Questão de Português — Interpretação de Textos (Compreensão) — VUNESP 2026
- Código
- vu166617
- Banca
- VUNESP
- Órgão
- UNESP
- Ano
- 2026
- Cargo
- V - - Ass TA I ( )
A economia das bets e a saúde mental
“Doutor, minha esposa descobriu. Eram R$ 400 mil que eu deveria ter depositado na conta da construtora. O apartamento dos meus filhos. Apostei tudo.”
Quando meu paciente disse isso no consultório, não estava falando de um episódio isolado. Era a quinta vez naquele mês. Cinco pessoas diferentes, cinco histórias semelhantes: a promessa de dinheiro fácil, a ilusão de controle, a espiral de perdas que culmina em desespero. Todas tinham algo em comum: apostas esportivas online, as chamadas bets.
O que começou como entretenimento legalizou-se como tragédia sanitária. Em menos de dois anos desde a regulamentação, assistimos a um experimento social em tempo real – e os resultados são alarmantes. Não porque faltassem avisos. Mas porque, como sociedade, decidimos ignorá-los. Os números contam parte da história. Segundo dados do Banco Central e da Confederação Nacional do Comércio, brasileiros destinaram cerca de R$ 240 bilhões às plataformas de apostas em 2024 – valor equivalente ao orçamento anual do Ministério da Saúde, projetado em R$ 246 bilhões para 2025. Estima-se que 1,8 milhão de brasileiros tenha entrado em inadimplência por conta das bets apenas no último ano. O varejo brasileiro estima ter perdido R$ 103 bilhões em 2024 – dinheiro que deixou de circular em supermercados, farmácias e comércio local para alimentar algoritmos de cassinos digitais. Números tristes, mas previsíveis.
Há algo perverso no mecanismo do jogo: o design deliberadamente viciante das plataformas. Notificações constantes, “promoções exclusivas”, bônus que nunca se concretizam – tudo meticulosamente calculado para maximizar o engajamento e as perdas do usuário. É engenharia comportamental a serviço do lucro, travestida de entretenimento esportivo. Entre jovens, a situação é ainda mais grave: pesquisas indicam que mais de metade dos que apostam constantemente desenvolvem padrões de jogo problemático ou de risco.
O impacto vai além do indivíduo. Nós, psiquiatras, vemos famílias se implodindo – não apenas pela falta de recursos, mas também pela ruptura de confiança quando descobrem que o dinheiro da reserva familiar foi apostado. Testemunhamos casamentos de décadas desmoronando. Atendemos jovens profissionais bem-sucedidos que desenvolveram ansiedade e depressão após contraírem dívidas impagáveis.
Precisamos chamar isso pelo nome: não é entretenimento, é saúde pública. A epidemia das bets não é acidente. A pergunta que fica é: quanto sofrimento precisamos testemunhar antes de agir?
(Rodolfo Damiano, 22.12.2025. Disponível em: https://www.estadao.com.br/ opiniao. Adaptado)
- Aamenizar o impacto das perdas, de tal forma que os lucros das bets diminuam para o bem-estar do apostador.
- Bentender as preferências dos apostadores para lhes oferecer condições agradáveis de jogo e distração.
- Ccriar um algoritmo que vigie as atividades dos apostadores, evitando que joguem de forma compulsiva.
- Dludibriar os apostadores, ainda que eles tenham a ilusão de estarem no controle de suas ações.
- Esolapar agressivamente os jogadores, tirando-lhes rapidamente o dinheiro e bloqueando novos acessos.