Ontem, presenciei uma cena que me pareceu, salvo engano, uma pequena, incisiva e inefável lição de vida. Eis o episódio: – estava eu na esquina de Carioca com Uruguaiana. Fecha o sinal. Os homens estacam para o surdo escoamento dos veículos. E, súbito, uma voz gaiata anuncia: – “Olha o rapa!”. O que houve, a seguir, foi um desses espasmos coletivos, que só o Tolstoi de Guerra e Paz ousaria descrever.
Vi a histeria dos outros e a minha própria. Todos se arremessaram: – senhoras honestíssimas, mestres do direito, psiquiatras, intelectuais, viúvas, mata-mosquitos. O medo é um grande e eficaz nivelador. Sob o estímulo da pusilanimidade, tubarões e pés-rapados largam a mesma baba, elástica e bovina. O pior de tudo foi o seguinte: – era rebate falso. Não havia rapa nenhum. Imediatamente as caras começaram a resplandecer, já lavadas do medo, numa cínica, numa deslavada euforia. O último a recuperar um pouco de harmonia interior foi um psicanalista célebre. Cobra tão caro, o homem, que o cliente tem que ser, no mínimo, um estabelecimento bancário para suportar-lhe os preços. E tinha náuseas de pavor homérico.
(Nelson Rodrigues, “Rigoletto de lança-perfume”. Em: À sombra das chuteiras imortais: crônicas de futebol. Adaptado)
Inefável: indescritível; encantadora
Pusilanimidade: medo, covardia
Deslavada: descarada
Leia o trecho a seguir, da crônica de Nelson Rodrigues, para responder à questão: A construção entre parênteses que substitui o trecho destacado, de acordo com a norma-padrão de regência verbal e crase, é:
AO último a recuperar um pouco de harmonia interior... (voltar à harmonia)
B... o cliente tem que ser, no mínimo, um estabelecimento bancário... (se obriga à uma condição de)
C... só o Tolstoi de Guerra e Pazousaria descrever. (se atreveria à descrever)
D... tubarões e pés-rapados largam a mesma baba... (soltam à mesma baba)
EOntem presenciei uma cena... (assisti à uma cena)
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GabaritoA — O último a recuperar um pouco de harmonia interior... (voltar à harmonia)
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Crase e regência verbal: a substituição correta
Gabarito: letra A. A alternativa A é a única em que a substituição respeita a norma-padrão de regência e crase: "voltar à harmonia" — o verbo "voltar" exige a preposição "a" (voltar a algum lugar), e "harmonia" é um substantivo feminino que admite o artigo "a", gerando a fusão "à". Como se lê no texto: "O último a recuperar um pouco de harmonia interior" — a ideia de retorno à harmonia interior é exatamente o que a expressão "voltar à harmonia" preserva, com a crase correta.
A questão pede que você avalie substituições entre parênteses para trechos destacados da crônica, verificando se a reescrita está de acordo com a regência verbal e o uso da crase. O comando é de reescritura com correção gramatical: não se trata de interpretar o sentido, mas de conferir se a nova construção obedece à norma-padrão. Para resolver, é preciso dominar duas regras: (1) a regência de cada verbo (quem volta, volta a; quem assiste, assiste a; quem se atreve, atreve-se a; quem solta, solta algo — sem preposição) e (2) a crase, que ocorre quando a preposição "a" se funde com o artigo feminino "a" ou com o "a" inicial de pronomes demonstrativos/relativos.
A crase é o fenômeno da fusão de duas vogais "a": a preposição "a" (exigida pelo verbo ou nome) + o artigo definido feminino "a" (que antecede um substantivo feminino determinado). Para saber se há crase, o macete é trocar a palavra feminina por uma masculina: se aparecer "ao", há crase; se aparecer apenas "o", não há. Exemplo: "voltar à harmonia" → "voltar ao equilíbrio" (aparece "ao", logo há crase). Já em "soltam a mesma baba" → "soltam o mesmo líquido" (aparece "o", sem "ao", logo não há crase).
A armadilha central desta questão é a troca de vocábulo que altera a regência: as alternativas erradas usam verbos com regências diferentes das do texto, ou empregam a crase onde ela é proibida (antes de verbo, antes de "uma", antes de palavra masculina). A banca VUNESP adora testar se o candidato sabe que crase antes de verbo é proibida e que "a" antes de artigo indefinido "uma" não leva crase.
NÃO CAIA NESSA!
A banca mistura regências diferentes — "assistir" (ver) exige preposição, mas "assistir" (ajudar) não; "se atrever" exige preposição, mas "ousar" não; "soltar" é transitivo direto, sem preposição. A crase só é correta quando há preposição + artigo feminino, o que só ocorre na alternativa A.
PEGA ESSA DICA!
Antes de marcar, teste cada substituição com o macete da troca por palavra masculina: se aparecer "ao", há crase; se aparecer só "o", não há. E desconfie de crase antes de verbo ou de "uma" — é sempre proibida.
Alternativa
Reescrita
Verbo/Expressão
Regência
Crase
Correto?
A
voltar à harmonia
voltar
Exige prep. "a"
"harmonia" admite artigo "a" → fusão "à"
✅ Correta
B
se obriga à uma condição de
obrigar-se
Exige prep. "a"
Proibida antes de "uma" (artigo indefinido)
❌ Incorreta
C
se atreveria à descrever
atrever-se
Exige prep. "a"
Proibida antes de verbo
❌ Incorreta
D
soltam à mesma baba
soltar
Transitivo direto (sem prep.)
Indevida (não há preposição)
❌ Incorreta
E
assisti à uma cena
assistir (ver)
Exige prep. "a"
Proibida antes de "uma" (artigo indefinido)
❌ Incorreta
Crase: Ocorre (preposição + artigo) (Voltar à harmonia, Troca por "ao" confirma); Proibida (Antes de verbo, Antes de "uma", Antes de palavra masculina); Regência do verbo (Exige preposição (assistir a), Transitivo direto (soltar algo))
Alternativa A — ✅ Correta ⟵ GABARITO
A substituição "voltar à harmonia" está correta. O verbo "voltar" rege a preposição "a" (quem volta, volta a algum lugar), e "harmonia" é substantivo feminino que admite o artigo "a". A fusão preposição + artigo gera a crase: "voltar à harmonia". No texto, a passagem "O último a recuperar um pouco de harmonia interior" expressa exatamente a ideia de retorno à harmonia interior, e a reescrita preserva o sentido com a regência e a crase corretas.
Alternativa B — ❌ Incorreta
A substituição "se obriga à uma condição de" está errada por dois motivos: (1) o verbo "obrigar" rege a preposição "a", mas o termo seguinte é "uma condição" — e crase antes do artigo indefinido "uma" é proibida, pois não há artigo definido feminino para fundir com a preposição; (2) a construção "à uma" é um erro clássico de crase. O correto seria "se obriga a uma condição de", sem crase. A alternativa extrapola ao inserir uma regência que o texto não autoriza.
Alternativa C — ❌ Incorreta
A substituição "se atreveria à descrever" está errada: crase antes de verbo é proibida. O verbo "atrever-se" rege a preposição "a" (atrever-se a algo), mas o complemento é o verbo "descrever" no infinitivo — e não se usa crase antes de verbo. O correto seria "se atreveria a descrever", sem acento grave. A alternativa contradiz a regra de crase proibida antes de verbos.
Alternativa D — ❌ Incorreta
A substituição "soltam à mesma baba" está errada: o verbo "soltar" é transitivo direto, ou seja, não exige preposição. Quem solta, solta algo — sem "a". Portanto, não há preposição para fundir com o artigo, e a crase é indevida. O correto seria "soltam a mesma baba", sem acento grave. A alternativa contradiz a regência do verbo "soltar".
Alternativa E — ❌ Incorreta
A substituição "assisti à uma cena" está errada: crase antes do artigo indefinido "uma" é proibida. O verbo "assistir" no sentido de "ver" rege a preposição "a" (assistir a algo), mas o termo seguinte é "uma cena" — e não há artigo definido feminino para fundir. O correto seria "assisti a uma cena", sem crase. A alternativa extrapola ao aplicar crase onde o artigo indefinido impede a fusão.
Gabarito: letra A. A única substituição que respeita a norma-padrão é "voltar à harmonia", pois o verbo "voltar" exige preposição "a" e "harmonia" admite artigo feminino, gerando a crase correta. As demais erram ao usar crase antes de verbo (C), antes de "uma" (B e E) ou ao ignorar a regência de verbo transitivo direto (D).