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Questão de Português — Interpretação de Textos (Compreensão) — VUNESP 2026

PortuguêsInterpretação de Textos (Compreensão)
Código
vu166616
Banca
VUNESP
Órgão
UNESP
Ano
2026
Cargo
V - - Ass TA I ( )

A economia das bets e a saúde mental

 

“Doutor, minha esposa descobriu. Eram R$ 400 mil que eu deveria ter depositado na conta da construtora. O apartamento dos meus filhos. Apostei tudo.”

 

Quando meu paciente disse isso no consultório, não estava falando de um episódio isolado. Era a quinta vez naquele mês. Cinco pessoas diferentes, cinco histórias semelhantes: a promessa de dinheiro fácil, a ilusão de controle, a espiral de perdas que culmina em desespero. Todas tinham algo em comum: apostas esportivas online, as chamadas bets.

 

O que começou como entretenimento legalizou-se como tragédia sanitária. Em menos de dois anos desde a regulamentação, assistimos a um experimento social em tempo real – e os resultados são alarmantes. Não porque faltassem avisos. Mas porque, como sociedade, decidimos ignorá-los. Os números contam parte da história. Segundo dados do Banco Central e da Confederação Nacional do Comércio, brasileiros destinaram cerca de R$ 240 bilhões às plataformas de apostas em 2024 – valor equivalente ao orçamento anual do Ministério da Saúde, projetado em R$ 246 bilhões para 2025. Estima-se que 1,8 milhão de brasileiros tenha entrado em inadimplência por conta das bets apenas no último ano. O varejo brasileiro estima ter perdido R$ 103 bilhões em 2024 – dinheiro que deixou de circular em supermercados, farmácias e comércio local para alimentar algoritmos de cassinos digitais. Números tristes, mas previsíveis.

 

Há algo perverso no mecanismo do jogo: o design deliberadamente viciante das plataformas. Notificações constantes, “promoções exclusivas”, bônus que nunca se concretizam – tudo meticulosamente calculado para maximizar o engajamento e as perdas do usuário. É engenharia comportamental a serviço do lucro, travestida de entretenimento esportivo. Entre jovens, a situação é ainda mais grave: pesquisas indicam que mais de metade dos que apostam constantemente desenvolvem padrões de jogo problemático ou de risco.

 

O impacto vai além do indivíduo. Nós, psiquiatras, vemos famílias se implodindo – não apenas pela falta de recursos, mas também pela ruptura de confiança quando descobrem que o dinheiro da reserva familiar foi apostado. Testemunhamos casamentos de décadas desmoronando. Atendemos jovens profissionais bem-sucedidos que desenvolveram ansiedade e depressão após contraírem dívidas impagáveis.

 

Precisamos chamar isso pelo nome: não é entretenimento, é saúde pública. A epidemia das bets não é acidente. A pergunta que fica é: quanto sofrimento precisamos testemunhar antes de agir?

 

(Rodolfo Damiano, 22.12.2025. Disponível em: https://www.estadao.com.br/ opiniao. Adaptado)

Leia a tira a seguir para responder à questão     De acordo com o autor, as chamadas bets tornaram-se um problema para os brasileiros porque
  1. Aretiram recursos do comércio nacional, já que a maioria das plataformas é de empresas estrangeiras.
  2. Bprometem muitos benefícios financeiros que só podem ser alcançados após alto dispêndio de dinheiro.
  3. Cinstigam a imaginação das pessoas, prometendo- -lhes lucros vultosos com alto aporte de recursos.
  4. Dcomprometem a saúde mental dos cidadãos, além de prejudicá-los economicamente com o endividamento.
  5. Epromovem a competição entre os apostadores, que veem, cada vez mais, os ganhos superando as perdas.
Revelar gabarito e comentário

GabaritoD — comprometem a saúde mental dos cidadãos, além de prejudicá-los economicamente com o endividamento.

Comentário gerado por IA. É um apoio ao estudo, ancorado em fontes, mas pode conter imprecisões — confira sempre na fonte oficial (lei, súmula, edital e gabarito da banca). Encontrou um erro? Use “Reportar”.

A economia das bets e a saúde mental

Gabarito: letra D. A alternativa D é a única que sintetiza com fidelidade a tese central do autor: as bets tornaram-se um problema porque comprometem a saúde mental dos cidadãos e, ao mesmo tempo, prejudicam-nos economicamente com o endividamento. Essa dupla dimensão — psicológica e financeira — está explícita no texto, sobretudo no trecho em que o autor afirma que "não é entretenimento, é saúde pública" e relata o caso de "jovens profissionais bem-sucedidos que desenvolveram ansiedade e depressão após contraírem dívidas impagáveis".

O comando pede uma compreensão (informação explícita): "De acordo com o autor, as chamadas bets tornaram-se um problema para os brasileiros porque". Ou seja, não se trata de inferir algo subentendido, mas de localizar no texto a razão apresentada pelo autor para considerar as apostas um problema. A resposta correta deve ser uma paráfrase fiel — reescritura que mantém o sentido — de uma ou mais passagens, sem acrescentar ideias de fora.

O texto é um artigo de opinião (dissertativo-argumentativo) escrito por um psiquiatra. A tese é clara: as bets deixaram de ser entretenimento e se tornaram uma tragédia sanitária e um problema de saúde pública. Os argumentos se organizam em duas frentes principais: (1) o impacto econômico — R$ 240 bilhões destinados às plataformas, 1,8 milhão de inadimplentes, R$ 103 bilhões retirados do varejo; e (2) o impacto na saúde mental — o design viciante das plataformas, a ansiedade e a depressão em jovens profissionais, a ruptura de confiança nas famílias. A alternativa D abrange exatamente essas duas frentes, sem extrapolar.

A técnica decisiva aqui é testar cada alternativa contra o texto: pergunte "o texto autoriza isto?" e "isto está dito, ou exige acrescentar algo de fora?". Alternativas que trazem informações plausíveis no mundo real, mas que não estão no texto, são extrapolações e devem ser descartadas. A correta é a única que parafraseia o que o autor efetivamente escreveu, sem adicionar nem restringir.

PEGA ESSA DICA!

Grife o comando: "De acordo com o autor" pede compreensão (localizar a informação explícita), não inferência. Se o comando fosse "infere-se", você poderia deduzir; aqui, a resposta está escrita no texto.

1Impacto econômico
Endividamento
Inadimplência
Retirada do varejo
2Impacto na saúde mental
Ansiedade
Depressão
Design viciante
3Natureza
Não é entretenimento
É saúde pública
Bets como problema (tese do autor)
LEVELsoulevel.com.br
Bets como problema (tese do autor): Impacto econômico (Endividamento, Inadimplência, Retirada do varejo); Impacto na saúde mental (Ansiedade, Depressão, Design viciante); Natureza (Não é entretenimento, É saúde pública)

Alternativa A — ❌ Incorreta

A alternativa afirma que as bets retiram recursos do comércio nacional "já que a maioria das plataformas é de empresas estrangeiras". O texto menciona a retirada de recursos do varejo:

"O varejo brasileiro estima ter perdido R$ 103 bilhões em 2024 – dinheiro que deixou de circular em supermercados, farmácias e comércio local para alimentar algoritmos de cassinos digitais."

Porém, a causa apontada — "a maioria das plataformas é de empresas estrangeiras" — não está no texto. O autor não diz nada sobre a nacionalidade das empresas. A alternativa extrapola: acrescenta uma informação de fora para explicar um dado que o texto apresenta. Além disso, o texto não afirma que essa seja a razão pela qual as bets se tornaram um problema; o problema é o impacto econômico e psicológico, não a origem das empresas.

Alternativa B — ❌ Incorreta

A alternativa diz que as bets "prometem muitos benefícios financeiros que só podem ser alcançados após alto dispêndio de dinheiro". O texto menciona "a promessa de dinheiro fácil" e "bônus que nunca se concretizam", mas não diz que os benefícios só são alcançados após alto dispêndio. Na verdade, o texto sugere o contrário: a promessa é de dinheiro fácil, sem exigir grande aporte inicial. A alternativa restringe o sentido: transforma uma promessa de ganho fácil em uma exigência de alto investimento, o que contradiz a ideia de "dinheiro fácil" presente no texto.

Alternativa C — ❌ Incorreta

A alternativa afirma que as bets "instigam a imaginação das pessoas, prometendo-lhes lucros vultosos com alto aporte de recursos". Novamente, o texto fala em "promessa de dinheiro fácil" e "ilusão de controle", mas não menciona "alto aporte de recursos" como condição para os lucros. A ideia de "instigar a imaginação" também não aparece; o texto fala em "design deliberadamente viciante" e "engenharia comportamental", que é algo mais técnico e manipulador do que simplesmente "instigar a imaginação". A alternativa tangencia o tema: usa palavras próximas (promessa, lucros), mas introduz elementos que o texto não aborda.

Alternativa D — ✅ Correta ⟵ GABARITO

A alternativa D é a única que sintetiza a tese do autor. O texto afirma explicitamente:

"Precisamos chamar isso pelo nome: não é entretenimento, é saúde pública."

E, sobre o impacto econômico:

"Estima-se que 1,8 milhão de brasileiros tenha entrado em inadimplência por conta das bets apenas no último ano."

Além disso, o autor relata o caso de "jovens profissionais bem-sucedidos que desenvolveram ansiedade e depressão após contraírem dívidas impagáveis". A alternativa D une esses dois fios: saúde mental (ansiedade, depressão) e endividamento (dívidas, inadimplência). É uma paráfrase fiel — reescritura que mantém o sentido — sem acrescentar nem restringir. Por isso, é a correta.

Alternativa E — ❌ Incorreta

A alternativa afirma que as bets "promovem a competição entre os apostadores, que veem, cada vez mais, os ganhos superando as perdas". O texto não menciona competição entre apostadores; o que há é uma relação entre o usuário e a plataforma, com o design viciante. Além disso, o texto diz o oposto de "ganhos superando as perdas": fala em "espiral de perdas" e "perdas do usuário". A alternativa contradiz o texto ao inverter o resultado das apostas. É uma distratora clássica: troca um termo crucial (perdas por ganhos) para inverter o sentido.

Conclusão: a questão cobra compreensão — localizar a tese do autor. A alternativa D é a única que parafraseia o texto, unindo os dois impactos (saúde mental e endividamento) que o autor destaca. As demais ou extrapolam (A), restringem (B), tangenciam (C) ou contradizem (E) o que está escrito. Gabarito: letra D.

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