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Questão de Português — Coerência. Coesão (Anáfora, Catáfora, Uso dos Conectores - Pronomes Relativos, Conjunções, etc) — VUNESP 2026

PortuguêsCoerência. Coesão (Anáfora, Catáfora, Uso dos Conectores - Pronomes Relativos, Conjunções, etc)
Código
vu166460
Banca
VUNESP
Órgão
CM Caraguatatuba
Ano
2026
Cargo
Ag ( )

Uma vez por semana, o torcedor foge de casa e vai ao estádio.

 

Ondulam as bandeiras, soam as matracas, os foguetes, os tambores, chovem serpentinas e papel picado: a cidade desaparece, a rotina se esquece, só existe o templo. Neste espaço sagrado, a única religião que não tem ateus exibe suas divindades. Embora o torcedor possa contemplar o milagre, mais comodamente, na tela de sua televisão, prefere cumprir a peregrinação até o lugar onde possa ver em carne e osso seus anjos lutando em duelo contra os demônios da rodada.

 

Aqui o torcedor agita o lenço, engole saliva, engole veneno, come o boné, sussurra preces e maldições, e de repente arrebenta a garganta numa ovação e salta feito pulga abraçando o desconhecido que grita gol ao seu lado. Enquanto dura a missa pagã, o torcedor é muitos. Compartilha com milhares de devotos a certeza de que somos os melhores, todos os juízes estão vendidos, todos os rivais são trapaceiros.

É raro o torcedor que diz: “Meu time joga hoje”. Sempre diz: “Nós jogamos hoje”. Este jogador número doze sabe muito bem que é ele quem sopra os ventos de fervor que empurram a bola quando ela dorme, do mesmo jeito que os outros onze jogadores sabem que jogar sem torcida é como dançar sem música.

 

Quando termina a partida, o torcedor, que não saiu da arquibancada, celebra sua vitória, “que goleada fizemos, que surra a gente deu neles”, ou chora sua derrota, “nos roubaram outra vez, juiz ladrão”. E então o sol vai embora, e o torcedor se vai. Caem as sombras sobre o estádio que se esvazia. Nos degraus de cimento ardem, aqui e ali, algumas fogueiras de fogo fugaz, enquanto vão se apagando as luzes e as vozes. O estádio fica sozinho e o torcedor também volta à sua solidão, um eu que foi nós; o torcedor se afasta, se dispersa, se perde, e o domingo é melancólico feito uma quarta-feira de cinzas depois da morte do carnaval.

 

(Eduardo Galeano, “O torcedor”. In: . Futebol ao sol e à sombra. São Paulo: L&PM Pocket, 2024. Adaptado)

Leia o texto a seguir para responder à questão. Considere o trecho a seguir:   “Ondulam as bandeiras, soam as matracas, os foguetes, os tambores, chovem serpentinas e papel picado: a cidade desaparece, a rotina se esquece, só existe o templo.” O sinal de dois-pontos, presente no trecho, tem o mesmo sentido de
  1. A“de modo que”.
  2. B“no entanto”.
  3. C“apesar de que”.
  4. D“desde que”.
  5. E“visto que”.
Revelar gabarito e comentário

GabaritoA — “de modo que”.

Comentário gerado por IA. É um apoio ao estudo, ancorado em fontes, mas pode conter imprecisões — confira sempre na fonte oficial (lei, súmula, edital e gabarito da banca). Encontrou um erro? Use “Reportar”.

Valor semântico dos dois-pontos: consequência, não explicação

Gabarito: letra A. No trecho, os dois-pontos introduzem uma consequência do quadro festivo descrito antes: a algazarra das bandeiras, matracas, foguetes e serpentinas é a causa que faz "a cidade desaparecer" e "a rotina se esquecer". Por isso o sinal equivale a "de modo que" (conectivo consecutivo), e não a uma explicação, oposição, condição ou causa. A passagem que ancora essa leitura é a enumeração seguida do efeito:

"Ondulam as bandeiras, soam as matracas, os foguetes, os tambores, chovem serpentinas e papel picado: a cidade desaparece, a rotina se esquece, só existe o templo."

A leitura correta é: tanto barulho e festa acontecem de modo que a cidade desaparece. A alternativa A é a única que preserva exatamente essa relação de efeito.

O comando: o que a banca pede

A questão não pergunta o que os dois-pontos são (anunciar uma explicação, uma citação, uma enumeração), mas qual valor semântico eles assumem no contexto. Isso muda tudo: você não pode aplicar a regra decorada "dois-pontos = explicação" — precisa ler a relação lógica entre o que vem antes e o que vem depois do sinal. É uma questão de coesão sequencial: o sinal de pontuação está funcionando como um conectivo, e a banca quer que você o traduza por uma conjunção equivalente.

O texto: a relação de causa e efeito

No trecho, a primeira parte é uma enumeração sensorial (bandeiras ondulando, matracas soando, foguetes, tambores, serpentinas chovendo). Essa enumeração não é um fim em si mesma: ela serve para explicar por que a cidade desaparece e a rotina se esquece. A relação é de causa → consequência: a festa é a causa; o desaparecimento da cidade é o efeito. Os dois-pontos, aqui, funcionam como um conectivo consecutivo, equivalente a "de modo que", "por isso", "assim".

A técnica: como identificar o valor dos dois-pontos

Para resolver, pergunte: o que vem depois do sinal é consequência, explicação, oposição, condição ou causa do que vem antes?

  • Se depois explica o antes → explicativo (ex.: "Ele não veio: estava doente").

  • Se depois é o efeito do antes → consecutivo (ex.: "Choveu muito: as ruas alagaram").

  • Se depois se opõe ao antes → adversativo (ex.: "Tentei muito: não consegui").

  • Se depois é condição para o antes → condicional (ex.: "Estude: passará").

  • Se depois é a causa do antes → causal (ex.: "As ruas alagaram: choveu muito").

No trecho, a festa causa o desaparecimento da cidade — logo, o depois é consequência. A alternativa A traduz exatamente isso.

Alternativa A — ✅ Correta ⟵ GABARITO

"De modo que" é uma locução conjuntiva consecutiva: introduz o efeito de uma ação anterior. No trecho, a enumeração festiva é a causa; "a cidade desaparece, a rotina se esquece" é o efeito. A substituição preserva o sentido: Ondulam as bandeiras... de modo que a cidade desaparece. É a única alternativa que mantém a relação de consequência.

Alternativa B — ❌ Incorreta

"No entanto" é um conectivo adversativo (oposição). No trecho, não há oposição entre a festa e o desaparecimento da cidade; há continuidade causal. Trocar por "no entanto" criaria uma contradição: Ondulam as bandeiras... no entanto a cidade desaparece — o que não faz sentido, pois a festa é justamente o que provoca o efeito. Erro: troca de relação lógica (oposição no lugar de consequência).

Alternativa C — ❌ Incorreta

"Apesar de que" também é adversativo/concessivo (ressalva). Expressaria uma ideia de "mesmo que", o que inverteria a lógica: Ondulam as bandeiras... apesar de que a cidade desaparece — como se a festa fosse um obstáculo ao efeito, quando na verdade é a causa. Erro: troca de relação lógica (concessão no lugar de consequência).

Alternativa D — ❌ Incorreta

"Desde que" é um conectivo condicional (ou temporal). Introduziria uma condição: Ondulam as bandeiras... desde que a cidade desaparece — o que inverte a relação: a festa não é condição para a cidade desaparecer; ela é a causa. Erro: troca de relação lógica (condição no lugar de consequência).

Alternativa E — ❌ Incorreta

"Visto que" é um conectivo causal (introduz a causa). No trecho, o que vem depois dos dois-pontos é o efeito, não a causa. Se trocássemos, ficaria: Ondulam as bandeiras... visto que a cidade desaparece — ou seja, a festa seria consequência do desaparecimento, o que é o inverso do que o texto diz. Erro: inversão da relação causa/efeito.

NÃO CAIA NESSA!

A banca explora a confusão entre os valores dos conectivos. A maioria dos candidatos decora "dois-pontos = explicação" e marca "visto que" (causal). Mas aqui o sinal introduz consequência, não causa. Leia sempre a relação lógica entre as partes.

PEGA ESSA DICA!

Ao ver dois-pontos, pergunte: "o que vem depois é efeito, explicação, oposição, condição ou causa do que vem antes?" Teste cada alternativa substituindo o sinal pelo conectivo e veja se a frase continua lógica.

Gabarito: letra A.

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