têm receio de adquirir o caminhão e, depois, ficarem lamentando que o produto é ruim". O texto não menciona nenhuma preocupação com a qualidade do produto ou com arrependimento de compra. Essa ideia é completamente estranha ao texto — é uma extrapolação que usa o senso comum sobre compras para preencher uma lacuna que o narrador não preencheu. O texto fala de sonho e encantamento, não de receio de mau negócio. O erro é do tipo fora_do_escopo.
Alternativa E — ❌ Incorreta
A alternativa E afirma que eles "ficam tímidos quando veem a vendedora e passam a olhar desinteressadamente o caminhão". Há dois erros aqui. Primeiro, o texto diz que eles tocam o caminhão "quando não se sentem observados pela vendedora" — a timidez é em relação a serem vistos, não ao verem a vendedora. Segundo, o texto diz que eles estão "mudos, num mundo à parte" e "vivendo o sonho" — isso é o oposto de "desinteressadamente". A alternativa contradiz o texto ao trocar o encantamento por desinteresse. O erro é do tipo contradiz_texto.
NÃO CAIA NESSA!
A banca explora a confusão entre o que está explícito (timidez, não ter pressa) e o efeito de sentido (envolvimento no sonho). As alternativas B, C, D e E pegam palavras soltas do texto ("sem pressa", "timidamente", "vendedora") e as reorganizam em histórias que o narrador não conta. A correta é a única que mantém o sentido global da cena.
PEGA ESSA DICA!
Em questões de inferência, pergunte sempre: "o texto autoriza esta conclusão, ou exige que eu acrescente algo de fora?". Se a alternativa depende de uma suposição que não está nas pistas (como "certos de que poderão comprar" ou "receio de produto ruim"), ela é extrapolação — e extrapolação é erro.
Conclusão: a letra A é a única inteiramente sustentada pelo texto. As demais ou extrapolam (B, D), ou contradizem a cena descrita (C, E). A regra de ouro: a resposta mora no texto — nem mais, nem menos do que ele diz.