Pular para o conteúdo principal

Questão de Português — Tipos de Discurso (Direto, Indireto e Indireto Livre) — VUNESP 2026

PortuguêsTipos de Discurso (Direto, Indireto e Indireto Livre)
Código
vu166689
Banca
VUNESP
Órgão
UNESP
Ano
2026
Cargo
V - - Vest ( )

Para responder a questão, leia um trecho do romance Helena, de Machado de Assis, publicado originalmente em 1876.

 

No dia seguinte de manhã, informado de que a tia dormia sossegadamente, Estácio abriu uma das janelas do quarto e relanceou os olhos pela chácara. A alguns passos de distância, entre duas laranjeiras, viu Helena ler atentamente um papel. Era uma carta, longa de todas as suas quatro laudas escritas. Seria alguma mensagem amorosa?

 

Essa ideia molestou-o muito. Afastou-se da janela, conchegou¹ as cortinas, e pela fresta procurou observar a irmã. Helena estava de pé, no mesmo lugar, e percorria rapidamente as linhas, até ao final da última página. Ali chegada, deu dous passos, tornou a parar, volveu ao princípio da carta, para a ler de novo, não já depressa, mas repousadamente. Estácio sentiu-se movido de imperiosa curiosidade, à qual vinha misturar-se uma sombra de despeito e ciúme. A ideia de que Helena podia repartir o coração com outra pessoa desconsolava-o, ao mesmo tempo que o irritava. A razão de semelhante exclusivismo, não a explicou ele, nem tentou investigá-la, sentiu-lhe somente os efeitos, e ficou ali sem saber que faria. Duas vezes saiu da janela para ir ter com a irmã, mas recuou de ambas, refletindo que a curiosidade parecia impolidez, se não era talvez tirania. Ao cabo de alguns minutos de hesitação, saiu do quarto e dirigiu-se à chácara.

 

Quando ali chegou, Helena passeava lentamente, com os olhos no chão. Estácio parou diante dela.

 

— Já fora de casa! — exclamou em tom de gracejo.

 

Helena tinha a carta na mão esquerda; instintivamente a amarrotou como para escondê-la melhor. Estácio, a quem não escapou o gesto, perguntou-lhe rindo se era alguma nota falsa.

 

— Nota verdadeira — disse ela, alisando tranquilamente o papel, e dobrando-o conforme recebera —; é uma carta.

 

— Segredos de moça?

 

— Quer lê-la? — perguntou Helena, apresentando-lha.

 

Estácio fez-se vermelho e recusou com um gesto. Helena dobrou lentamente o papel e guardou-o na algibeira do vestido. A inocência não teria mais puro rosto; a hipocrisia não encontraria mais impassível² máscara. Estácio contemplava-a, a um tempo envergonhado e suspeitoso; a carta fazia-lhe cócegas; o olhar ambicionava ser como o da Providência, que penetra nos mais íntimos refolhos do coração. Vieram, entretanto, dizer a Helena que D. Úrsula lhe pedia fosse ter com ela. Estácio ficou só. Uma vez só, entregou-se a um inquérito mental sobre a procedência da misteriosa missiva³. Um indício havia de que podia conter alguma coisa secreta; era o gesto com que ela a escondera. Mas não podia ser de alguma antiga companheira do colégio, que lhe confiava segredos seus? Estácio abraçou com alvoroço essa hipótese. Depois, ocorreu-lhe que, ainda provindo de uma amiga, a carta podia tratar de algum idílio do colégio, em que Helena fosse protagonista, idílio vivo ou morto, página de esperança ou de saudade. Ainda nesse caso, que tinha ele com isso? [...]

 

Dona Úrsula não estava de todo boa, mas pôde almoçar à mesa comum. O sobrinho apareceu aborrecido, a sobrinha, triste; o diálogo foi mastigado como o almoço.

 

(Helena, 2018.)

 

¹ conchegar: ajeitar.

² impassível: que não experimenta ou não denota exteriormente nenhuma emoção, sentimento ou perturbação; imperturbável.
³ missiva: carta.

O chamado discurso indireto livre constitui uma construção em que a voz de um personagem se mescla intimamente à voz do narrador. É o que ocorre em:
  1. A“Estácio sentiu-se movido de imperiosa curiosidade, à qual vinha misturar-se uma sombra de despeito e ciúme.” (em verde)
  2. B“Era uma carta, longa de todas as suas quatro laudas escritas. Seria alguma mensagem amorosa?” (em azul)
  3. C“Estácio, a quem não escapou o gesto, perguntou-lhe rindo se era alguma nota falsa.” (em roxo)
  4. D“— Quer lê-la? — perguntou Helena, apresentando-lha.” (em amarelo)
  5. E“Estácio ficou só. Uma vez só, entregou-se a um inquérito mental sobre a procedência da misteriosa missiva.” (em vermelho)
Revelar gabarito e comentário

GabaritoB — “Era uma carta, longa de todas as suas quatro laudas escritas. Seria alguma mensagem amorosa?” (em azul)

Comentário gerado por IA. É um apoio ao estudo, ancorado em fontes, mas pode conter imprecisões — confira sempre na fonte oficial (lei, súmula, edital e gabarito da banca). Encontrou um erro? Use “Reportar”.

Discurso indireto livre: a voz da personagem dentro da narração

Gabarito: letra B. O discurso indireto livre ocorre quando o pensamento ou a fala da personagem se insere no discurso do narrador sem marcas formais (verbos de elocução, travessão, aspas, conjunção). No trecho da alternativa B, a pergunta "Seria alguma mensagem amorosa?" é a voz interior de Estácio, mas aparece sem nenhum verbo introdutor — ela brota diretamente no meio da narração, como se fosse do narrador, mas só pode ser do personagem. É exatamente a mescla de vozes que o enunciado descreve.

O comando: identificar o fenômeno, não o conteúdo

A questão pede que você reconheça, entre cinco trechos, aquele em que ocorre o discurso indireto livre. Isso é uma tarefa de análise linguística — você não precisa interpretar o enredo, mas sim identificar a estrutura do discurso. O comando já define o conceito: "a voz de um personagem se mescla intimamente à voz do narrador". Ou seja, você deve procurar um trecho em que não haja marcas de separação entre o que o narrador conta e o que a personagem pensa/fala.

O texto: onde mora a resposta

No trecho de Helena, o narrador conta que Estácio vê Helena lendo uma carta e se pergunta sobre ela. A alternativa B traz:

"Era uma carta, longa de todas as suas quatro laudas escritas. Seria alguma mensagem amorosa?"

A primeira frase é do narrador (descrição objetiva). A segunda, "Seria alguma mensagem amorosa?", é o pensamento de Estácio — mas não há "pensou ele", "perguntou-se", nem travessão ou aspas. A pergunta aparece solta, como se o narrador a fizesse, mas o leitor entende que é a dúvida do personagem. Essa é a marca clássica do discurso indireto livre: a interrogação direta do pensamento, sem introdutor.

A técnica: como reconhecer o discurso indireto livre

O discurso indireto livre tem três características principais:

  • Não há verbo de elocução (dizer, perguntar, exclamar) introduzindo a fala/pensamento;

  • Não há pontuação de diálogo (travessão, aspas, dois-pontos);

  • Não há conjunção integrante (que, se) ligando a fala ao narrador.

Além disso, costuma aparecer com interrogações ou exclamações, que revelam a subjetividade da personagem. No trecho da B, a interrogação é o sinal de que ali está a voz de Estácio.

Análise das alternativas

Característica

Discurso Direto

Discurso Indireto

Discurso Indireto Livre

Marca formal

Travessão, aspas, dois-pontos

Verbo de elocução + conjunção integrante (que, se)

Ausência de marcas formais

Voz predominante

Personagem (transcrição literal)

Narrador (reporta a fala)

Mescla: narrador + personagem

Exemplo típico

— Quer lê-la? — perguntou Helena.

Perguntou-lhe se era alguma nota falsa.

Seria alguma mensagem amorosa?

Discurso indireto livre
  • 1Voz do personagem + narrador
  • 2Sem marcas formais
    • Sem verbo de elocução
    • Sem travessão/aspas
    • Sem conjunção integrante
  • 3Sinais típicos
    • Interrogação direta
    • Exclamação
  • 4Outros discursos
    • Direto
      • Travessão/aspas
      • Verbo de elocução
    • Indireto
      • Verbo + conjunção (que/se)
LEVEL · soulevel.com.br

Alternativa A — ❌ Incorreta

"Estácio sentiu-se movido de imperiosa curiosidade, à qual vinha misturar-se uma sombra de despeito e ciúme."

Aqui o narrador descreve os sentimentos de Estácio de forma indireta, mas não há a voz do personagem — não há pensamento ou fala dele. É pura narração em 3ª pessoa, sem mescla de vozes. Erro: ausência do discurso indireto livre (é apenas discurso do narrador).

Alternativa B — ✅ Correta ⟵ GABARITO

Como explicado, a pergunta "Seria alguma mensagem amorosa?" é o pensamento de Estácio inserido sem marca formal no discurso do narrador. A interrogação direta, sem verbo introdutor, é a assinatura do discurso indireto livre.

Alternativa C — ❌ Incorreta

"Estácio, a quem não escapou o gesto, perguntou-lhe rindo se era alguma nota falsa."

Aqui há discurso indireto: o verbo "perguntou" + a conjunção "se" introduzem a fala de Estácio. A fala é reportada pelo narrador, não apresentada diretamente. Erro: é discurso indireto, não indireto livre.

Alternativa D — ❌ Incorreta

"— Quer lê-la? — perguntou Helena, apresentando-lha."

Travessão + verbo de elocução ("perguntou") = discurso direto. A fala de Helena é transcrita literalmente, com marcação clara. Erro: é discurso direto.

Alternativa E — ❌ Incorreta

"Estácio ficou só. Uma vez só, entregou-se a um inquérito mental sobre a procedência da misteriosa missiva."

O narrador resume o pensamento de Estácio ("entregou-se a um inquérito mental"), mas não o apresenta diretamente. Não há a voz do personagem, apenas a descrição do ato de pensar. Erro: é discurso indireto (o narrador relata o pensamento, sem citá-lo).

NÃO CAIA NESSA!

A banca coloca um trecho de discurso direto (D) e dois de discurso indireto (C e E) como distratores. A chave é perceber que no indireto livre não há verbo introdutor nem conjunção — a voz da personagem aparece "crua", muitas vezes com interrogação ou exclamação.

PEGA ESSA DICA!

Ao identificar discurso indireto livre, procure por interrogações ou exclamações sem aspas/travessão e sem verbos como "pensou", "perguntou". Se houver verbo de elocução ou conjunção, é direto ou indireto.

Conclusão: a única alternativa em que a voz da personagem se mescla à do narrador sem marcas formais é a B. As demais ou são pura narração (A), ou discurso indireto (C, E), ou discurso direto (D).

Gabarito: letra B

Link permanente: /questoes/vu166689