Questão de Português — Interpretação de Textos (Compreensão) — VUNESP 2026
Português›Interpretação de Textos (Compreensão)
Código
vu166683
Banca
VUNESP
Órgão
UNESP
Ano
2026
Cargo
V - - Vest ( )
Para responder a questão, leia o soneto “Tédio”, do poeta parnasiano Olavo Bilac, publicado originalmente em 1902.
Sobre minh’alma, como sobre um trono, Senhor brutal, pesa o aborrecimento. Como tardas em vir, último outono, Lançar-me as folhas últimas ao vento!
Oh! dormir, no silêncio e no abandono, Só, sem um sonho, sem um pensamento, E, no letargo¹ do aniquilamento, Ter, ó pedra, a quietude do teu sono!
Oh! deixar de sonhar o que não vejo! Ter o sangue gelado, e a carne fria! E, de uma luz crepuscular velada, Deixar a alma dormir sem um desejo, Ampla, fúnebre, lúgubre, vazia Como uma catedral abandonada!....
(Olavo Bilac. Poesias, 2001.)
¹ letargo: letargia.
No soneto, o eu lírico aspira, sobretudo,
Aà imortalidade.
Bà angústia.
Cà solidão.
Dà liberdade.
Eà extinção.
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GabaritoE — à extinção.
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O desejo de extinção no soneto "Tédio"
Gabarito: letra E. O eu lírico aspira, sobretudo, à extinção — ao aniquilamento total, ao apagamento de toda vida, desejo e pensamento. Isso se prova no texto pela sequência de imagens de morte e vazio: "no letargo do aniquilamento", "Ter o sangue gelado, e a carne fria", "Deixar a alma dormir sem um desejo, / Ampla, fúnebre, lúgubre, vazia". A alternativa E é a única que capta esse desejo radical de cessação completa, enquanto as demais ou ficam num aspecto parcial (solidão, liberdade) ou introduzem ideias que o texto não sustenta (imortalidade, angústia).
O comando pede que se identifique o que o eu lírico aspira, sobretudo — ou seja, o desejo central que perpassa todo o poema. Não se trata de localizar uma informação literal, mas de inferir a partir das imagens e do vocabulário o anseio dominante. A palavra "sobretudo" indica que há um núcleo, um desejo que se sobrepõe aos demais.
O poema descreve um estado de tédio absoluto, em que o eu lírico se sente esmagado pelo "aborrecimento" (1ª estrofe). A partir daí, ele expressa o que deseja: dormir no silêncio e no abandono, sem sonho, sem pensamento, e alcançar a "quietude" da pedra (2ª estrofe). Na 3ª estrofe, o desejo se intensifica: "deixar de sonhar o que não vejo", "ter o sangue gelado, e a carne fria", e, por fim, "deixar a alma dormir sem um desejo, / Ampla, fúnebre, lúgubre, vazia / Como uma catedral abandonada".
A técnica decisiva é rastrear as palavras-chave que apontam para o aniquilamento: "aniquilamento", "letargo", "quietude", "gelado", "frio", "fúnebre", "lúgubre", "vazia". Todas convergem para a ideia de cessação da vida e da consciência — não apenas solidão ou liberdade, mas o nada. A comparação final com a "catedral abandonada" reforça o vazio absoluto, sem qualquer presença ou movimento.
A armadilha central da banca é oferecer alternativas que captam aspectos parciais do poema. "Solidão" (C) e "liberdade" (D) aparecem como elementos do desejo, mas não são o fim último: o eu lírico quer a solidão como meio para alcançar o aniquilamento, e a liberdade como ausência de desejo — não uma liberdade positiva. "Angústia" (B) é o sentimento que o tédio provoca, não o que ele aspira. "Imortalidade" (A) é o oposto do que o texto expressa: o eu lírico deseja a morte, não a vida eterna.
Desejo central do eu lírico
1Extinção (aniquilamento total)
"letargo do aniquilamento"
"sangue gelado, carne fria"
"alma vazia"
2Aspectos parciais (armadilhas)
Solidão (meio, não fim)
Liberdade (ausência de desejo)
Angústia (estado atual, não aspiração)
Imortalidade (oposto do texto)
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Alternativa A — ❌ Incorreta
A imortalidade contradiz o texto. O eu lírico deseja o oposto: o aniquilamento, o fim de tudo. A passagem "no letargo do aniquilamento" e "Ter o sangue gelado, e a carne fria" expressam desejo de morte, não de vida eterna. A alternativa inverte o sentido do poema.
Alternativa B — ❌ Incorreta
A angústia é o estado atual do eu lírico (o "aborrecimento" que pesa sobre a alma), não aquilo que ele aspira. Ele quer escapar da angústia por meio do aniquilamento. A alternativa confunde o ponto de partida com o ponto de chegada.
Alternativa C — ❌ Incorreta
A solidão é um meio para o aniquilamento, não o fim último. O eu lírico deseja "dormir, no silêncio e no abandono", mas isso é parte do processo de apagamento total. A alternativa restringe o alcance do desejo, que é mais radical: não basta estar só; é preciso deixar de existir.
Alternativa D — ❌ Incorreta
A liberdade aparece apenas como ausência de desejo ("Deixar a alma dormir sem um desejo"), não como uma liberdade positiva de ação ou escolha. O eu lírico não quer ser livre para algo; quer ser livre de tudo, inclusive da própria consciência. A alternativa tangencia o tema, focando num aspecto secundário.
Alternativa E — ✅ Correta ⟵ GABARITO
A extinção é o desejo central, provado pelas imagens de aniquilamento e vazio: "no letargo do aniquilamento", "Ter o sangue gelado, e a carne fria", "Deixar a alma dormir sem um desejo, / Ampla, fúnebre, lúgubre, vazia". O eu lírico aspira ao nada absoluto, à cessação de toda vida e pensamento — exatamente o que a alternativa E expressa.
PEGA ESSA DICA!
Em questões de poema, sublinhe as palavras que indicam o estado desejado (substantivos e adjetivos) e pergunte: elas apontam para vida ou morte? Para movimento ou paralisia? Isso separa o desejo central dos aspectos periféricos.
Gabarito: letra E — a única que capta o anseio radical de extinção que perpassa todo o soneto.