Questão de Português — Interpretação de Textos (Compreensão) — VUNESP 2026
Português›Interpretação de Textos (Compreensão)
Código
vu166597
Banca
VUNESP
Órgão
USCS
Ano
2026
Cargo
Vest ( )
No sinal fechado
Ele vende chiclete
Capricha na flanela
E se chama Pelé
Pinta na janela
Batalha algum trocado
Aponta um canivete
E até
Dobra a Carioca, olerê
Desce a Frei Caneca, olará
Se manda pra Tijuca
Sobe o Borel
Meio se maloca
Agita numa boca
Descola uma mutuca
E um papel
Sonha aquela mina, olerê
Prancha, parafina, olará
Dorme gente fina
Acorda pinel
Zanza na sarjeta
Fatura uma besteira
E tem as pernas tortas
E se chama Mané1
Arromba uma porta
Faz ligação direta
Engata uma primeira
E até
Dobra a Carioca, olerê
Desce a Frei Caneca, olará
Se manda pra Tijuca
Na contramão
Dança para-lama
Já era para-choque
Agora ele se chama
Emersão
Sobe no passeio, olerê
Pega no Recreio, olará
Não se liga em freio
Nem direção
No sinal fechado
Ele transa chiclete
E se chama pivete
E pinta na janela
Capricha na flanela
Descola uma bereta2
Batalha na sarjeta
E tem as pernas tortas
(Chico Buarque de Hollanda. Tantas palavras, 2006.)
Leia a letra da canção “Pivete”, de 1978, composta por Chico Buarque de Hollanda e Francis Hime e ambientada na cidade do Rio de Janeiro, para responder à questão. 1 Mané: apelido para Mané Garrincha, importante jogador de futebol brasileiro das décadas de 1950, 60 e 70, assim como Pelé. 2 bereta: pistola portátil da marca Beretta. Na letra da canção, os autores
Amostram como os jogadores Pelé e Garrincha, diferentemente de outros jovens, fizeram escolhas virtuosas em suas vidas.
Bcriticam os indivíduos que escolhem a criminalidade em vez de se engajarem nos trabalhos que lhes são acessíveis.
Cdefendem a ideia de que aqueles que trabalham e se esforçam ascendem por seu próprio mérito.
Dapresentam cenas da vida da população pobre, nas quais um mesmo personagem pode trabalhar e cometer atos criminosos.
Eestabelecem uma comparação entre a vida de jovens pobres e jovens ricos numa mesma cidade.
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GabaritoD — apresentam cenas da vida da população pobre, nas quais um mesmo personagem pode trabalhar e cometer atos criminosos.
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Interpretação de texto: a dualidade do pivete entre trabalho e crime
Gabarito: letra D. A canção “Pivete” apresenta cenas da vida de um menino pobre que transita entre o trabalho (vender chiclete, engraxar sapatos, batalhar trocado) e atos criminosos (apontar canivete, arrombar porta, descolar uma bereta). A alternativa D é a única que sintetiza essa dualidade, ancorada em passagens como “Ele vende chiclete / Capricha na flanela” (trabalho) e “Aponta um canivete” / “Arromba uma porta” (crime).
O comando pede uma compreensão global da letra: “Na letra da canção, os autores”. Não se trata de inferir algo oculto, mas de identificar o que o texto apresenta — ou seja, a resposta deve ser uma paráfrase fiel do conjunto de cenas descritas. A banca testa se o candidato percebe que o personagem não é apenas um trabalhador nem apenas um criminoso: ele é ambos, e é exatamente essa ambiguidade que a letra constrói.
O texto não tem uma tese argumentativa nem defende uma ideia; ele narra ações de um personagem. O movimento é de acumulação de verbos de ação: “vende”, “capricha”, “batalha”, “aponta”, “arromba”, “descola”. Essa sequência mistura, sem hierarquia, atividades lícitas e ilícitas. O refrão (“Dobra a Carioca, olerê / Desce a Frei Caneca, olará”) reforça o trânsito pela cidade, e os apelidos (“Pelé”, “Mané”, “pivete”, “Emersão”) sugerem identidades múltiplas e provisórias.
A técnica decisiva aqui é não acrescentar nada ao texto. As alternativas A, B, C e E cometem, cada uma, um erro do catálogo: ou extrapolam (A, B, C) ou tangenciam o tema (E). A correta, D, é a única que se limita a descrever o que a letra mostra, sem julgamento moral e sem comparação com outros grupos sociais.
NÃO CAIA NESSA!
A banca explora a tentação de “moralizar” a leitura. As alternativas A, B e C embutem um juízo de valor (escolhas virtuosas, crítica à criminalidade, mérito pelo esforço) que o texto não emite. O autor apenas mostra cenas; não opina sobre elas.
PEGA ESSA DICA!
Em questões de compreensão, pergunte-se: “o texto afirma isso, ou eu estou completando com minha opinião?”. Se a resposta exigir acrescentar um julgamento que não está escrito, a alternativa está errada.
Pivete (personagem): Trabalho (Vende chiclete, Capricha na flanela, Batalha trocado); Crime (Aponta canivete, Arromba porta, Descola bereta); Dualidade (Mesmo personagem, Sem julgamento moral)
Alternativa A — ❌ Incorreta
Erro: extrapolação (acrescenta opinião). A letra menciona os apelidos “Pelé” e “Mané” (nota 1), mas não compara as escolhas desses jogadores com as de outros jovens. Não há nenhuma passagem que diga que eles “fizeram escolhas virtuosas” — isso é um juízo de valor que o leitor traz de fora. O texto apenas nomeia o personagem com esses apelidos; não discute a vida dos jogadores reais.
Alternativa B — ❌ Incorreta
Erro: extrapolação (acrescenta opinião). A letra mostra o personagem cometendo atos criminosos (“Aponta um canivete”, “Arromba uma porta”), mas não critica ninguém por isso. Não há verbo de julgamento (“é errado”, “deveria”), nem comparação com “trabalhos acessíveis”. A ideia de que ele “escolhe a criminalidade” é uma interpretação moral que o texto não sustenta — o personagem também trabalha, e a letra não hierarquiza as duas atividades.
Alternativa C — ❌ Incorreta
Erro: extrapolação (acrescenta tese). A canção não defende meritocracia. Não há nenhuma frase como “quem trabalha sobe” ou “o esforço compensa”. O personagem trabalha (“Batalha algum trocado”) e, ainda assim, vive na sarjeta (“Zanza na sarjeta”). A letra mostra a pobreza, mas não propõe uma solução nem uma tese sobre ascensão social. Essa alternativa é uma “cola” de discurso de senso comum, não uma leitura do texto.
Alternativa D — ✅ Correta ⟵ GABARITO
É a única que descreve o que o texto apresenta. A letra alterna, sem julgamento, ações de trabalho e de crime:
“Ele vende chiclete / Capricha na flanela” (trabalho) “Aponta um canivete” / “Arromba uma porta” / “Descola uma bereta” (crime)
O mesmo personagem “Batalha algum trocado” (trabalho) e “Faz ligação direta” (gíria para furto de carro). A alternativa D parafraseia exatamente essa dualidade: “um mesmo personagem pode trabalhar e cometer atos criminosos”. Não acrescenta opinião, não compara com outros grupos, não defende tese — apenas sintetiza as cenas.
Alternativa E — ❌ Incorreta
Erro: tangencia o tema (fuga ao texto). A letra não menciona jovens ricos em nenhum momento. Não há contraste entre classes sociais; há apenas a descrição da vida de um menino pobre. A alternativa E fala de um assunto correlato (desigualdade social), mas que o texto não aborda. É uma extrapolação temática: parece pertinente, mas não está ancorada em nenhuma passagem.
Conclusão: a questão cobra compreensão global — identificar o que a letra apresenta, não o que ela defende ou critica. A única alternativa que se limita a descrever as cenas, sem juízo de valor e sem comparação externa, é a D. As demais ou embutem opinião (A, B, C) ou fogem do tema (E).