Questão de Português — Linguagem Formal e Informal — VUNESP 2026
- Código
- vu166656
- Banca
- VUNESP
- Órgão
- FEMA
- Ano
- 2026
- Cargo
- Vest ( )
1 A senhora subiu, Deus sabe como, em companhia de dois garotos. Cada garoto com sua merendeira e sua pasta de livros e cadernos indispensáveis para a aquisição das preliminares da sabedoria. [...] O ônibus não cabia mais ninguém(C). A bem dizer, não cabia nem o pessoal que se espremia lá dentro em estado de sardinha. Na massa compacta de gente, ou de seções de gente que a vista alcançava, percebi aquelas mãozinhas tentando segurar as pastas atochadas.
— Deixa que eu carrego — falei na direção de um dos braços a meu alcance. Na qualidade de passageiro sentado, é irresistível minha inclinação para carregar embrulhos alheios(A). Estou sempre a oferecer préstimos(B), movido talvez pelo remorso de viajar sentado [...].
— Eu carrego pra vocês — insisti, executando um movimento complicado, para enxergar os rostos dos garotos. O menor olhou-me com surpresa e hesitação(D), porém o mais velho estendeu o braço, e o primeiro, depois de uma cotovelada ministrada pelo segundo, imitou-o. Fiquei de posse de duas bojudas pastas escolares, que acomodei da melhor maneira possível sobre os joelhos. Conheço perfeitamente a técnica de carregar embrulhos dos outros. Deve-se colocá-los de tal modo que fiquem seguros sem que seja necessário pôr a mão em cima deles. São coisas sagradas. Não devemos absolutamente lançar-lhes um olhar, mesmo distraído. O perfeito carregador de embrulhos do próximo deve olhar para fora do ônibus, aparentemente observando um eclipse ou uma regata, porém na realidade com o pensamento fixo naquele pacote, ou bolsa, de que é depositário. Não vá a coisa cair no chão e quebrar. Não vá alguém subtraí-la. Quando até a Santa Casa é assaltada, tudo é possível(E). Mas que conterá mesmo esse embrulho? Seria feio manifestar curiosidade, e perigoso abrir um volume que não nos pertence. Mas que gostaríamos de saber o que tem lá dentro, isto, humildemente o confesso, em meu nome e no do leitor, é pura, descarnada verdade.
Bom, tratando-se de pastas escolares, não havia segredo a descobrir. A voz da senhora saiu daquele bolo humano:
5 — Agradece ao moço, Serginho. Agradece, Raul.
(Carlos Drummond de Andrade. 70 historinhas, 1998.)
- A“é irresistível minha inclinação para carregar embrulhos alheios”
- B“Estou sempre a oferecer préstimos” .
- C“O ônibus não cabia mais ninguém” .
- D“O menor olhou-me com surpresa e hesitação”.
- E“Quando até a Santa Casa é assaltada, tudo é possível”.