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Questão de Português — Interpretação de Textos (Compreensão) — VUNESP 2026

PortuguêsInterpretação de Textos (Compreensão)
Código
vu166678
Banca
VUNESP
Órgão
UNESP
Ano
2026
Cargo
V - - Vest ( )

Nossa maneira habitual de fazer está em seguir os nossos impulsos instintivos para a direita ou para a esquerda, para cima ou para baixo, segundo as circunstâncias. Só pensamos no que queremos no próprio instante em que o queremos, e mudamos de vontade como muda de cor o camaleão. [...] “Somos conduzidos como títeres1 que o fio manobra.”

 

Não vamos, somos levados como os objetos que flutuam, ora devagar, ora com violência, segundo o vento: “Acaso não vemos todo mundo indeciso; uns procurando sem descontinuar, outros mudando de lugar, como para largar uma carga pesada demais?” Cada dia nova fantasia, e movem-se as nossas paixões de acordo com o tempo: “O pensamento dos homens assemelha-se na terra aos cambiantes raios de luz com que Júpiter a fecunda.”

 

Hesitamos em tomar partido; nada decidimos livremente, de maneira absoluta, coerente. Se alguém traçasse e estabelecesse determinadas leis de conduta e regime político de vida, veríamos brilhar em seus atos e atitudes uma harmonia cabal e em seus costumes uma ordem e uma correlação evidentes. Empédocles observa a seguinte contradição entre os agrigentinos2: alguns se entregam aos prazeres como se devessem morrer no dia seguinte e outros edificam como se a vida não tivesse de acabar jamais. [...]

 

Antígono3, que se afeiçoara a um de seus soldados por causa de sua valentia e coragem, mandou que o médico tratasse de uma doença que o atormentava havia muito. Observando, após a cura, que o homem se expunha muito menos nos combates, perguntou qual a razão dessa mudança [...]: “Vós mesmo, Sire4, porquanto me libertastes dos males que faziam com que eu não apreciasse a vida.”

 

(Michel de Montaigne. Ensaios, 2016.)

 

1 títere: marionete. 2 agrigentino: habitante de Agrigento, cidade do sul da Itália. 3 Antígono: um dos mais destacados generais de Alexandre, o Grande. 4 Sire: Senhor.

Para responder a questão seguinte, leia o trecho de um ensaio do filósofo francês Michel de Montaigne.   Depreende-se do último parágrafo que a valentia e a coragem do soldado decorriam, em larga medida,
  1. Ade sua paixão pelos combates.
  2. Bde sua afeição pelo general Antígono.
  3. Cde seu temor pela morte.
  4. Dde seu desencanto com a vida.
  5. Ede sua gratidão pela cura da doença.
Revelar gabarito e comentário

GabaritoD — de seu desencanto com a vida.

Comentário gerado por IA. É um apoio ao estudo, ancorado em fontes, mas pode conter imprecisões — confira sempre na fonte oficial (lei, súmula, edital e gabarito da banca). Encontrou um erro? Use “Reportar”.

A valentia do soldado e o desencanto com a vida

Gabarito: letra D. A valentia e a coragem do soldado decorriam, em larga medida, de seu desencanto com a vida, como se depreende da resposta que ele dá a Antígono: "Vós mesmo, Sire, porquanto me libertastes dos males que faziam com que eu não apreciasse a vida". O texto estabelece uma relação de causa e consequência: a doença fazia com que ele não apreciasse a vida, e era essa falta de apreço que o tornava valente; curado, passou a valorizar a vida e, por isso, a se expor menos.

O comando pede uma inferência ("Depreende-se"), ou seja, uma dedução ancorada em pistas do texto, não uma informação literal. A pista está no último parágrafo, na fala do soldado. Ele explica que, enquanto estava doente, não apreciava a vida — e era exatamente essa indiferença à própria vida que o fazia lutar com bravura, sem medo de morrer. A cura o fez passar a apreciar a vida, e com isso ele passou a se expor menos nos combates. A alternativa D é a única que capta essa relação causal implícita: a coragem nascia do desencanto, da falta de apego à vida.

A armadilha central desta questão é a extrapolação com um fato verdadeiro: a alternativa E (gratidão pela cura) é sedutora porque o soldado realmente foi curado e agradece a Antígono, mas o texto não diz que a gratidão era a causa da valentia — diz exatamente o contrário: a valentia existia antes da cura, quando ele não apreciava a vida. A banca explora o fato real da cura para induzir a uma relação causal que o texto não sustenta.

"Vós mesmo, Sire, porquanto me libertastes dos males que faziam com que eu não apreciasse a vida."

A fala do soldado é a chave: ele atribui a mudança de comportamento (expor-se menos) ao fato de ter sido libertado dos males que o faziam não apreciar a vida. A valentia, portanto, era consequência do desencanto — não da paixão pelos combates, nem da afeição pelo general, nem do temor da morte, nem da gratidão pela cura.

1Desencanto com a vida (gabarito)
Doença → não apreciava a vida
Indiferença à morte → coragem
2Paixão pelos combates
Não mencionada no texto
3Afeição pelo general
Inverte direção (quem se afeiçoa é Antígono)
4Temor da morte
Contradiz: não apreciava a vida
5Gratidão pela cura
Cura veio depois da valentia
Causa da valentia (inferência)
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Causa da valentia (inferência): Desencanto com a vida (gabarito) (Doença → não apreciava a vida, Indiferença à morte → coragem); Paixão pelos combates (Não mencionada no texto); Afeição pelo general (Inverte direção (quem se afeiçoa é Antígono)); Temor da morte (Contradiz: não apreciava a vida); Gratidão pela cura (Cura veio depois da valentia)

Alternativa A — ❌ Incorreta

A alternativa afirma que a valentia decorria da paixão pelos combates. O texto não menciona paixão pelos combates; ao contrário, o soldado se expunha menos após a cura, o que indica que a coragem não vinha do prazer de lutar. A alternativa extrapola ao acrescentar uma motivação que não está no texto.

Alternativa B — ❌ Incorreta

A alternativa afirma que a valentia decorria da afeição pelo general Antígono. O texto diz que Antígono "se afeiçoara" ao soldado, mas não diz que o soldado tinha afeição pelo general, nem que essa afeição fosse a causa da coragem. A alternativa inverte a direção da afeição (quem se afeiçoa é Antígono, não o soldado) e extrapola ao criar uma motivação inexistente.

Alternativa C — ❌ Incorreta

A alternativa afirma que a valentia decorria do temor pela morte. O texto diz exatamente o oposto: o soldado não apreciava a vida, ou seja, não temia a morte — era essa indiferença que o tornava valente. A alternativa contradiz o texto ao inverter a relação: quem teme a morte não se expõe em combates; quem não aprecia a vida, sim.

Alternativa D — ✅ Correta ⟵ GABARITO

A alternativa afirma que a valentia decorria do desencanto com a vida. O texto confirma: o soldado diz que os males da doença "faziam com que eu não apreciasse a vida". A coragem era consequência dessa falta de apreço pela vida — quem não valoriza a própria vida não teme perdê-la em combate. A alternativa é uma paráfrase inferencial da fala do soldado, captando a relação causal implícita.

Alternativa E — ❌ Incorreta

A alternativa afirma que a valentia decorria da gratidão pela cura da doença. O texto mostra que a cura veio depois da valentia: o soldado era valente enquanto estava doente e "não apreciava a vida"; após a cura, passou a se expor menos. A gratidão pela cura explica a mudança de comportamento, mas não a valentia anterior. A alternativa extrapola ao inverter a ordem cronológica e criar uma causa que o texto não sustenta.

NÃO CAIA NESSA!

A banca explora a extrapolação com um fato verdadeiro — o soldado foi curado e agradece a Antígono (fato real no texto), mas a valentia não decorria da gratidão; decorria do desencanto com a vida, que a cura eliminou. A alternativa E parece plausível, mas inverte a relação causal.

PEGA ESSA DICA!

Em questões de inferência, pergunte-se: "o texto autoriza esta causa, ou exige que eu acrescente algo de fora?". A causa correta está implícita na fala do personagem, não em fatos externos ao texto.

Gabarito: letra D. A valentia do soldado decorria de seu desencanto com a vida, como se infere da fala em que ele atribui a mudança de comportamento à libertação dos males que o faziam não apreciar a vida.

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