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Questão de Português — Interpretação de Textos (Compreensão) — VUNESP 2026

PortuguêsInterpretação de Textos (Compreensão)
Código
vu166329
Banca
VUNESP
Órgão
Pref SJRP
Ano
2026
Cargo
Biom ( )

A Velha

 

A velha era felicíssima. Pois não é verdade que tinha uma boa vida e nada lhe faltava? Só nessa manhã tinha encontrado um lugar vago num banco de jardim, nem demasiado à sombra nem demasiado ao sol, o elétrico1 não vinha excessivamente cheio e também conseguiu lugar, o padeiro disse-lhe bom dia com um ar tão simpático, quando ela deixou em cima do balcão o dinheiro de três carcaças2, e o empregado da mercearia ficou a conversar depois de lhe dar o troco e perguntou-lhe se gostava daquela nova marca de café.

 

Nos meses mais quentes tirava um passe de terceira idade e passeava. No inverno não valia a pena, estava frio e vinha logo a chuva e preferia não sair, por causa do reumatismo.

 

Mas, saindo só nos meses mais bonitos, o passe ficava ainda mais barato. Se fizesse a conta do preço a dividir por doze (ah, sabia bem fazer contas, sempre tinha sido esperta na escola) pois se fizesse a conta a dividir por doze ainda era menos que pagava pelo passe.

 

Gostava sobretudo do elétrico da circulação, dava a volta à cidade sem ter de sair, e ainda por cima bem instalada, conseguia ficar quase sempre ao pé da janela. Ou, se não conseguisse na primeira volta, era certo que conseguia na segunda, porque, entretanto, sairia quem fosse à janela e era só empurrar-se um pouco e ocupar o lugar do outro, e então sim, via tudo como se estivesse no cinema.

 

Ao cinema propriamente ia pouco, há vários anos até que já não ia. Não era só por ser caro, é que às vezes as cadeiras estavam gastas e faziam-lhe doer as costas, e também nunca sabia se ia gostar dos filmes. E se não gostasse não podia fazer como na televisão e mudar de canal ou desligar, tinha de aguentar até ao fim, ou sair. E era um grande desconsolo sair a meio, já lhe tinha acontecido mais do que uma vez.

 

Por isso não ia cinema. Televisão via bastante, claro, mas dava-lhe mais gozo andar de elétrico. Em vez de ficar fechada em casa, andava no meio das pessoas e das ruas, mas sem se cansar, bem sentada. Gozando o espetáculo dos outros — olha ali aquela montra3 iluminada, aquele homem a correr, aquela mulher ajoujada4 com o cesto das couves. E ela ali, recostada na cadeira, sem carregar pesos, nem sequer o peso do seu próprio corpo — dava-lhe vontade de rir, tamanha facilidade.

 

(Teolinda Gersão. Histórias de Ver e Andar, 2002. Adaptado)

 

1 bonde

2 pãezinhos

3 vitrine

4 sobrecarregada

Leia o texto para responder à questão:     O texto tem a intenção de
  1. Aretratar fatos exóticos da rotina da Velha, os quais contradizem, de forma inequívoca, a ideia de que ela fosse uma pessoa dotada de extrema felicidade da vida.
  2. Bdesvelar o cotidiano enfadonho vivido pela Velha que, cansada dos passeios no bonde, decide transformar sua vida e buscar a verdadeira felicidade.
  3. Cenfatizar a vida de luxo e de ostentação da Velha, que é pouco afeita à vida social e tem uma relação interpessoal marcada pela frieza e pelo distanciamento.
  4. Dapresentar algumas facetas da vida da Velha, deixando evidente que a sua felicidade não está associada, necessariamente, a questões de ordem financeira.
  5. Emostrar as lembranças que supostamente trazem a sensação de felicidade à Velha, pelo fato de ter vivido outrora dias de grande prestígio social e econômico.
Revelar gabarito e comentário

GabaritoD — apresentar algumas facetas da vida da Velha, deixando evidente que a sua felicidade não está associada, necessariamente, a questões de ordem financeira.

Comentário gerado por IA. É um apoio ao estudo, ancorado em fontes, mas pode conter imprecisões — confira sempre na fonte oficial (lei, súmula, edital e gabarito da banca). Encontrou um erro? Use “Reportar”.

A intenção do texto: apresentar facetas da vida da Velha e sua felicidade desvinculada do financeiro

Gabarito: letra D. O texto tem a intenção de apresentar algumas facetas da vida da Velha, deixando evidente que a sua felicidade não está associada, necessariamente, a questões de ordem financeira. Isso se prova pela abertura — "A velha era felicíssima. Pois não é verdade que tinha uma boa vida e nada lhe faltava?" — e pelo desenvolvimento, que mostra a felicidade dela em pequenos prazeres cotidianos (o lugar no banco, o passe de terceira idade, o elétrico), sem qualquer menção a luxo ou riqueza. A alternativa D é a única que sintetiza o conjunto de situações apresentadas sem acrescentar ou distorcer informações.

O comando pede que se identifique a intenção do texto, ou seja, o propósito comunicativo global. Isso é diferente de uma questão de compreensão pontual (que localiza uma informação explícita) ou de inferência (que deduz algo das entrelinhas). Aqui, é preciso captar o tema (sobre o quê o texto fala) e a tese (o que o autor pensa sobre esse tema), que se manifestam na introdução e na conclusão. A introdução já anuncia: "A velha era felicíssima". A conclusão reforça: "dava-lhe vontade de rir, tamanha facilidade". O texto inteiro é uma exemplificação dessa felicidade, mostrando cenas do cotidiano da personagem.

A técnica central para resolver é testar cada alternativa contra o texto: a correta deve ser uma paráfrase fiel do que está escrito, sem acrescentar, restringir ou contradizer. As distratoras cometem erros clássicos: extrapolam (inventam causas ou sentimentos), restringem (transformam uma possibilidade em certeza absoluta) ou tangenciam (falam de assunto correlato, mas que o texto não aborda). Vamos analisar cada uma.

PEGA ESSA DICA!

Ao identificar a intenção do texto, pergunte-se: "o que o autor quer mostrar com tudo isso?" A resposta está na soma das partes, não em um detalhe isolado. Grife a frase que abre e a que fecha o texto — elas costumam conter a tese.

Intenção do texto
  • 1Tema
    • Cotidiano simples da Velha
  • 2Tese
    • Felicidade desvinculada do financeiro
  • 3Como se prova
    • Abertura: "felicíssima"
    • Pequenos prazeres (banco, elétrico, passe)
    • Conclusão: "vontade de rir"
  • 4Erros das distratoras
    • Contradição (inverte o texto)
    • Extrapolação (inventa causas/sentimentos)
    • Termos absolutos ("inequivocamente")
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Alternativa A — ❌ Incorreta

Erro: contradiz o texto. A alternativa afirma que os fatos "contradizem, de forma inequívoca, a ideia de que ela fosse uma pessoa dotada de extrema felicidade". O texto, porém, afirma exatamente o oposto na primeira linha: "A velha era felicíssima". Além disso, os fatos narrados (o lugar no banco, o passe, o elétrico) não são "exóticos" — são cenas banais do cotidiano. A alternativa inverte o sentido central do texto.

Alternativa B — ❌ Incorreta

Erro: extrapola. O texto não diz que a Velha está "cansada dos passeios no bonde" nem que "decide transformar sua vida e buscar a verdadeira felicidade". Pelo contrário, ela gosta do elétrico: "Gostava sobretudo do elétrico da circulação". A ideia de "cotidiano enfadonho" e de uma "busca" por felicidade é uma invenção que não tem apoio em nenhuma passagem. A alternativa projeta no texto um enredo de insatisfação e mudança que não existe.

Alternativa C — ❌ Incorreta

Erro: contradiz e extrapola. O texto não fala em "vida de luxo e de ostentação". A Velha "tirava um passe de terceira idade" e "fazia contas" para economizar — sinais de uma vida modesta, não luxuosa. Também não há "frieza e distanciamento" nas relações: o padeiro "disse-lhe bom dia com um ar tão simpático" e o empregado da mercearia "ficou a conversar". A alternativa atribui ao texto características que ele não contém e contradiz as que estão presentes.

Alternativa D — ✅ Correta ⟵ GABARITO

A alternativa é uma síntese fiel. O texto apresenta "algumas facetas da vida da Velha": a manhã agradável (banco, elétrico, padeiro, mercearia), o passe de terceira idade, o passeio no elétrico, a preferência pela televisão. E deixa evidente que a felicidade dela não está ligada a dinheiro: ela se alegra com coisas simples e gratuitas. Veja a passagem que sustenta isso:

"A velha era felicíssima. Pois não é verdade que tinha uma boa vida e nada lhe faltava?"

A pergunta retórica "nada lhe faltava" indica que a felicidade vem da satisfação com o que se tem, não da posse de bens. E o trecho final reforça: "dava-lhe vontade de rir, tamanha facilidade" — a felicidade está na facilidade de aproveitar o espetáculo da rua sem custo. A alternativa D capta exatamente esse movimento: mostrar facetas da vida e a felicidade desvinculada do financeiro.

Alternativa E — ❌ Incorreta

Erro: extrapola. O texto não menciona "lembranças" de "dias de grande prestígio social e econômico". A Velha não recorda um passado glorioso; ela vive o presente com prazer. A palavra "outrora" e a ideia de "prestígio social e econômico" são completamente estranhas ao texto, que foca no cotidiano atual da personagem. A alternativa inventa um passado que não está narrado.

NÃO CAIA NESSA!

A banca explora a extrapolação (alternativas B e E) e a contradição (alternativas A e C). A alternativa D é a única que permanece dentro dos limites do texto, sem acrescentar nada de fora. Desconfie de alternativas que usam palavras absolutas como "inequivocamente" (A) ou que introduzem motivações psicológicas não mencionadas (B, E).

Conclusão: a intenção do texto é apresentar o cotidiano simples da Velha e mostrar que sua felicidade independe de riqueza. A alternativa D é a única que sintetiza isso sem distorcer. Gabarito: letra D.

PEGA ESSA DICA!

Para questões de "intenção do texto", elimine alternativas que (1) contradizem uma afirmação explícita, (2) acrescentam causas ou sentimentos não ditos, (3) usam termos absolutos. A correta é a que resume o todo com fidelidade.

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