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Questão de Português — Interpretação de Textos (Compreensão) — VUNESP 2026

PortuguêsInterpretação de Textos (Compreensão)
Código
vu166502
Banca
VUNESP
Órgão
Pref Pontal
Ano
2026
Cargo
CI ( )

Felicidade, sim.

 

Vivi por trinta e quatro anos sob o jugo do chuveiro elétrico. Ah, lastimável invento! Já gastei mais de uma crônica amaldiçoando seus fabricantes; homens maus, que ganham a vida propagando a falácia da temperatura com pressão, quando bem sabemos que, na gélida realidade dos azulejos, ou a água sai abundante e fria ou é um fiozinho minguado e escaldante sob o qual nos encolhemos, o cocuruto no Saara e os pés na Patagônia, sonhando com o dia em que, libertos das inúteis correntes (de elétrons), alcançaremos a terra prometida do aquecimento central.

 

Reclamo de barriga cheia? Sem dúvida. Há problemas bem mais sérios neste mundo, mas sejamos honestos: a morte do vizinho não anula a minha dor de dente — e um banho ruim é dez vezes mais triste que uma dor de dente. Afinal, um molar, quando para de doer, não é capaz por si só de nos dar alegria. Já o banho, quando é bom…

 

Durante a infância, ouvia minha mãe reclamar do banho e lamentar, frustrada, que não valia a pena fazer reforma numa casa alugada. No mês passado, contudo, depois de ter casado, juntado os trapos e os FGTS, conseguimos um financiamento e atingi, ao mesmo tempo, o sonho da casa própria e do aquecimento central.

 

Com um aquecedor pra chamar de meu, pensei, meus problemas haviam acabado. Toda melancolia escorreria pelo ralo. Cheguei a imaginar que a metafísica não fosse, como disse o asno de Sancho Pança, uma decorrência do estômago vazio, mas do incômodo térmico: não seriam os pés frios a razão de querermos anular o corpo e inventar outras realidades — mais morninhas?

 

Pois bem, mudei: por vinte e nove dias e vinte e nove noites fui feliz como um bebê no líquido amniótico. Se, no meio da tarde ou da noite, o tédio ou a tristeza me visitavam, lembrava do último banho, imaginava o próximo e sorria, satisfeito. Até que, na trigésima manhã, esta manhã de terça, da qual jamais me esquecerei, me peguei sob a ducha quente pensando numa conta atrasada e resmungando sobre a fila do banco. O banho virara apenas mais um acontecimento banal, feito escovar os dentes ou cortar as unhas, e entendi, alheio à pressão e à temperatura, que nenhuma felicidade sobrevive à repetição. Trinta e quatro anos desejando; vinte e nove dias pra perder a graça. Injusta é a matemática da vida.

(Antonio Prata. Trinta e poucos: crônicas. Adaptado)

A partir da leitura do texto, é correto concluir que

  1. Ao prazer independe da eficácia objetiva das condições externas que produzem conforto físico e bem-estar.
  2. Ba satisfação humana depende fundamentalmente do esforço anterior, sendo proporcional ao tempo de espera pela conquista.
  3. Ca felicidade resulta da supressão de preocupações práticas, as quais impedem que as experiências cotidianas sejam apreciadas.
  4. Da repetição de uma experiência inicialmente prazerosa tende a reduzir seu impacto subjetivo, ainda que suas condições materiais e funcionais permaneçam inalteradas.
  5. Ea repetição sistemática de experiências agradáveis fortalece progressivamente o prazer, por consolidar hábitos e gerar estabilidade emocional.
Revelar gabarito e comentário

GabaritoD — a repetição de uma experiência inicialmente prazerosa tende a reduzir seu impacto subjetivo, ainda que suas condições materiais e funcionais permaneçam inalteradas.

Comentário gerado por IA. É um apoio ao estudo, ancorado em fontes, mas pode conter imprecisões — confira sempre na fonte oficial (lei, súmula, edital e gabarito da banca). Encontrou um erro? Use “Reportar”.

A tese da crônica: a repetição desgasta o prazer

Gabarito: letra D. A alternativa D é a única que parafraseia a tese central do texto: a repetição de uma experiência prazerosa reduz seu impacto subjetivo, mesmo que as condições materiais permaneçam as mesmas. Isso está explícito na passagem final: "entendi, alheio à pressão e à temperatura, que nenhuma felicidade sobrevive à repetição". O autor diz que o banho quente continuava funcionando perfeitamente (pressão e temperatura inalteradas), mas deixou de produzir alegria — exatamente o que D afirma.

O comando pede uma conclusão a partir da leitura, ou seja, uma inferência ancorada no texto. Não se trata de localizar uma informação literal, mas de captar a tese que o autor constrói ao longo da crônica: ele passou 34 anos desejando o aquecimento central, foi feliz por 29 dias, e na trigésima manhã percebeu que o banho virara "apenas mais um acontecimento banal". A conclusão que o texto obriga é a de que a novidade e a repetição são o que determina o prazer, não a qualidade objetiva do banho.

A técnica para resolver: teste cada alternativa perguntando "o texto autoriza isto, ou exige acrescentar algo de fora?". A correta (D) é uma reescritura fiel da tese; as demais ou extrapolam (A, B, C) ou contradizem frontalmente o texto (E).

"O banho virara apenas mais um acontecimento banal, feito escovar os dentes ou cortar as unhas, e entendi, alheio à pressão e à temperatura, que nenhuma felicidade sobrevive à repetição."

Essa passagem é a chave: o autor diz explicitamente que a perda do prazer ocorreu "alheio à pressão e à temperatura" — ou seja, as condições materiais do banho não mudaram. O que mudou foi a repetição: 29 dias de banho quente foram suficientes para tornar a experiência banal. É exatamente o que a alternativa D afirma: a repetição reduz o impacto subjetivo, ainda que as condições materiais e funcionais permaneçam inalteradas.

Alternativa A — ❌ Incorreta

Erro: extrapolação. A alternativa afirma que "o prazer independe da eficácia objetiva das condições externas". O texto mostra que o prazer depende da eficácia objetiva: o autor só foi feliz quando o banho passou a ser quente e abundante (com o aquecimento central). O que o texto diz é que a repetição desgasta o prazer, não que ele independa das condições. A alternativa generaliza indevidamente uma ideia que o texto não sustenta.

Alternativa B — ❌ Incorreta

Erro: extrapolação. A alternativa afirma que "a satisfação humana depende fundamentalmente do esforço anterior, sendo proporcional ao tempo de espera pela conquista". O texto mostra o contrário: o autor esperou 34 anos, mas a felicidade durou apenas 29 dias. Não há nenhuma relação de proporcionalidade entre tempo de espera e duração do prazer. A alternativa inventa uma relação causal que o texto não estabelece.

Alternativa C — ❌ Incorreta

Erro: extrapolação. A alternativa afirma que "a felicidade resulta da supressão de preocupações práticas". O texto mostra que, mesmo com o banho quente, o autor se viu "pensando numa conta atrasada e resmungando sobre a fila do banco" — ou seja, as preocupações práticas continuaram presentes. A felicidade não veio da supressão das preocupações, mas da novidade da experiência. A alternativa acrescenta uma ideia que o texto não sustenta.

Alternativa D — ✅ Correta ⟵ GABARITO

Paráfrase fiel da tese. A alternativa afirma que "a repetição de uma experiência inicialmente prazerosa tende a reduzir seu impacto subjetivo, ainda que suas condições materiais e funcionais permaneçam inalteradas". Isso é exatamente o que o texto diz: o banho quente continuava funcionando (pressão e temperatura inalteradas), mas o prazer se perdeu pela repetição. A passagem "alheio à pressão e à temperatura" prova que as condições materiais não mudaram, e "nenhuma felicidade sobrevive à repetição" prova que a repetição foi a causa da perda do prazer.

Alternativa E — ❌ Incorreta

Erro: contradiz o texto. A alternativa afirma que "a repetição sistemática de experiências agradáveis fortalece progressivamente o prazer". O texto diz exatamente o oposto: "nenhuma felicidade sobrevive à repetição". A alternativa inverte a tese central do autor, trocando "reduz" por "fortalece". É a distratora mais fácil de eliminar, pois contradiz frontalmente a passagem final.

NÃO CAIA NESSA!

A banca explora a extrapolação com ideias que parecem plausíveis (A, B, C) mas que o texto não sustenta, e a contradição direta (E). A correta (D) é a única que se ancora na passagem final.

PEGA ESSA DICA!

Em questões de conclusão, grife a tese do texto (geralmente na introdução ou conclusão) e teste cada alternativa perguntando: "o texto autoriza isto, ou exige acrescentar algo de fora?". Palavras absolutas como "independe", "fundamentalmente", "resulta" e "fortalece" são alertas de extrapolação ou contradição.

Gabarito: letra D — a única alternativa inteiramente sustentada pelo texto, sem acrescentar nem contradizer nada.

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