Questão de Português — Interpretação de Textos (Compreensão) — VUNESP 2026
Português›Interpretação de Textos (Compreensão)
Código
vu166705
Banca
VUNESP
Órgão
Humanitas
Ano
2026
Cargo
Vest Med ( )
Leia o conto “Estes contos”, de Carlos Drummond de Andrade, para responder à questão.
1 Há muita coisa a emendar em meus contos. Às vezes eles saem totalmente ao contrário daquilo que pretendiam contar. Costumam até ficar melhor, mas nem sempre.
Certos contos, os mais simples, parecem inverossímeis, e os inverossímeis, pois também escrevi alguns desta natureza, despertam o comentário: “Daí, quem sabe? Tudo pode acontecer”.
Tenho a impressão de que tudo pode mesmo acontecer em matéria de contos, ou melhor, no interior deles. Houve um que se recusou a terminar, como se dissesse: “Fica tão bom assim… Só você não percebe isto”.
Duas historietas exigiram que as concluísse confessando minha incapacidade de contista. Como eu me recusasse a atendê-las, retrucaram: “Não faz mal. Não é preciso confessar; todos sabem”.
5 Só um de meus contos me acompanha por toda parte, ao jeito de gato fiel, sem que o faça para pedir alimento. É um continho bobo, anão, contente da vida. Vai no meu bolso. Não o leio para ninguém. Seu calor me agasalha. Já não me lembra o que diz, pois nunca o releio, mas sei que é raríssimo o texto que seja amigo do autor, e quanto a este, não duvido. Meu melhor amigo é um continho em branco, de enredo singelo, passado todo ele na antena esquerda de um gafanhoto.
(Carlos Drummond de Andrade. Contos plausíveis, 2025.)
No quinto parágrafo, o narrador menciona um “continho em branco”. A relação estabelecida, ao longo desse parágrafo, entre ele, narrador, e o “continho em branco” é de
Aafeto mútuo.
Bcompetição desleal.
Crivalidade artística.
Dressentimento velado.
Eadmiração intelectual.
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GabaritoA — afeto mútuo.
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A relação entre o narrador e o “continho em branco”
Gabarito: letra A. A relação estabelecida no quinto parágrafo entre o narrador e o “continho em branco” é de afeto mútuo, pois o texto mostra, de um lado, o carinho do narrador pelo conto — que o acompanha “ao jeito de gato fiel”, vai no seu bolso e cujo “calor me agasalha” — e, de outro, a reciprocidade do conto, que é descrito como “amigo do autor” e que “não duvido” dessa amizade. A passagem que ancora essa leitura é a seguinte:
“Só um de meus contos me acompanha por toda parte, ao jeito de gato fiel, sem que o faça para pedir alimento. […] Seu calor me agasalha. […] mas sei que é raríssimo o texto que seja amigo do autor, e quanto a este, não duvido.”
A alternativa correta é a única que capta essa via de mão dupla: o narrador dá afeto (guarda o conto, sente seu calor) e o conto retribui (acompanha, é amigo). As demais alternativas ou atribuem ao texto sentimentos que ele não expressa (competição, rivalidade, ressentimento) ou restringem a relação a um único polo (admiração intelectual), o que não corresponde ao que está escrito.
O comando da questão
O enunciado pede que se identifique a relação estabelecida entre o narrador e o “continho em branco” ao longo do quinto parágrafo. Trata-se de uma questão de compreensão (o que o texto afirma), e não de inferência: a resposta está explícita nas palavras do parágrafo, bastando reconhecer a paráfrase correta. O verbo “menciona” e a expressão “a relação estabelecida” indicam que devemos buscar no texto os vínculos afetivos, simbólicos ou intelectuais que o narrador descreve — e não deduzir algo que não esteja dito.
O texto e o movimento do parágrafo
O conto de Drummond é uma metalinguagem lúdica: o narrador fala de seus próprios contos como se fossem seres autônomos, com vontade própria. No quinto parágrafo, ele destaca um único conto que o acompanha “por toda parte”, e a descrição é toda construída com imagens de proximidade e carinho:
“ao jeito de gato fiel” — o gato é o animal doméstico que acompanha o dono por afeto, não por interesse (o texto reforça: “sem que o faça para pedir alimento”);
“Vai no meu bolso” — o conto está sempre junto, num gesto de intimidade;
“Seu calor me agasalha” — o conto aquece o narrador, ou seja, conforta, protege;
“é raríssimo o texto que seja amigo do autor, e quanto a este, não duvido” — o narrador afirma a amizade do conto, e diz que não duvida dela.
A relação, portanto, é de afeto recíproco: o narrador cuida do conto (guarda-o, sente seu calor) e o conto cuida do narrador (acompanha-o, agasalha-o, é seu amigo). Não há nenhum traço de disputa, inveja ou admiração distanciada — o tom é de ternura e companheirismo.
A técnica que decide
A armadilha central desta questão é a extrapolação por adjetivação: a banca oferece alternativas que soam plausíveis no mundo real (um autor pode ter rivalidade com sua obra, ou admirá-la intelectualmente), mas que não estão no texto. O método é testar cada alternativa perguntando: onde o parágrafo autoriza isto? Se a resposta for “em lugar nenhum”, a alternativa está errada — ainda que seja uma possibilidade razoável fora do texto.
No caso, a palavra-chave é “amigo”, que aparece duas vezes no parágrafo, e a imagem do “gato fiel”, que estabelece a reciprocidade. A alternativa A é a única que parafraseia essas marcas textuais: “afeto mútuo” = carinho que vai do narrador ao conto e do conto ao narrador.
Alternativa A — ✅ Correta ⟵ GABARITO
A alternativa A é a única inteiramente sustentada pelo texto. O parágrafo descreve o conto como um companheiro fiel (“me acompanha por toda parte, ao jeito de gato fiel”), que está sempre junto (“Vai no meu bolso”), que conforta (“Seu calor me agasalha”) e que é amigo do autor (“é raríssimo o texto que seja amigo do autor, e quanto a este, não duvido”). O adjetivo “mútuo” capta a via de mão dupla: o narrador dá afeto (guarda, sente o calor) e o conto retribui (acompanha, agasalha, é amigo). Não há como ler o parágrafo sem perceber essa troca afetiva.
Alternativa B — ❌ Incorreta
Erro: extrapolação. O texto não menciona nenhuma disputa ou competição entre o narrador e o conto. A imagem do “gato fiel” e do “amigo” é o oposto de uma relação competitiva. A alternativa acrescenta um sentimento (competição desleal) que não está em nenhuma palavra do parágrafo — é uma invenção do examinador.
Alternativa C — ❌ Incorreta
Erro: extrapolação. “Rivalidade artística” também não encontra respaldo no texto. O narrador não disputa nada com o conto; ao contrário, ele o trata com carinho e o considera um amigo. A ideia de rivalidade contradiz o tom de companheirismo que perpassa todo o parágrafo.
Alternativa D — ❌ Incorreta
Erro: contradiz o texto. “Ressentimento velado” é o oposto do que está escrito. O narrador não esconde mágoa do conto; ele o guarda no bolso, sente seu calor e afirma não duvidar de sua amizade. Não há nenhuma palavra que sugira mágoa ou rancor — a alternativa inverte o sentimento expresso.
Alternativa E — ❌ Incorreta
Erro: restringe o alcance. “Admiração intelectual” capta apenas um polo da relação (o narrador valoriza o conto), mas suprime a reciprocidade afetiva, que é o traço central do parágrafo. O texto fala de amizade e calor, não de apreciação racional ou distanciada. Além disso, o narrador diz que o conto é “bobo, anão, contente da vida” — adjetivos que afastam a ideia de uma admiração intelectual sofisticada.
NÃO CAIA NESSA!
A banca explora a tendência de projetar no texto sentimentos que fazem sentido no mundo real (um autor pode ter rivalidade com a própria obra), mas que não estão escritos. A resposta mora nas palavras “gato fiel”, “calor me agasalha” e “amigo do autor” — qualquer alternativa que não parafraseie essas marcas está fora do texto.
PEGA ESSA DICA!
Em questões de relação entre elementos do texto, grife os adjetivos e imagens que o autor usa para descrever cada um. A alternativa correta será a que reunir todas essas marcas, não apenas uma delas.
Gabarito: letra A. A relação é de afeto mútuo porque o texto mostra, explicitamente, o carinho do narrador pelo conto e a amizade do conto pelo narrador — uma via de mão dupla que nenhuma outra alternativa capta.