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Questão de Português — Interpretação de Textos (Compreensão) — VUNESP 2026

PortuguêsInterpretação de Textos (Compreensão)
Código
vu166330
Banca
VUNESP
Órgão
Pref SJRP
Ano
2026
Cargo
Biom ( )

A Velha

 

A velha era felicíssima. Pois não é verdade que tinha uma boa vida e nada lhe faltava? Só nessa manhã tinha encontrado um lugar vago num banco de jardim, nem demasiado à sombra nem demasiado ao sol, o elétrico1 não vinha excessivamente cheio e também conseguiu lugar, o padeiro disse-lhe bom dia com um ar tão simpático, quando ela deixou em cima do balcão o dinheiro de três carcaças2, e o empregado da mercearia ficou a conversar depois de lhe dar o troco e perguntou-lhe se gostava daquela nova marca de café.

 

Nos meses mais quentes tirava um passe de terceira idade e passeava. No inverno não valia a pena, estava frio e vinha logo a chuva e preferia não sair, por causa do reumatismo.

 

Mas, saindo só nos meses mais bonitos, o passe ficava ainda mais barato. Se fizesse a conta do preço a dividir por doze (ah, sabia bem fazer contas, sempre tinha sido esperta na escola) pois se fizesse a conta a dividir por doze ainda era menos que pagava pelo passe.

 

Gostava sobretudo do elétrico da circulação, dava a volta à cidade sem ter de sair, e ainda por cima bem instalada, conseguia ficar quase sempre ao pé da janela. Ou, se não conseguisse na primeira volta, era certo que conseguia na segunda, porque, entretanto, sairia quem fosse à janela e era só empurrar-se um pouco e ocupar o lugar do outro, e então sim, via tudo como se estivesse no cinema.

 

Ao cinema propriamente ia pouco, há vários anos até que já não ia. Não era só por ser caro, é que às vezes as cadeiras estavam gastas e faziam-lhe doer as costas, e também nunca sabia se ia gostar dos filmes. E se não gostasse não podia fazer como na televisão e mudar de canal ou desligar, tinha de aguentar até ao fim, ou sair. E era um grande desconsolo sair a meio, já lhe tinha acontecido mais do que uma vez.

 

Por isso não ia cinema. Televisão via bastante, claro, mas dava-lhe mais gozo andar de elétrico. Em vez de ficar fechada em casa, andava no meio das pessoas e das ruas, mas sem se cansar, bem sentada. Gozando o espetáculo dos outros — olha ali aquela montra3 iluminada, aquele homem a correr, aquela mulher ajoujada4 com o cesto das couves. E ela ali, recostada na cadeira, sem carregar pesos, nem sequer o peso do seu próprio corpo — dava-lhe vontade de rir, tamanha facilidade.

 

(Teolinda Gersão. Histórias de Ver e Andar, 2002. Adaptado)

 

1 bonde

2 pãezinhos

3 vitrine

4 sobrecarregada

Leia o texto para responder à questão:     O texto deixa claro que a Velha
  1. Aera fã de televisão e só trocava essa diversão pelo cinema, que frequentava mesmo que as cadeiras gastas fizessem suas costas doerem.
  2. Bgostava de andar de bonde, preferindo sentar-se à janela, onde se via livre de pesos e assistia a tudo o que se passava na rua.
  3. Cia raramente ao cinema, porque tinha medo de assistir a um filme de que não gostasse, o que até então nunca lhe havia ocorrido.
  4. Dtinha vontade de rir quando estava no bonde, pois via a correria das pessoas pelas ruas e julgava que elas desprezavam esse transporte.
  5. Etinha grande satisfação de andar de bonde pela cidade, mas só entrava em um quando havia um lugar livre à janela para se acomodar.
Revelar gabarito e comentário

GabaritoB — gostava de andar de bonde, preferindo sentar-se à janela, onde se via livre de pesos e assistia a tudo o que se passava na rua.

Comentário gerado por IA. É um apoio ao estudo, ancorado em fontes, mas pode conter imprecisões — confira sempre na fonte oficial (lei, súmula, edital e gabarito da banca). Encontrou um erro? Use “Reportar”.

O prazer da Velha no bonde

Gabarito: letra B. O texto deixa claro que a Velha gostava de andar de bonde, preferindo sentar-se à janela, onde se via livre de pesos e assistia a tudo o que se passava na rua — exatamente o que se lê no 4º e 6º parágrafos. A alternativa B é uma paráfrase fiel de passagens como "Gostava sobretudo do elétrico da circulação" e "conseguia ficar quase sempre ao pé da janela", além de "sem carregar pesos" e "Gozando o espetáculo dos outros". As demais alternativas ou extrapolam (acrescentam informações que o texto não traz) ou contradizem o que está escrito.

O comando

O enunciado pede o que o texto "deixa claro" — ou seja, uma questão de compreensão/recorrência: a resposta deve ser uma reescritura fiel de uma informação explícita, sem deduções nem acréscimos. Não se trata de inferir algo nas entrelinhas; basta localizar a passagem que sustenta a alternativa e conferir se ela diz exatamente aquilo.

O texto

O texto narra o prazer simples da Velha em andar de bonde (elétrico). O 4º parágrafo é o coração da questão: ela "gostava sobretudo do elétrico da circulação", "conseguia ficar quase sempre ao pé da janela" e, quando não conseguia na primeira volta, "era certo que conseguia na segunda". O 6º parágrafo reforça: "dava-lhe mais gozo andar de elétrico", "andava no meio das pessoas e das ruas, mas sem se cansar, bem sentada", "Gozando o espetáculo dos outros" e "sem carregar pesos". A alternativa B junta esses elementos com precisão.

A técnica que decide

Em questões de compreensão, o método é: teste cada alternativa perguntando "onde o texto autoriza isto?". A correta é a única que encontra respaldo literal; as erradas caem em armadilhas típicas:

  • Extrapolação: acrescentar um detalhe que o texto não menciona (ex.: "medo", "desprezo", "só entra quando há lugar à janela").

  • Contradição: inverter uma informação (ex.: dizer que ela frequentava o cinema quando o texto afirma o contrário).

  • Restrição indevida: usar palavras absolutas como "só", "apenas", "sempre" que o texto não sustenta.

Aqui, a banca adora extrapolar com um fato plausível — como o "medo" de não gostar do filme — que parece razoável, mas não está no texto.

Alternativa A — ❌ Incorreta

A alternativa diz que a Velha "era fã de televisão e só trocava essa diversão pelo cinema, que frequentava mesmo que as cadeiras gastas fizessem suas costas doerem". O texto afirma o oposto: "Ao cinema propriamente ia pouco, há vários anos até que já não ia" e "Por isso não ia cinema". Ela não frequentava o cinema; as cadeiras gastas eram um dos motivos para não ir. A alternativa contradiz o texto e ainda extrapola ao chamá-la de "fã de televisão" — o texto diz apenas que "Televisão via bastante", sem juízo de fã.

Alternativa B — ✅ Correta ⟵ GABARITO

A alternativa é uma paráfrase exata. Veja as passagens que a sustentam:

"Gostava sobretudo do elétrico da circulação, dava a volta à cidade sem ter de sair, e ainda por cima bem instalada, conseguia ficar quase sempre ao pé da janela."

"Gozando o espetáculo dos outros — olha ali aquela montra iluminada, aquele homem a correr, aquela mulher ajoujada com o cesto das couves. E ela ali, recostada na cadeira, sem carregar pesos, nem sequer o peso do seu próprio corpo."

"Gostava de andar de bonde" = "Gostava sobretudo do elétrico"; "preferindo sentar-se à janela" = "conseguia ficar quase sempre ao pé da janela"; "se via livre de pesos" = "sem carregar pesos"; "assistia a tudo o que se passava na rua" = "Gozando o espetáculo dos outros". Nenhum termo foi acrescentado ou distorcido.

Alternativa C — ❌ Incorreta

A alternativa afirma que ela "ia raramente ao cinema, porque tinha medo de assistir a um filme de que não gostasse, o que até então nunca lhe havia ocorrido". O texto diz que ela "ia pouco" e que "nunca sabia se ia gostar dos filmes" — mas não diz que tinha medo, e muito menos que "nunca lhe havia ocorrido" não gostar. Na verdade, o texto afirma o contrário: "E se não gostasse não podia fazer como na televisão e mudar de canal... tinha de aguentar até ao fim, ou sair. E era um grande desconsolo sair a meio, já lhe tinha acontecido mais do que uma vez." Ou seja, já tinha acontecido de não gostar. A alternativa extrapola (o "medo") e contradiz (o "nunca lhe havia ocorrido").

Alternativa D — ❌ Incorreta

A alternativa diz que ela "tinha vontade de rir quando estava no bonde, pois via a correria das pessoas pelas ruas e julgava que elas desprezavam esse transporte". O texto realmente diz "dava-lhe vontade de rir, tamanha facilidade" — mas a causa é a facilidade de estar sentada sem carregar pesos, não a suposição de que as pessoas desprezavam o bonde. Essa ideia de "desprezo" é uma extrapolação pura: o texto não diz que as pessoas desprezavam o transporte, apenas descreve a correria delas. A alternativa troca a causa e acrescenta opinião.

Alternativa E — ❌ Incorreta

A alternativa afirma que ela "só entrava em um [bonde] quando havia um lugar livre à janela para se acomodar". O texto diz que ela "conseguia ficar quase sempre ao pé da janela" e que, se não conseguisse na primeira volta, "era certo que conseguia na segunda" — ou seja, ela entrava mesmo sem lugar à janela e esperava a próxima volta. A palavra "só" restringe indevidamente o que o texto afirma. Ela não condicionava a entrada à existência do lugar; apenas preferia a janela. Restrição por absoluto.

NÃO CAIA NESSA!

A banca explora a extrapolação — alternativas que parecem verdadeiras no mundo real (como o "medo" de filme ruim) mas que o texto não menciona. Desconfie de palavras absolutas como "só", "apenas", "sempre" e de causas que você mesmo inventou.

PEGA ESSA DICA!

Em questões de compreensão, grife no texto a passagem que sustenta a alternativa correta e compare palavra por palavra. Se a alternativa acrescentar um detalhe que você não consegue apontar no texto, ela está errada.

Conclusão: a única alternativa inteiramente sustentada pelo texto é a B, pois parafraseia com fidelidade as passagens sobre o gosto da Velha pelo bonde, a preferência pela janela, a liberdade de pesos e o prazer de observar a rua. As demais ou contradizem o texto (A, C), ou extrapolam causas e opiniões (D), ou restringem com "só" (E).

Gabarito: letra B

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