Questão de Português — Interpretação de Textos (Compreensão) — VUNESP 2026
Português›Interpretação de Textos (Compreensão)
Código
vu166457
Banca
VUNESP
Órgão
CM Caraguatatuba
Ano
2026
Cargo
Ag ( )
Uma vez por semana, o torcedor foge de casa e vai ao estádio.
Ondulam as bandeiras, soam as matracas, os foguetes, os tambores, chovem serpentinas e papel picado: a cidade desaparece, a rotina se esquece, só existe o templo. Neste espaço sagrado, a única religião que não tem ateus exibe suas divindades. Embora o torcedor possa contemplar o milagre, mais comodamente, na tela de sua televisão, prefere cumprir a peregrinação até o lugar onde possa ver em carne e osso seus anjos lutando em duelo contra os demônios da rodada.
Aqui o torcedor agita o lenço, engole saliva, engole veneno, come o boné, sussurra preces e maldições, e de repente arrebenta a garganta numa ovação e salta feito pulga abraçando o desconhecido que grita gol ao seu lado. Enquanto dura a missa pagã, o torcedor é muitos. Compartilha com milhares de devotos a certeza de que somos os melhores, todos os juízes estão vendidos, todos os rivais são trapaceiros.
É raro o torcedor que diz: “Meu time joga hoje”. Sempre diz: “Nós jogamos hoje”. Este jogador número doze sabe muito bem que é ele quem sopra os ventos de fervor que empurram a bola quando ela dorme, do mesmo jeito que os outros onze jogadores sabem que jogar sem torcida é como dançar sem música.
Quando termina a partida, o torcedor, que não saiu da arquibancada, celebra sua vitória, “que goleada fizemos, que surra a gente deu neles”, ou chora sua derrota, “nos roubaram outra vez, juiz ladrão”. E então o sol vai embora, e o torcedor se vai. Caem as sombras sobre o estádio que se esvazia. Nos degraus de cimento ardem, aqui e ali, algumas fogueiras de fogo fugaz, enquanto vão se apagando as luzes e as vozes. O estádio fica sozinho e o torcedor também volta à sua solidão, um eu que foi nós; o torcedor se afasta, se dispersa, se perde, e o domingo é melancólico feito uma quarta-feira de cinzas depois da morte do carnaval.
(Eduardo Galeano, “O torcedor”. In: . Futebol ao sol e à sombra. São Paulo: L&PM Pocket, 2024. Adaptado)
Leia o texto a seguir para responder à questão. O autor defende no texto que o torcedor
Ase comporta comedida e serenamente no estádio tanto quanto em um templo religioso.
Bjulga que acompanhar o jogo do estádio é mais cômodo do que fazê-lo pela televisão.
Ctem no estádio uma experiência ritualística coletiva que reforça a sensação de pertencimento.
Dé desestimulado a torcer por seu time nos estádios devido à desonestidade dos árbitros.
Ese sente superior aos demais torcedores de seu time conforme acompanha uma partida.
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GabaritoC — tem no estádio uma experiência ritualística coletiva que reforça a sensação de pertencimento.
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O torcedor e a experiência ritualística coletiva
Gabarito: letra C. O autor defende que o torcedor tem no estádio uma experiência ritualística coletiva que reforça a sensação de pertencimento. Essa tese está ancorada na metáfora religiosa que percorre todo o texto — o estádio é chamado de "templo", a partida de "missa pagã" e os torcedores de "devotos" — e na passagem em que o torcedor, ao compartilhar a experiência com milhares de outros, deixa de ser "eu" para ser "nós".
O comando pede que se identifique o que o autor defende, ou seja, a tese do texto. Não se trata de localizar uma informação pontual (compreensão), mas de sintetizar a ideia central que o autor desenvolve ao longo de todo o texto (interpretação). Para isso, é preciso ler o texto como um todo e perceber o movimento argumentativo: o autor descreve o estádio como um espaço sagrado, onde o torcedor vive uma experiência coletiva e apaixonada, e conclui mostrando que, ao final, ele "volta à sua solidão, um eu que foi nós".
A tese central é construída pela comparação entre o futebol e a religião. O autor não diz que o torcedor se comporta com serenidade (A), nem que prefere o estádio por comodidade (B), nem que é desestimulado pelos árbitros (D), nem que se sente superior aos outros torcedores (E). O que ele defende é que o estádio proporciona uma vivência coletiva e sagrada, que faz o indivíduo se sentir parte de algo maior. Vejamos como cada alternativa se relaciona com o texto.
Alternativa A — ❌ Incorreta
A alternativa afirma que o torcedor "se comporta comedida e serenamente no estádio tanto quanto em um templo religioso". Isso contradiz o texto. O autor descreve o torcedor em estado de exaltação: "agita o lenço, engole saliva, engole veneno, come o boné, sussurra preces e maldições, e de repente arrebenta a garganta numa ovação e salta feito pulga". Não há serenidade alguma; há frenesi e paixão. A metáfora do templo serve para mostrar a devoção, não a calma. A banca tenta confundir o candidato com a ideia de que "templo" = "comportamento contido", mas o texto mostra o oposto.
Alternativa B — ❌ Incorreta
A alternativa diz que o torcedor "julga que acompanhar o jogo do estádio é mais cômodo do que fazê-lo pela televisão". O texto afirma exatamente o contrário: "Embora o torcedor possa contemplar o milagre, mais comodamente, na tela de sua televisão, prefere cumprir a peregrinação até o lugar". Ou seja, o autor reconhece que a TV é mais cômoda, mas o torcedor prefere o estádio por outros motivos — a vivência coletiva, o ritual. A alternativa inverte o sentido do texto: troca "mais cômodo" por "menos cômodo" e atribui ao torcedor uma preferência que o texto não sustenta.
Alternativa C — ✅ Correta
Esta é a tese central do texto. O autor constrói a imagem do estádio como um espaço sagrado e coletivo: "Neste espaço sagrado, a única religião que não tem ateus exibe suas divindades". O torcedor participa de uma "missa pagã" e "compartilha com milhares de devotos a certeza de que somos os melhores". A sensação de pertencimento fica explícita na passagem: "É raro o torcedor que diz: 'Meu time joga hoje'. Sempre diz: 'Nós jogamos hoje'". O "nós" revela a identificação coletiva. E o final reforça: "o torcedor também volta à sua solidão, um eu que foi nós". A experiência no estádio é, portanto, ritualística (com ritos, cânticos, gestos) e coletiva, gerando pertencimento.
Alternativa D — ❌ Incorreta
A alternativa afirma que o torcedor "é desestimulado a torcer por seu time nos estádios devido à desonestidade dos árbitros". O texto menciona que o torcedor acredita que "todos os juízes estão vendidos", mas isso é uma crença do torcedor, não um desestímulo para ir ao estádio. Pelo contrário, o torcedor vai ao estádio apesar disso, movido pela paixão e pela coletividade. A alternativa extrapola o texto: transforma uma opinião do torcedor (sobre os juízes) em uma causa para não torcer, o que não está dito em lugar nenhum.
Alternativa E — ❌ Incorreta
A alternativa diz que o torcedor "se sente superior aos demais torcedores de seu time conforme acompanha uma partida". O texto mostra o torcedor integrado aos demais, não superior: "Compartilha com milhares de devotos a certeza de que somos os melhores". A superioridade é do time ("somos os melhores"), não do torcedor individual em relação aos outros torcedores. A alternativa troca o referente: o sentimento de superioridade é coletivo (do grupo de torcedores em relação aos rivais), não individual (de um torcedor em relação aos outros do mesmo time).
NÃO CAIA NESSA!
A banca explora a metáfora religiosa para induzir o candidato a escolher a alternativa A (serenidade), mas o texto mostra exatamente o oposto: o torcedor é eufórico, agitado e passional. Fique atento ao tom do texto: a religiosidade aqui é apaixonada, não contemplativa.
PEGA ESSA DICA!
Para identificar a tese, pergunte-se: "qual é a ideia que o autor defende do começo ao fim?". No texto, a ideia é a experiência coletiva e sagrada do torcedor no estádio. As alternativas que descrevem comportamentos individuais (A, B, D, E) fogem dessa ideia central.
Gabarito: letra C — a única que sintetiza a tese do autor: o estádio como espaço de ritual coletivo que reforça o pertencimento.