Questão de Português — Conjugação. Reconhecimento e Emprego dos Modos e Tempos Verbais — VUNESP 2026
Português›Conjugação. Reconhecimento e Emprego dos Modos e Tempos Verbais
Código
vu166650
Banca
VUNESP
Órgão
UNICERRADO
Ano
2026
Cargo
Vest Med ( )
Leia o texto de Dante Gallian para responder à questão.
Indiscutivelmente, vivemos em um tempo em que nunca se teve tanto conhecimento, do ponto de vista científico, sobre a realidade que nos cerca. No mesmo sentido, nunca, tampouco, houve um tempo em que tivemos tanta capacidade técnica de realizar, interferir nos fenômenos e na natureza em si, seja das coisas, seja do homem. Entretanto, como bem ponderava o filósofo e médico alemão Karl Jaspers, se, por um lado, nunca alcançamos um conhecimento tão vasto a respeito das coisas sobre o homem, por outro, nunca fomos tão ignorantes a respeito do humano.
Isso quer dizer: conhecemos, com um grau de precisão cada vez maior, as dinâmicas de funcionamento da existência humana, tanto no âmbito biológico quanto no psicológico e social. Porém, curiosamente, todo esse acúmulo de conhecimento não tem sido suficiente para nos fazer viver melhor, no sentido do ser, no sentido da felicidade — coisa que vai além do mero “bem-estar”, ou da “qualidade de vida”.
Tal constatação não deixa de ser profundamente frustrante para aqueles que tanto apostaram no poder da ciência e da tecnologia modernas. Como já apontava, de forma profética, ainda no alvorecer da crença racional científica, Fiódor Dostoiévski, nós, homens modernos, passamos a acreditar que a nossa ciência, ao explicar cientificamente o que é a vida, nos daria a chave da felicidade.
(Dante Gallian. É próprio do humano: uma odisseia do autoconhecimento e da autorrealização em 12 lições, 2022.)
O trecho em que a flexão verbal indica uma aproximação entre o autor e o leitor, como se houvesse entre eles uma experiência compartilhada, é:
A“Como já apontava, de forma profética [...], Fiódor Dostoiévski” (3º parágrafo).
B“coisa que vai além do mero ‘bem-estar’, ou da ‘qualidade de vida’” (2º parágrafo).
C“ao explicar cientificamente o que é a vida” (3º parágrafo).
D“nunca alcançamos um conhecimento tão vasto a respeito das coisas sobre o homem” (1º parágrafo).
E“Tal constatação não deixa de ser profundamente frustrante” (3º parágrafo).
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GabaritoD — “nunca alcançamos um conhecimento tão vasto a respeito das coisas sobre o homem” (1º parágrafo).
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Flexão verbal de pessoa: a 1ª pessoa do plural como recurso de aproximação
Gabarito: letra D. A questão pede o trecho em que a flexão verbal indica uma aproximação entre autor e leitor, como se houvesse uma experiência compartilhada. Isso ocorre com o uso da 1ª pessoa do plural — o verbo "alcançamos" —, que inclui o leitor no discurso, criando um efeito de inclusão e cumplicidade. Como se lê no 1º parágrafo: "nunca alcançamos um conhecimento tão vasto a respeito das coisas sobre o homem". O pronome oculto "nós" abrange autor e leitor, aproximando-os.
O comando é de interpretação de efeito de sentido da flexão verbal: não se pergunta apenas a pessoa gramatical, mas o efeito discursivo que ela produz. É preciso, portanto, olhar para o contexto de cada trecho e identificar qual flexão cria essa sensação de compartilhamento. A banca explora a diferença entre a 3ª pessoa (que distancia) e a 1ª pessoa do plural (que aproxima).
O texto de Dante Gallian discute o paradoxo entre o avanço científico e a ignorância sobre o humano. No 1º parágrafo, o autor estabelece uma contraposição: de um lado, o conhecimento científico; de outro, a ignorância sobre o humano. Ao usar "alcançamos", ele se coloca no mesmo grupo do leitor, como se ambos compartilhassem dessa condição — é um recurso de aproximação e identificação.
A técnica decisiva é: identifique a pessoa do discurso em cada verbo. A 1ª pessoa do plural (nós) inclui o interlocutor; a 3ª pessoa (ele/eles) o exclui. A alternativa correta é a única que usa "nós" de forma inclusiva, criando a experiência compartilhada. As demais usam 3ª pessoa ou formas impessoais, que mantêm distância.
NÃO CAIA NESSA!
A banca explora a confusão entre pessoa gramatical e efeito de sentido. O candidato pode achar que qualquer verbo no plural aproxima, mas só a 1ª pessoa do plural inclui o leitor; a 3ª pessoa do plural (como "apontava" ou "explicar") mantém distância.
Pessoa do discurso e efeito de sentido: 1ª pessoa do plural (nós) (Inclui o leitor, Aproximação e cumplicidade, Ex.: "alcançamos"); 3ª pessoa (ele/eles) (Exclui o leitor, Distanciamento, Ex.: "apontava", "vai", "deixa"); Infinitivo impessoal (Sem marca de pessoa, Sem aproximação, Ex.: "explicar")
Alternativa A — ❌ Incorreta
"Como já apontava, de forma profética [...], Fiódor Dostoiévski"
O verbo "apontava" está na 3ª pessoa do singular (pretérito imperfeito do indicativo), referindo-se a Dostoiévski. A 3ª pessoa exclui o leitor — o autor fala de um terceiro, não inclui o interlocutor. Erro: troca de pessoa gramatical — não há aproximação, há distanciamento.
Alternativa B — ❌ Incorreta
"coisa que vai além do mero 'bem-estar', ou da 'qualidade de vida'"
O verbo "vai" está na 3ª pessoa do singular, referindo-se a "coisa". Não há inclusão do leitor; é uma afirmação impessoal sobre um conceito. Erro: troca de pessoa gramatical — a 3ª pessoa não cria aproximação.
Alternativa C — ❌ Incorreta
"ao explicar cientificamente o que é a vida"
"Explicar" está no infinitivo impessoal, sem marca de pessoa. Não há sujeito definido, muito menos inclusão do leitor. Erro: forma nominal sem flexão de pessoa — não há aproximação possível.
Alternativa D — ✅ Correta ⟵ GABARITO
"nunca alcançamos um conhecimento tão vasto a respeito das coisas sobre o homem"
O verbo "alcançamos" está na 1ª pessoa do plural (pretérito perfeito do indicativo), com sujeito oculto "nós". Esse "nós" inclui o autor e o leitor, criando a sensação de experiência compartilhada — ambos, juntos, nunca alcançaram tal conhecimento. É exatamente o efeito de aproximação que o enunciado descreve.
Alternativa E — ❌ Incorreta
"Tal constatação não deixa de ser profundamente frustrante"
O verbo "deixa" está na 3ª pessoa do singular, referindo-se a "constatação". A frase é uma avaliação impessoal do autor; não há inclusão do leitor. Erro: troca de pessoa gramatical — a 3ª pessoa distancia, não aproxima.
Conclusão: a chave da questão é reconhecer que a 1ª pessoa do plural é o recurso de aproximação por excelência. Ao usar "alcançamos", o autor se coloca ao lado do leitor, compartilhando a mesma condição. As demais alternativas usam 3ª pessoa ou infinitivo, que mantêm distância. Gabarito: letra D.