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Questão de Português — Interpretação de Textos (Compreensão) — VUNESP 2026

PortuguêsInterpretação de Textos (Compreensão)
Código
vu166437
Banca
VUNESP
Órgão
PM SP
Ano
2026
Cargo
2º Ten ( )

Alucinações musicais

 

Às vezes a imaginação musical normal transpõe um limite e se torna, por assim dizer, patológica, como quando determinado fragmento de uma música se repete incessantemente por dias a fio e às vezes nos irrita. Essas repetições, em geral uma frase ou tema breve e bem definido de três ou quatro compassos, tendem a continuar por horas ou dias, circulando na mente, antes de desaparecer pouco a pouco. Essa repetição interminável e o fato de que a música em questão pode ser banal ou sem graça, não nos agradar ou até mesmo ser abominável, indica um processo coercivo: a música entrou e subverteu uma parte do cérebro, forçando-o a disparar de maneira repetitiva e autônoma (como pode ocorrer com um tique ou uma convulsão). Vem daí o termo em inglês earworms (algo como “vermes de ouvido”).

 

Obviamente, na própria música existem tendências inerentes à reiteração. Nossos poemas, baladas e canções são ricos em repetições. Cada obra de música clássica possui suas marcas para indicar as repetições ou variações sobre um tema, e os nossos maiores compositores são mestres da repetição; as rimas infantis e as cantigas que ensinamos às crianças pequenas têm coros e refrões. Somos atraídos pela repetição, mesmo quando adultos; queremos o estímulo e a recompensa várias vezes, e a música nos dá.

 

Embora sem dúvida existam earworms desde que nossos antepassados pela primeira vez tocaram notas em flautas de osso ou tamborilaram em troncos caídos, é significativo que o termo só tenha entrado para o uso comum em décadas recentes. Quando Mark Twain escrevia sobre o assunto nos anos 1870, havia bastante música para se ouvir, mas ela não era onipresente. Para ouvir música instrumental, quem não possuía piano ou outro instrumento em casa tinha de ir à igreja ou a um concerto. Tudo isso mudou radicalmente com o advento das gravações, das transmissões radiofônicas e dos filmes. De repente, a música passou a estar por toda parte, e a magnitude dessa disponibilidade multiplicou-se muitas vezes nas duas últimas décadas. Hoje estamos cercados por um incessante bombardeio musical, queiramos ou não.

 

Metade de nós vive plugada em iPods, 24 horas imersa em concertos com repertório da própria escolha, praticamente alheia ao ambiente. E para quem não está plugado há a música incessante, inevitável e muitas vezes ensurdecedora nos restaurantes, bares, lojas e academias. Essa barragem musical gera certa tensão em nosso sistema auditivo primorosamente sensível, o qual não pode ser sobrecarregado sem temíveis consequências. Uma delas é a grave perda de audição encontrada em parcelas cada vez maiores da população, mesmo entre os jovens e particularmente entre os músicos. Outra são as irritantes músicas que não saem da cabeça, que chegam sem ser chamadas e só vão embora quando bem entendem. Podem não passar de anúncios de creme dental, mas neurologicamente são irresistíveis.

 

(Oliver Sacks, Alucinações musicais: relatos sobre a música e o cérebro. Adaptado)

Leia o texto a seguir para responder a questão:

   

Em relação às earworms, é correto afirmar que o autor

  1. Aexplica o surgimento recente do fenômeno como consequência direta da perda auditiva provocada pelo excesso de ruído no mundo moderno.
  2. Bestabelece uma oposição entre a repetição como recurso estético da música e a repetição patológica, defendendo que apenas a primeira é natural ao ser humano.
  3. Ctrata de características intrínsecas da música e da intensificação tecnológica de sua presença cotidiana, apontando essa combinação como fator relevante para o fenômeno.
  4. Datribui o fenômeno exclusivamente à fragilidade psicológica dos indivíduos contemporâneos, incapazes de lidar com estímulos sonoros repetitivos.
  5. Esustenta que a rejeição estética a determinadas músicas impede sua fixação involuntária na mente dos ouvintes.
Revelar gabarito e comentário

GabaritoC — trata de características intrínsecas da música e da intensificação tecnológica de sua presença cotidiana, apontando essa combinação como fator relevante para o fenômeno.

Comentário gerado por IA. É um apoio ao estudo, ancorado em fontes, mas pode conter imprecisões — confira sempre na fonte oficial (lei, súmula, edital e gabarito da banca). Encontrou um erro? Use “Reportar”.

Earworms: a combinação entre a música e a tecnologia

Gabarito: letra C. O autor trata das características intrínsecas da música (a repetição como recurso estético) e da intensificação tecnológica de sua presença cotidiana (gravações, rádio, filmes, iPods), apontando essa combinação como fator relevante para o fenômeno das earworms. Como se lê no 2º parágrafo: "Obviamente, na própria música existem tendências inerentes à reiteração" e, no 3º, "Tudo isso mudou radicalmente com o advento das gravações, das transmissões radiofônicas e dos filmes". A alternativa C é a única que sintetiza esses dois eixos sem extrapolar.

O comando

A questão pede que se identifique o que o autor afirma sobre as earworms. Isso é uma tarefa de compreensão/recorrência: a resposta deve estar explícita no texto, apenas parafraseada. Não se trata de inferir algo novo, mas de reconhecer a ideia que o autor de fato desenvolve. Por isso, o método é: localizar no texto os trechos que falam das causas do fenômeno e ver qual alternativa os resume fielmente.

O texto

O texto de Oliver Sacks tem uma estrutura clara:

  1. 1º parágrafo: define o fenômeno (repetição patológica de um fragmento musical) e o compara a um tique ou convulsão.

  2. 2º parágrafo: mostra que a repetição é inerente à música — poemas, baladas, canções, música clássica, rimas infantis são ricos em repetições; "Somos atraídos pela repetição".

  3. 3º parágrafo: mostra que a disponibilidade da música mudou com a tecnologia — "Tudo isso mudou radicalmente com o advento das gravações, das transmissões radiofônicas e dos filmes".

  4. 4º parágrafo: descreve o bombardeio musical atual (iPods, restaurantes, lojas) e suas consequências (perda auditiva, músicas que não saem da cabeça).

A tese central é que as earworms resultam da combinação entre a tendência natural da música à repetição e a onipresença da música na vida moderna. A alternativa C captura exatamente essa síntese.

A técnica que decide

A armadilha central desta questão é a extrapolação: várias alternativas pegam um elemento real do texto e o distorcem ou o absolutizam. O teste para cada uma é: "o texto autoriza esta afirmação, ou ela exige acrescentar algo de fora?".

  • A alternativa A diz que o surgimento recente é consequência direta da perda auditiva. O texto menciona a perda auditiva como uma consequência do bombardeio musical, mas não como causa das earworms. Há uma inversão de causa e consequência.

  • A alternativa B diz que o autor defende que apenas a repetição estética é natural. O texto diz que "Somos atraídos pela repetição", mas também descreve a repetição patológica como um processo coercivo que "subverteu uma parte do cérebro" — ou seja, ambas existem; não há defesa de que só a primeira é natural.

  • A alternativa D atribui o fenômeno exclusivamente à fragilidade psicológica. O texto fala de um processo neurológico ("forçando-o a disparar de maneira repetitiva e autônoma"), não de fragilidade psicológica. Além disso, o "exclusivamente" é um absoluto que o texto não sustenta.

  • A alternativa E diz que a rejeição estética impede a fixação. O texto afirma o contrário: "a música em questão pode ser banal ou sem graça, não nos agradar ou até mesmo ser abominável" — ou seja, a rejeição não impede a fixação.

Earworms (causas)
  • 1Características intrínsecas da música
    • Repetição como recurso estético
    • Somos atraídos pela repetição
  • 2Intensificação tecnológica
    • Gravações, rádio, filmes
    • Música onipresente
  • 3Combinação dos dois fatores
    • Fenômeno das earworms
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Alternativa A — ❌ Incorreta

A alternativa inverte a relação de causa e consequência. O texto diz que a perda auditiva é uma consequência do excesso de música:

"Essa barragem musical gera certa tensão em nosso sistema auditivo primorosamente sensível, o qual não pode ser sobrecarregado sem temíveis consequências. Uma delas é a grave perda de audição"

A perda auditiva é apresentada como resultado do bombardeio musical, não como causa do surgimento das earworms. Além disso, o texto não diz que o fenômeno surgiu por causa da perda auditiva; diz que a música se tornou onipresente com a tecnologia. Erro: contradiz o texto (inverte causa e consequência).

Alternativa B — ❌ Incorreta

A alternativa estabelece uma oposição que o texto não estabelece. O autor não defende que apenas a repetição estética é natural. Ele diz:

"Somos atraídos pela repetição, mesmo quando adultos; queremos o estímulo e a recompensa várias vezes, e a música nos dá."

E, sobre a repetição patológica, diz que ela indica "um processo coercivo: a música entrou e subverteu uma parte do cérebro". Ou seja, ambas as formas de repetição existem e são descritas; não há juízo de que só a primeira é natural. Erro: restringe o alcance do texto (impõe uma oposição que não está lá).

Alternativa C — ✅ Correta ⟵ GABARITO

A alternativa sintetiza fielmente os dois eixos do texto. O 2º parágrafo trata das características intrínsecas da música:

"Obviamente, na própria música existem tendências inerentes à reiteração. Nossos poemas, baladas e canções são ricos em repetições."

E o 3º parágrafo trata da intensificação tecnológica:

"Tudo isso mudou radicalmente com o advento das gravações, das transmissões radiofônicas e dos filmes. De repente, a música passou a estar por toda parte."

A combinação dessas duas ideias — a música já tende à repetição, e a tecnologia a tornou onipresente — é exatamente o que a alternativa C afirma. É a única que não extrapola nem contradiz o texto.

Alternativa D — ❌ Incorreta

A alternativa atribui o fenômeno exclusivamente à fragilidade psicológica. O texto, porém, descreve um mecanismo neurológico:

"a música entrou e subverteu uma parte do cérebro, forçando-o a disparar de maneira repetitiva e autônoma (como pode ocorrer com um tique ou uma convulsão)"

Não há menção a "fragilidade psicológica" nem a "incapacidade de lidar com estímulos". Além disso, o advérbio "exclusivamente" é um absoluto que o texto não sustenta — o autor aponta causas musicais e tecnológicas, não psicológicas. Erro: extrapola (acrescenta uma causa que o texto não menciona) e restringe (com o "exclusivamente").

Alternativa E — ❌ Incorreta

A alternativa contradiz diretamente o texto. O autor afirma que a rejeição estética não impede a fixação:

"a música em questão pode ser banal ou sem graça, não nos agradar ou até mesmo ser abominável, indica um processo coercivo"

Ou seja, mesmo músicas abomináveis se fixam na mente. A alternativa diz exatamente o oposto: que a rejeição impede a fixação. Erro: contradiz o texto (inverte a afirmação).

NÃO CAIA NESSA!

A banca adora pegar um elemento real do texto (perda auditiva, repetição estética, rejeição) e distorcê-lo — invertendo causa e consequência (A), impondo oposições que não existem (B), absolutizando com "exclusivamente" (D) ou invertendo a afirmação (E). A correta é a que sintetiza sem acrescentar nada.

PEGA ESSA DICA!

Ao ler o comando "é correto afirmar que o autor", grife as causas que o autor aponta. Depois, teste cada alternativa perguntando: "o texto autoriza isto, ou exige acrescentar algo de fora?". Desconfie de palavras absolutas como "apenas", "exclusivamente", "sempre".

Gabarito: letra C. A resposta certa é a que combina as duas causas apresentadas pelo autor — a tendência natural da música à repetição e a intensificação tecnológica de sua presença — sem extrapolar para causas psicológicas ou inverter relações de causa e consequência.

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