Questão de Português — Tipologia e Gênero Textual — VUNESP 2026
Português›Tipologia e Gênero Textual
Código
vu166695
Banca
VUNESP
Órgão
UNIVESP
Ano
2026
Cargo
Vest ( )
Leia o trecho do texto “O homem cadente”, do escritor moçambicano Mia Couto, para responder a questão
Quando me vieram chamar, nem acreditei:
— É Zuzézinho! Está caindo do prédio.
E as gentes, em volta, se depressavam para o sucedido. Me juntei às correrias, a pergunta zaranzeando: o homem estava caindo? Aquele gerúndio era um desmando nas graves leis da gravidade: quem cai, já caiu.
Enquanto corria, meu coração se constringia. Antevia meu velho amigo estatelado na calçada. [...]
Me aproximava do prédio e já me aranhava na multidão. Coisa de inacreditar: olhavam todos para cima. Quando fitei os céus, ainda mais me perturbei: lá estava, pairando como águia real, o Zuzé Neto. O próprio José Antunes Marques Neto, em artes de aero-anjo. Estava caindo? Se sim, vinha mais lento que o planar do planeta pelos céus.
(Mia Couto. O fio das missangas, 2004.)
O trecho do texto se caracteriza como
Anarrativo.
Bdissertativo.
Cargumentativo.
Dcientífico.
Ejornalístico.
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GabaritoA — narrativo.
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Tipologia textual: o trecho é narrativo
Gabarito: letra A. O trecho de Mia Couto é narrativo porque conta uma sequência de acontecimentos — alguém é chamado, corre até o prédio, fita os céus e vê o amigo “pairando como águia real”. A resposta está ancorada na presença de personagens (o narrador, Zuzézinho/Zuzé Neto), tempo (o momento do chamado e da corrida), espaço (a rua, o prédio) e enredo (a notícia da queda, a expectativa, a visão do amigo no ar), como se lê já no primeiro parágrafo: “Quando me vieram chamar, nem acreditei: — É Zuzézinho! Está caindo do prédio.”
O comando: identificar a tipologia predominante
A questão pede que você classifique o texto quanto ao tipo textual — não ao gênero (crônica, conto etc.), nem ao assunto. Para isso, o critério decisivo é a intenção predominante: o texto relata uma sequência de fatos no tempo, e não explica um conceito, defende uma tese, descreve estaticamente uma cena ou informa com imparcialidade jornalística. Quando o comando é “o trecho se caracteriza como”, você deve olhar para a estrutura e a função do texto, não para o tema.
O texto: uma cena em movimento
O narrador-personagem recebe a notícia de que Zuzézinho está caindo do prédio e sai correndo. Há progressão temporal clara: “Quando me vieram chamar” → “Me juntei às correrias” → “Enquanto corria” → “Me aproximava do prédio” → “Quando fitei os céus”. Cada verbo marca um novo momento da ação, o que é a marca registrada da narração. Além disso, há personagens (o narrador, Zuzézinho, as “gentes”), espaço (a calçada, o prédio, os céus) e um conflito (a queda iminente do amigo). O trecho não para para caracterizar o ambiente — ele avança com os acontecimentos.
A técnica: narração = relato de fatos em sequência
O texto narrativo é aquele em que se conta um fato, real ou fictício, com personagens, tempo, espaço e enredo, com verbos predominantemente no pretérito (vieram, juntei, corria, aproximava, fitei) e conectores de sucessão (quando, enquanto). O trecho de Mia Couto tem tudo isso: o narrador relata o que aconteceu — o chamado, a corrida, a visão do amigo no ar. Não há tese a defender (isso seria dissertativo-argumentativo), não há explicação imparcial de um tema (dissertativo-expositivo), não há instruções (injuntivo) e não há imparcialidade jornalística (o texto é subjetivo, em 1ª pessoa, com marcas de opinião e emoção: “meu coração se constringia”, “Coisa de inacreditar”).
NÃO CAIA NESSA!
A banca oferece alternativas que representam outros tipos textuais (dissertativo, argumentativo, científico, jornalístico) para testar se o candidato identifica a predominância da narração no trecho. A armadilha é confundir o tema (um homem caindo de um prédio, que poderia virar notícia) com a forma (o relato subjetivo em 1ª pessoa).
O trecho é narrativo porque relata uma sequência de acontecimentos com personagens, tempo, espaço e enredo. A prova está nos verbos de ação no pretérito e na progressão temporal: “Quando me vieram chamar”, “Me juntei às correrias”, “Enquanto corria”, “Me aproximava do prédio”, “Quando fitei os céus”. O narrador conta o que aconteceu — não explica, não argumenta, não descreve estaticamente.
Alternativa B — ❌ Incorreta
Dissertativo seria um texto que expõe ideias de forma impessoal, com introdução, desenvolvimento e conclusão, sem relato de fatos. O trecho não faz isso: não há tese, não há explicação de conceitos, não há neutralidade. O erro é tangenciar — o texto até menciona uma reflexão (“Aquele gerúndio era um desmando nas graves leis da gravidade”), mas isso é um comentário do narrador dentro do relato, não a estrutura dominante.
Alternativa C — ❌ Incorreta
Argumentativo seria um texto que defende um ponto de vista com argumentos para convencer o leitor. O trecho não tem tese nem estratégia de persuasão; o narrador apenas conta o que viu e sentiu. A alternativa extrapola ao transformar um comentário pontual do narrador em uma argumentação.
Alternativa D — ❌ Incorreta
Científico seria um texto com linguagem técnica, objetiva e imparcial, baseado em dados e experimentos. O trecho é literário e subjetivo, com marcas de emoção (“meu coração se constringia”) e figuras de linguagem (“pairando como águia real”). A alternativa contradiz o texto, que é claramente ficcional e expressivo.
Alternativa E — ❌ Incorreta
Jornalístico seria um texto informativo e imparcial, com lide e estrutura de notícia. O trecho é um relato pessoal em 1ª pessoa, com opiniões e emoções do narrador — nada de neutralidade jornalística. A alternativa tangencia o tema (um homem caindo de um prédio poderia virar notícia), mas a forma é de narração literária.
PEGA ESSA DICA!
Para identificar a tipologia, pergunte: “o texto conta (narrativo), descreve (descritivo), explica (expositivo), defende (argumentativo) ou instrui (injuntivo)?”. Se houver sequência de ações com personagens e tempo, é narração.