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Questão de Português — Pontuação (Ponto, Vírgula, Travessão, Aspas, Parênteses, etc) — VUNESP 2026

PortuguêsPontuação (Ponto, Vírgula, Travessão, Aspas, Parênteses, etc)
Código
vu166504
Banca
VUNESP
Órgão
Pref Pontal
Ano
2026
Cargo
CI ( )

Felicidade, sim.

 

Vivi por trinta e quatro anos sob o jugo do chuveiro elétrico. Ah, lastimável invento! Já gastei mais de uma crônica amaldiçoando seus fabricantes; homens maus, que ganham a vida propagando a falácia da temperatura com pressão, quando bem sabemos que, na gélida realidade dos azulejos, ou a água sai abundante e fria ou é um fiozinho minguado e escaldante sob o qual nos encolhemos, o cocuruto no Saara e os pés na Patagônia, sonhando com o dia em que, libertos das inúteis correntes (de elétrons), alcançaremos a terra prometida do aquecimento central.

 

Reclamo de barriga cheia? Sem dúvida. Há problemas bem mais sérios neste mundo, mas sejamos honestos: a morte do vizinho não anula a minha dor de dente — e um banho ruim é dez vezes mais triste que uma dor de dente. Afinal, um molar, quando para de doer, não é capaz por si só de nos dar alegria. Já o banho, quando é bom…

 

Durante a infância, ouvia minha mãe reclamar do banho e lamentar, frustrada, que não valia a pena fazer reforma numa casa alugada. No mês passado, contudo, depois de ter casado, juntado os trapos e os FGTS, conseguimos um financiamento e atingi, ao mesmo tempo, o sonho da casa própria e do aquecimento central.

 

Com um aquecedor pra chamar de meu, pensei, meus problemas haviam acabado. Toda melancolia escorreria pelo ralo. Cheguei a imaginar que a metafísica não fosse, como disse o asno de Sancho Pança, uma decorrência do estômago vazio, mas do incômodo térmico: não seriam os pés frios a razão de querermos anular o corpo e inventar outras realidades — mais morninhas?

 

Pois bem, mudei: por vinte e nove dias e vinte e nove noites fui feliz como um bebê no líquido amniótico. Se, no meio da tarde ou da noite, o tédio ou a tristeza me visitavam, lembrava do último banho, imaginava o próximo e sorria, satisfeito. Até que, na trigésima manhã, esta manhã de terça, da qual jamais me esquecerei, me peguei sob a ducha quente pensando numa conta atrasada e resmungando sobre a fila do banco. O banho virara apenas mais um acontecimento banal, feito escovar os dentes ou cortar as unhas, e entendi, alheio à pressão e à temperatura, que nenhuma felicidade sobrevive à repetição. Trinta e quatro anos desejando; vinte e nove dias pra perder a graça. Injusta é a matemática da vida.

(Antonio Prata. Trinta e poucos: crônicas. Adaptado)

Considere o trecho a seguir:

 

Cheguei a imaginar que a metafísica não fosse, como disse o asno de Sancho Pança, uma decorrência do estômago vazio, mas do incômodo térmico: não seriam os pés frios a razão de querermos anular o corpo e inventar outras realidades — mais morninhas?

 

É correto afirmar que o sinal de dois-pontos foi empregado para

  1. Aapresentar uma citação direta do personagem citado.
  2. Bindicar o início de uma enumeração.
  3. Cintroduzir uma explicação sobre a afirmação anterior.
  4. Dseparar o argumento do autor e o do personagem.
  5. Ecorrigir uma informação dada anteriormente.
Revelar gabarito e comentário

GabaritoC — introduzir uma explicação sobre a afirmação anterior.

Comentário gerado por IA. É um apoio ao estudo, ancorado em fontes, mas pode conter imprecisões — confira sempre na fonte oficial (lei, súmula, edital e gabarito da banca). Encontrou um erro? Use “Reportar”.

Função dos dois-pontos no trecho

Gabarito: letra C. Os dois-pontos foram empregados para introduzir uma explicação sobre a afirmação anterior — o trecho após o sinal esclarece o que o autor quis dizer com a ideia de que a metafísica seria decorrência do incômodo térmico. A passagem que comprova é:

"Cheguei a imaginar que a metafísica não fosse, como disse o asno de Sancho Pança, uma decorrência do estômago vazio, mas do incômodo térmico: não seriam os pés frios a razão de querermos anular o corpo e inventar outras realidades — mais morninhas?"

A parte após os dois-pontos explica por que o autor pensa que a metafísica viria do incômodo térmico: ele lança a hipótese de que os pés frios seriam a razão de querermos anular o corpo e criar outras realidades. Não há enumeração, citação, fala ou correção — apenas o desdobramento explicativo da ideia anterior.

O comando

A questão pede que você identifique a função do sinal de dois-pontos no trecho específico. Isso é uma questão de interpretação de pontuação: não basta saber as funções gerais do sinal (enumeração, citação, explicação, fala); é preciso ver qual delas se aplica ao contexto. O comando "É correto afirmar que o sinal de dois-pontos foi empregado para" exige que você relacione o sinal ao efeito de sentido que ele produz no trecho.

O texto e a passagem decisiva

No trecho, o autor imagina que a metafísica não seria consequência do estômago vazio (como dizia Sancho Pança), mas sim do incômodo térmico. Os dois-pontos aparecem logo após essa afirmação e introduzem uma pergunta retórica que explica essa ideia: "não seriam os pés frios a razão de querermos anular o corpo e inventar outras realidades — mais morninhas?". Ou seja, o que vem depois dos dois-pontos é uma explicação do que o autor quis dizer com "incômodo térmico".

A técnica que decide

Para resolver, pergunte: o que vem depois dos dois-pontos faz o quê em relação ao que vem antes? Se enumera itens, é enumeração; se transcreve fala, é citação; se esclarece/desenvolve a ideia, é explicação. No trecho, o trecho após o sinal esclarece a tese do autor — é uma explicação. As demais funções não se aplicam.

Análise das alternativas

Dois-pontos
  • 1Funções
    • Citação
    • Enumeração
    • Explicação
    • Separação de vozes
    • Correção
  • 2No trecho
    • Introduz explicação
    • "ou seja" cabe
    • Pergunta retórica
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Alternativa A — ❌ Incorreta

Erro: troca de conceito. Não há citação direta do personagem. A expressão "como disse o asno de Sancho Pança" é uma referência indireta a uma fala atribuída ao personagem, mas não está entre aspas nem é introduzida pelos dois-pontos. Os dois-pontos não estão introduzindo uma citação; estão introduzindo a explicação do autor.

Alternativa B — ❌ Incorreta

Erro: troca de conceito. Não há enumeração. Enumeração seria uma lista de itens (ex.: "comprei: pão, leite, queijo"). No trecho, após os dois-pontos há uma oração interrogativa que explica a ideia, não uma lista de elementos.

Alternativa C — ✅ Correta ⟵ GABARITO

Correta. Os dois-pontos introduzem uma explicação da afirmação anterior. O trecho "não seriam os pés frios a razão de querermos anular o corpo e inventar outras realidades — mais morninhas?" explica por que o autor considera a metafísica decorrência do incômodo térmico. É exatamente a função de esclarecer/desenvolver a ideia precedente.

Alternativa D — ❌ Incorreta

Erro: troca de conceito. Não há separação entre argumento do autor e argumento do personagem. O trecho todo é do autor; a menção ao asno de Sancho Pança é uma intertextualidade dentro do próprio raciocínio do autor, não uma voz separada. Os dois-pontos não estão separando vozes.

Alternativa E — ❌ Incorreta

Erro: troca de conceito. Não há correção de informação. O autor não está corrigindo nada; ele está explicando uma ideia que acabou de apresentar. A função de correção seria algo como "não foi isso, foi aquilo", o que não ocorre.

NÃO CAIA NESSA!

A banca explora a confusão entre as funções dos dois-pontos. A alternativa A (citação) é sedutora porque há a expressão "como disse o asno de Sancho Pança", mas isso é uma referência, não uma citação introduzida pelos dois-pontos. A correta exige perceber que o trecho após o sinal é uma explicação.

PEGA ESSA DICA!

Ao analisar a função de um sinal de pontuação, substitua mentalmente o sinal por uma conjunção ou expressão. Se couber "ou seja", "isto é", "porque", é explicação. No trecho, caberia: "...mas do incômodo térmico, ou seja, não seriam os pés frios a razão...". Isso confirma a função explicativa.

Gabarito: letra C.

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