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Questão de Português — Figuras de Linguagem — VUNESP 2026

PortuguêsFiguras de Linguagem
Código
vu166704
Banca
VUNESP
Órgão
Humanitas
Ano
2026
Cargo
Vest Med ( )

Leia o conto “Estes contos”, de Carlos Drummond de Andrade, para responder à questão.

 

1  Há muita coisa a emendar em meus contos. Às vezes eles saem totalmente ao contrário daquilo que pretendiam contar. Costumam até ficar melhor, mas nem sempre.

 

Certos contos, os mais simples, parecem inverossímeis, e os inverossímeis, pois também escrevi alguns desta natureza, despertam o comentário: “Daí, quem sabe? Tudo pode acontecer”.

 

Tenho a impressão de que tudo pode mesmo acontecer em matéria de contos, ou melhor, no interior deles. Houve um que se recusou a terminar, como se dissesse: “Fica tão bom assim… Só você não percebe isto”.

 

Duas historietas exigiram que as concluísse confessando minha incapacidade de contista. Como eu me recusasse a atendê-las, retrucaram: “Não faz mal. Não é preciso confessar; todos sabem”.

 

5  Só um de meus contos me acompanha por toda parte, ao jeito de gato fiel, sem que o faça para pedir alimento. É um continho bobo, anão, contente da vida. Vai no meu bolso. Não o leio para ninguém. Seu calor me agasalha. Já não me lembra o que diz, pois nunca o releio, mas sei que é raríssimo o texto que seja amigo do autor, e quanto a este, não duvido. Meu melhor amigo é um continho em branco, de enredo singelo, passado todo ele na antena esquerda de um gafanhoto.

 

(Carlos Drummond de Andrade. Contos plausíveis, 2025.)

O narrador do conto, ele próprio um escritor, atribui vontade própria aos seus contos, personificando-os, como se verifica no trecho:
  1. A“Não o leio para ninguém” (5º parágrafo).
  2. B“Houve um que se recusou a terminar” (3º parágrafo).
  3. C“pois também escrevi alguns desta natureza” (2º parágrafo).
  4. D“Certos contos, os mais simples, parecem inverossímeis” (2º parágrafo).
  5. E“‘Daí, quem sabe? Tudo pode acontecer’” (2º parágrafo).
Revelar gabarito e comentário

GabaritoB — “Houve um que se recusou a terminar” (3º parágrafo).

Comentário gerado por IA. É um apoio ao estudo, ancorado em fontes, mas pode conter imprecisões — confira sempre na fonte oficial (lei, súmula, edital e gabarito da banca). Encontrou um erro? Use “Reportar”.

Prosopopeia: os contos que ganham vida

Gabarito: letra B. O trecho "Houve um que se recusou a terminar" (3º parágrafo) é o único que atribui vontade própria a um conto, personificando-o: o verbo "recusar-se" exige um ser capaz de querer, e o conto é tratado como sujeito dessa ação. As demais alternativas ou descrevem ações do narrador, ou citam falas, ou fazem afirmações sobre os contos sem lhes dar vontade.

O comando pede que você identifique o trecho em que o narrador personifica os contos, ou seja, que lhes atribui características humanas. Personificação (ou prosopopeia) é a figura de linguagem que dá vida, sentimentos ou ações humanas a seres inanimados ou abstratos. Aqui, os contos são tratados como se tivessem vontade própria: recusam-se, exigem, retrucam, acompanham o autor. A questão é de compreensão literal — basta localizar o trecho que contém essa figura.

No texto, o narrador, um escritor, fala de seus contos como se fossem entes autônomos. No 3º parágrafo, lemos:

"Houve um que se recusou a terminar, como se dissesse: 'Fica tão bom assim… Só você não percebe isto'."

O verbo "recusou" é a chave: recusar é um ato de vontade, próprio de quem tem desejo. Um conto não pode, literalmente, recusar-se a terminar; ao atribuir essa ação a ele, o narrador o personifica. Além disso, o trecho ainda acrescenta "como se dissesse", reforçando a ideia de que o conto tem voz e opinião.

A técnica para resolver é simples: procure o verbo que só um ser humano (ou animal) poderia praticar. "Recusar-se" é um verbo de vontade; "escrever", "ler", "parecer" e "dizer" (quando é o narrador que fala) não personificam. Vamos às alternativas:

Alternativa A — ❌ Incorreta

"Não o leio para ninguém" (5º parágrafo).

Aqui o sujeito é o narrador (eu), não o conto. O verbo "leio" é ação do escritor, não do conto. Não há personificação; apenas uma ação do narrador em relação ao conto.

Alternativa B — ✅ Correta ⟵ GABARITO

"Houve um que se recusou a terminar" (3º parágrafo).

Como vimos, "recusou-se" atribui vontade ao conto. É a personificação clássica: um ser inanimado (o conto) praticando um ato de vontade. O trecho é a prova direta do que o enunciado pede.

Alternativa C — ❌ Incorreta

"pois também escrevi alguns desta natureza" (2º parágrafo).

O verbo "escrevi" é do narrador (eu). O trecho apenas informa que o autor escreveu contos inverossímeis; não há atribuição de vontade aos contos. É uma ação do escritor, não dos contos.

Alternativa D — ❌ Incorreta

"Certos contos, os mais simples, parecem inverossímeis" (2º parágrafo).

O verbo "parecem" expressa uma aparência, uma impressão do narrador, não uma ação voluntária dos contos. "Parecer" não é um ato de vontade; é um verbo de ligação. Não há personificação.

Alternativa E — ❌ Incorreta

"'Daí, quem sabe? Tudo pode acontecer'" (2º parágrafo).

Esta é uma fala atribuída a um comentário externo ("despertam o comentário"), não uma ação dos contos. O trecho é uma citação, não uma personificação. Além disso, "tudo pode acontecer" é uma expressão genérica, sem atribuir vontade a nada.

NÃO CAIA NESSA!

A banca coloca trechos que falam sobre os contos (D), que citam falas (E) ou que descrevem ações do narrador (A e C) para confundir com a personificação. A chave é sempre o verbo: só "recusou-se" é um ato de vontade.

PEGA ESSA DICA!

Ao identificar prosopopeia, pergunte: "quem pratica a ação?" Se o sujeito é um ser inanimado e a ação é típica de ser humano, há personificação. Verbos como recusar, querer, exigir, retrucar são fortes indicadores.

Gabarito: letra B.

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